Crítica: O Jovem Ahmed – 43ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)
O Jovem Ahmed - 43ª Mostra de Cinema de São Paulo

Crítica: O Jovem Ahmed – 43ª Mostra de São Paulo

O Jovem Ahmed ganhou o prêmio de melhor direção em Cannes e retrata uma realidade (e um medo) que se tornou comum nos países europeus.

Ficha técnica:
Direção: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Roteiro: Jean-Pierre Dardenne, Luc Dardenne
Nacionalidade e Lançamento: França, Bélgica, 20 de maio de 2019 (Festival de Cannes)
Sinopse: Ahmed (Idir Ben Addi) é um menino muçulmano de 13 anos de idade que vive na Bélgica. Seguindo as palavras de um imã local, e inspirado nos passos do primo extremista, ele começa a rejeitar a autoridade da mãe e da professora. Quando se convence de que a professora é uma pecadora por ministrar um curso de árabe sem utilizar o Corão, Ahmed decide matá-la para impressionar os líderes religiosos e agradar a Alá.

Elenco: Claire Bodson, Myriem Akheddiou, Olivier Bonnaud, Othmane Moumen, Victoria Bluck, Idir Ben Addi.

A relação entre a cultura europeia liberal e alguns ideais conservadores presentes fortemente no islamismo vem criando muitos embates e paradoxos. Depois de tratar de tantas questões sociais em sua cinematografia, os irmãos Dardenne falam com especial cuidado e contundência sobre este assunto.

Em O Jovem Ahmed, acompanhamos um menino de 13 anos que começa a levar muitos ensinamentos do Alcorão (e do imã) de maneira fundamentalista, chegando a contrariar até mesmo a própria família, que é bem mais liberal – sua mãe bebe bebida alcoólica e não utiliza o hijab, por exemplo.

Com a direção naturalista dos Dardenne, já celebrados no mundo todo, acompanhamos uma trama repleta de momentos de tensão construídos apenas pelas ações do protagonista. Com um estudo de personagem repleto de nuances, O Jovem Ahmed vai mostrando pouco a pouco algumas coisas que podem tentar mudar a forma de pensar do garoto, especialmente quando ele segue para uma detenção de menores (que, aliás, é de dar inveja ao sistema de “recuperação” que temos no Brasil).

A responsabilidade dos cineastas em deixar claro que o posicionamento de Ahmed não é comum a toda a comunidade islâmica é fundamental para que o filme não corra o risco de aumentar o preconceito e a xenofobia. E quando refletimos sobre a possibilidade de se criarem pessoas totalmente radicais no nosso país – tanto religiosa quanto politicamente – é possível nos relacionarmos com a situação, além de também compreender o que é específico deste caso.

Há de se chamar atenção para o semblante pouco expressivo do protagonista: o rosto pouco impactante cabe bem ao adolescente, que não transmite bem o que pensa, transparecendo um possível conflito de ideias, que representa justamente a tese que Jean-Pierre e Luc Dardenne defendem: a educação é o principal caminho na luta contra o radicalismo. Tese óbvia, mas vivemos tempos em que é necessário defender o óbvio.

A câmera, que vai e vem durante o debate na escola, que se fixa quase no chão ao mostrar o menino rezando, e que acompanha cada passo dele, sempre tremendo, já é comum ao cinema dos diretores, mas não menos importante para que possamos tentar sempre desvendar o que se passa na cabeça de Ahmed. A dubiedade do fim e a dúvida que paira até o momento final (e talvez até depois de subirem os créditos) é igualmente uma qualidade e uma desvantagem: afinal, em que momento poderemos deixar de lado essa incerteza?

  • Nota
4

Summary

A câmera, que vai e vem durante o debate na escola, que se fixa quase no chão ao mostrar o menino rezando, já é comum ao cinema dos diretores, mas não menos importante para que possamos tentar sempre desvendar o que se passa na cabeça de Ahmed.

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