Crítica: Al-Shafaq - Quando o Céu Se Divide – 44ª Mostra de São Paulo
AL-SHAFAQ – QUANDO O CÉU SE DIVIDE – 44ª MOSTRA DE SÃO PAULO

Crítica: Al-Shafaq – Quando o Céu Se Divide – 44ª Mostra de São Paulo

“Al-Shafaq – Quando o Céu Se Divide” entrecorta diferentes linhas temporais para debater o fundamentalismo religioso.

Ficha técnica:
Direção:  Esen Isik
Roteiro:  Esen Isik
Nacionalidade e Lançamento: Suíça, 31 de outubro de 2019 (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: A família Kara é da Turquia, mas vive na Suíça. Abdullah, o pai, comanda os três filhos com pulso firme enquanto Emine, a mãe, tenta equilibrar a rigidez do marido com seu carinho pelas crianças. Um de seus filhos, o jovem Burak, não se sente pertencendo a nenhum desses dois mundos, e decide abdicar da cultura do Ocidente para se dedicar ao Alcorão.

Elenco: Beren Tuna, Kida Ramadan, Ismail Metin, Ali Kandas.

“Al-Shafaq – Quando o Céu Se Divide” não se preocupa em contar sua trama de forma linear. Acompanhamos o senhor Kara indo ver seu filho, já morto. Vemos a cicatriz em sua mão. Em um corte, o machucado ainda recente nos ajuda a entender que trata-se de um flashback. Depois disso, o longa fará idas e vindas na trama – incluindo a história paralela do menino refugiado. Com isso, acompanhamos momentos diversos ocorridos tanto na Turquia quanto na Suíça, onde vive a família turca.

A escolha da cineasta Esen Isik contribui para gerar curiosidade no espectador, já que não sabemos como as tramas vão se unir. Alguns momentos na relação entre os personagens podem ganhar uma camada extra por sabermos o que vai ocorrer. No entanto, essa mesma escolha pode gerar confusão no início, além de muitos paralelos entre cenas próximas que poderiam ser mais ricos caso se apresentassem com o espaçamento temporal que possuem.

Por falar em paralelos, alguns deles parecem inorgânicos e colocados como subterfúgios de roteiro, como a presença de Burak na vila do menino que será levado por seu pai, e até mesmo os encontros do protagonista com seus ex-colegas no metrô.

No entanto, sabemos o que Isik está fazendo. “A fé nunca causa danos”, diz um personagem já em um momento no qual sabemos que, na verdade, ela causou. Isso e todo o mergulho da trama na realidade dos grupos de fiéis muçulmanos fundamentalistas leva a debates relevantes para a Europa: como os imigrantes muçulmanos devem equilibrar as limitações impostas pela religião com o estilo de vida ocidental? De que forma os filhos dessas famílias devem ser criados? É possível encontrar um equilíbrio para evitar o mergulho no fundamentalismo?

“Al-Shafaq – Quando o Céu Se Divide” se assemelha ao filme “O Jovem Ahmed” em sua temática. No entanto, a opção pelos saltos temporais da narrativa acaba por atrapalhar o engajamento do espectador nas diferentes histórias, já que começamos vendo um jovem interessado em se afastar da cultura da família para, depois, seguir um caminho totalmente contrário e se encontrar no fundamentalismo.

Com isso, a narrativa perde a força e passeia por temas diferentes que nem sempre se concatenam. O filme é sobre crianças refugiadas, sobre um pai austero, um filho pouco religioso que migra para a dedicação extrema à sua fé, os choques culturais, e ainda tenta apresentar uma esperança nas gerações futuras por meio de uma ação irresponsável do senhor Kara. Mesmo com os paradoxos da escolha feita em “Al-Shafaq – Quando o Céu Se Divide”, não se pode desconsiderar a importância do debate aqui apresentado. Em tempos nos quais meninos de 18 anos são capazes de decapitar um professor, talvez possamos aprender mais com a mãe carinhosa, e não com o pai rigoroso.

  • Nota
3

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