Crítica: Apenas Mortais – 44ª Mostra de São Paulo

Crítica: Apenas Mortais – 44ª Mostra de São Paulo

“Apenas Mortais” é um drama forte e impactante que nos lembra da fragilidade da vida e das relações familiares.

Ficha técnica:
Direção: Liu Ze
Roteiro: Liu Ze, Zhang Weiping
Nacionalidade e Lançamento: China, 2020 (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Após terminar um relacionamento com um homem casado, Xian Tian decide transferir seu emprego e voltar à sua cidade natal, para cuidar do pai, que sofre de Alzheimer. A moça acredita que sua presença possa ser um conforto para os pais nesse momento. O cotidiano da família, porém, é estremecido quando a doença atinge um estágio avançado, ao mesmo tempo em que Xian Tian começa um novo relacionamento amoroso.

Elenco: Tang Xiaoran, Zhang Hongjing, Li Kunmian, Shi Xiaofei.

“Apenas Mortais” pode ter diversos paralelos com “Amor”, de Michael Haneke, e “Para Sempre Alice”, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Seu triunfo, no entanto, está nas diferenças. A protagonista é Xian Tian, que decide voltar para a casa dos pais aos 30 anos para ajudar a cuidar de seu pai, cada vez mais debilitado com Alzheimer.

Assim, o filme de Liu Ze se preocupa muito mais em mostrar as dores de quem cuida dos idosos debilitados do que com o sofrimento do doente. Cuidar é cansativo, e coloca familiares diante de dramas e conflitos que colocam em xeque suas relações. É isso que a câmera do cineasta se preocupa em retratar.

Em “Apenas Mortais”, o espectador é quase um convidado no apartamento da família Xian, já que a câmera não invade a intimidade dos personagens: nunca entra no banheiro, e em alguns momentos apenas passa pelo corredor, chegando a fazer um longo plano como forma de intensificar certo momento de tensão. Paradoxalmente, o andar dos acontecimentos indica que tudo se passa em um tempo narrativo mais longo do que aquele que transparece, como se os cortes fossem também elipses um pouco mais longas, mas que poderiam evidenciar mais o cansaço da rotina cansativa.

A atuação de todo o núcleo familiar formado por mãe, pai e filha é de grande intensidade. O que eleva a emoção dos atores é o fato de Liu Ze nunca se aproximar demais dos personagens, evitando assim o melodrama exagerado: observamos de longe, dando espaço para que os personagens possam existir sem que sejam invadidos.

“Apenas Mortais” tem cenas que evocam a morte antes dela: o pai coberto por uma fumaça branca e a cortina a envolver Xan Tian nos lembram que a nossa vida está a um véu de se findar. São os pequenos flertes da direção direta, naturalista, com o poético.

Visitando a escola com o namorado, a protagonista escreve “crescer” no quadro. É a sina de todos nós: crescer para então, algum dia, morrer. E se alguns personagens repetem que aos 30 anos já se deveria estar casado (conceito muito arraigado na sociedade chinesa), talvez seja com o preceito de que não somos eternos.

  • Nota
4

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