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CRÍTICA: THE DEAD DON’T DIE

Zumbis! Um subgênero que nunca morre!

Ficha técnica:

Direção: Jim Jarmusch

Roteiro: Jim Jarmusch

Elenco: Bill Murray, Adam Driver, Tilda Swinton, Steve Buscemi, Danny Glover, Caleb Landry Jones, Chloë Sevigny, RZA, Tom Waits, Austin Butler, Selena Gomez e Iggy Pop.

Nacionalidade e lançamento: Estados Unidos, 28 de novembro de 2019 (Brasil).

Sinopse: Centerville, é uma pacata cidade do interior, onde os seus cidadãos sabem a vida de todo mundo e nada foge muito do comum. Até que um dia, notícias sobre o possível fim do mundo, atacam os seus moradores junto a mortos-vivos devoradores de carne.  

Um longa estranho e de muita personalidade. Temos aqui um filme com mais metáforas atacando o seu público do que zumbis dilacerando a carne de seus personagens. E esse é o recheio típico encontrado nas obras de Jim Jarmusch, e também do aqui homenageado, George A. Romero, onde já usava desse artificio para abordar uma visão sócio-política no final da década de 60.

Mas a veneração vai além. Temos uma verdadeira tempestade desordenada com tantos outros títulos da cultura pop, do próprio terror e até mesmo do tom de humor que o seu autor sempre carrega. Vamos do Nosferatu até O Enigma de Outro Mundo, não sem antes passar por Senhor dos Anéis e atingir em cheio Star Wars. Sim. Mesmo – especialmente – com Adam Driver está no elenco.

Mas seria tudo uma forma patética de chamar atenção e parecer cult? Acho que Jarmusch já passou dessa fase. Aliás ele gosta de testar suas loucuras fazendo cinema de gênero, a diferença é que não se limita a um. Já provou o mundo dos vampiros em Amantes Eternos e do western em Homem Morto. Não estamos falando apenas de um hipster entusiasta, temos aqui um profissional reconhecido três vezes em Cannes, levando Prêmio do Júri por Flores Partidas, a Câmera de Ouro por Estranhos no Paraíso e a tão aclamada Palma de Ouro pelo curta Sobre Café e Cigarros, fora inúmeros outros prêmios por todo o mundo.

O que talvez ofenda o paladar alheio é a falta de ação que filmes de mortos-vivos pedem, Jarmusch raciona bem a violência. E claro, a expectativa de assistir a obra esperando um humor como Zombieland, Todo Mundo Quase Morto e Como Sobreviver a um Ataque Zumbi. De fato, isso pode cortar um pouco o barato e acabar decepcionando fortemente. Mas a questão aqui, então é a falta de conhecimento do seu diretor, e de sua filmografia independente e extremamente autoral.

Jarmusch esquece a urgência e experimenta todos os limites do gênero injetando sua esquisitice. Faz do longa uma fábula, encharcada de metalinguagem em uma atmosfera letárgica e pessimista, onde se levanta mais discussões do que mortos do cemitério. É existencialismo da forma mais pop e agridoce possível.

Me perdoem citar Dungeons and Dragons, mas em uma mesa de RPG, você pode ter um personagem focado em uma classe como bardo, mas tem a liberdade em subir de level e experimentar como é ser um artista com talentos de ladino e por aí vai. Jarmusch é um diretor que no RPG chamamos de multiclasse, pois ele começou como David Lynch, depois pegou um nivelzinho de Robert Rodriguez, outro de Quentin Tarantino e hoje tem focado em subir como os Irmãos Coen.

The Dead Don’t Die abriu o Festival de Cannes este ano, suas veias estão inchadas de tanta crítica, experimentação, uma narrativa curiosa e um puta elenco bacana, tudo comprado por um argumento absurdo que não se vê por aí. Seu humor é mais inteligente e até mesmo um pouco apático – principalmente através do Bill Murray – onde diálogos bobos dizem muito sobre o roteiro, sobre o seu objetivo e mais ainda sobre a gente.

Passagem interessantes como a reação das formigas, o pessoal na rádio falando: “cientistas não sabem o que falam”, a repetição da música que leva o título do filme – do Sturgill Simpson que faz uma pontinha de zumbi – e as frases impactantes que passam apaisana como: “Mas ele não é um zumbi, é só um morto-vivo”. Como um todo parece um filme que não acontece nada, mas talvez se pensarmos como sitcon, vai funcionar melhor.

Uma leitura interessante que me peguei fazendo é que todos nós se tornamos zumbis e nossas idiossincrasias acabamos devorando o pacato interior de nossos estados. Ou seja, as palavras propagadas pelos mortos-caminhantes, como “fashion”, “bluetooth” e “wi-fi”, chegaram cambaleantes e fáceis de desviar, até que são tantos que abocanharam toda a cidade. Todos viraram o que mais temiam, e se afogaram na contemporaneidade. Percebam que a minha tese tem mais credibilidade, quando lembramos que ao invés de sangue, temos poeira negra, como uma espécie de poluição, como se tivessem se tornado podres. Sujos.

Mas se estou elogiando tanto, cadê as 5 estrelas no rodapé do texto? Bom, o filme é superficial em quase tudo que se propõem. Acaba batendo pouco na mídia e na política norte-americana, abusa pouco do humor inteligente com poucas frases realmente significativas e marcantes. Chega tocar na filosofia, mas não a espreme e deixa muita coisa em aberto, dando uma sensação de perda de tempo horrível. Tem escolhas amargas e prepotentes – que particularmente acho válido no cinema autoral independente – que as vezes acaba enfraquecendo a proposta.

Uma obra ousada e charmosa. Uma ótica perturbadora contada por uma visão nada convencional. Quando o personagem amigo do “Frodo”, entrega o jornal sobre o fim do mundo, ele tenta reconforta-lo com a frase: “Aprecie os detalhes, o mundo é perfeito”. Uma vez que o diretor quebra diversas vezes a quarta parede de uma forma tão engenhosa e saborosa, nada impede que essa frase seja diretamente para o público, do qual tem que se apegar aos detalhes da trama e não a história principal. É ali que ele se torna perfeito.

3.5

Um trash poético de humor deslocado...

…que nos manipula com a liberdade de cada um sorver o que mais se apegar. É um filme espontâneo, desde o uso de um mesmo take diversas vezes, o maravilhoso andar de robô das personagens que mal sabiam o que fazer com os braços nas cenas de plano americano e plano médio longo, como se fossem apenas bonecos nas mãos de Jarmusch. O mise en scene pontual, a edição sagaz do brasileiro Affonso Gonçalves, que estrutura muito bem a mensagem. Jim Jarmusch segue agradando o mundo, com as suas obras desagradáveis.

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