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CRÍTICA: ALGUMA COISA ASSIM

Do curta ao longa, conduzindo a adolescência a vida adulta em uma transição alá Boyhood ou alguma coisa assim.

Ficha técnica:

Direção: Esmir Filho e Mariana Bastos
Roteiro: Esmir Filho e Mariana Bastos
Elenco: Caroline Abras, André Antunes, Clemens Schick, Juliane Elting, Knut Berger, Lígia Cortez e Vera Holtz.
Nacionalidade e lançamento: Brasil/Alemanha, 26 de Julho de 2018 (mundial)

Sinopse: Caio e Mari, dois adolescentes da típica farra paulistana, crescem e tomam rumos diferentes, tendo suas vidas cruzadas diversas vezes ao longo de suas trajetórias pessoais, reanimando sentimentos e reavivando lembranças.

Quero começar perguntando: você já viu o curta no qual este filme foi concebido? Conhece os seus autores? Tem noção da quantidade de prêmios que já conquistaram por aí? Não? Então clique AQUI nesta ótima matéria do nosso querido Daniel Cury. Uma vez feito isso, vamos a crítica.

Agora que você já sabe o que está por vir com este longa que será lançado esta semana (dia 26 de Julho), posso falar que foi maravilhoso a experiência da pré-estréia do filme ter rolado no ventre da Rua Augusta, tão citada por todo o filme e praticamente palco de todas peripécias do contemplado curta. Visitamos além dessa grande veia marginal do centro de São Paulo, a emblemática Capital Alemã, ou seja, já se espera um empenho maior nas locações de ambos os pólos, porém, não tem como não ficar de boca a berta com os lugares que foram rodados esta obra. O que era pra talvez ser uma problema/limitação virou um grande diferencial. Que primor.

A escolha do não linear, nos envolve muito mais e narrativamente funciona bem ao costurar pontos precisos e essenciais, fora que dá todo um charme e uma maior profundidade ao mergulho. Temos aqui diretores que souberam não só escrever – no mesmo nível do curta, reconhecido em Cannes – como dirigir suas cenas. Diversos artifícios muito bem englobados e utilizados de formas até distintas – sem spoiler é claro, mas uma em especial que se move em circulo é muito inteligente e sagaz – trazem cenas e cenários muito bem captados com uma fotografia incansável que ora explora da amplitude da metrópole ao vasto da floresta, e ora se foca no mínimo traquejar da boca e o cair dos olhos.

Quero dar um destaque para um plano sequência no terceiro ato que é de tirar o chapéu para a coragem da dupla de cineastas, para o ensaio exaustivo que deve ter ocorrido e principalmente ao casal de atores que mandaram muito, mas muitoooo bem. Até agora não paro de pensar nesta cena.

Mas a montagem não linear vem na ”pós” junto ao som e aqui amigos, temos uma trilha pulsante, realmente viva, pois ela tem a sua própria face e personalidade. Nos pegamos impulsionados pela sua malícia acústica e de repente irritados por vezes com ela se destoando da cena, nos fazendo colocando a julgar a sua escolha. Mas por que? Porque ela é um personagem a parte, que sofre, vibra e pois tem a sua individualidade, caráter, presença. Existe todo um flerte entre a trilha e cada cena, em uma montanha russa de desejos e prazeres entre eles, das rejeições ao fervoroso sexo, que acaba se tornando uma parada única, pouco vista por aí.

Falando um pouco dos protagonistas, o trabalho do André Antunes é surpreendente, por ter uma carreira fílmica tão humilde – hoje mudou de área e se tornou psicanalista – temos aqui um ator para se propor qualquer papel. Antunes sabe engajar, respira o personagem das risadas ao choro. Este cara não pode abandonar o cinema! Caroline Abras não fica atrás, ganhando prêmios por esta sua personagem e tantas outras, é de uma dedicação e empenho sobre a Mari que você esquece que existe uma profissional ali. Enche os olhos. Atriz de atmosfera, traço, sabe lapidar e sustentar, transborda excelência. A dupla é formidável, desde aquela união de que fica em sua mente que estes dois só podem ser amigos a vida toda de verdade, para conseguirem ter tamanho afeto entre eles, porque a magia é algo fora da curva, um trabalho de encaixes que flutua muito bem. Abras já vinha mostrando o seu gingado na série original do Netflix O Mecanismo, e também esta sua facilidade em parecer conviver com o ator que contracena em set desde de garotinha, como em o espetacular Gabriel e a Montanha.

Todos os demais atores, seja nas pequenas pontas ou com mais tempo de tela, temos a experiência da Lígia Cortez e Vera Holtz que nos banha com aquela facilidade, naturalidade que só os grandes nomes da indústria possuem, e o trio de gringos: Knut Berger, Juliane Elting e Clemens Schick, todos com o seu devido peso e demonstrando serem muito competentes nestes papéis de contexto ordinário que o longa se propõem realizar. Foi uma bela montagem de casting.

No roteiro temos o uso de cenas de 2006, 2013 e 2016, o que força o pessoal comparar ao estrangeiro BoyhoodClaro, completamente válido pelo modelo de transição e por literalmente vivenciarmos o decorrer dos personagens, porém, aqui assistimos confrontos que nos nutrem de óticas peculiares e contrastivas sobre casamento, sexualidade, reconfiguração familiar, aborto, insegurança, amadurecimento, amor e relacionamento aberto, entre tantas outras problemáticas, sempre exploradas com humor no tom certo, e as pancadas em nossa mente muito bem colocadas.

Entretanto nos deparamos com algo que tinha tudo, absolutamente tudo que escrevi nas linhas acima para ser muito maior do que foi, e não só digo em questão de extensão de minutagem – que poderia ter facilmente mais 20 minutos – mas de valor a se agregar. Foram tantos bons pontos propostos que poderia sim tê-los carregado com mais afinco, terem insistido mais em algumas posições. Senti que a dinâmica que a montagem proporciona fez com que tudo que foi abordado tivesse um tom muito passageiro – o que mais uma vez traz realidade e naturalidade ao roteiro, o que é um ponto positivo, mas que não agradará a todos. Outro ponto que talvez terá um alto índice de ”narizes torcidos” é em seu desfecho, o que particularmente creio que dê ainda mais elegância à película, mas que de fato fez o famoso ”burburinho” dentro da sessão. Quanto a isso, já dizia o humorista Bill Cosby: ”Não sei o segredo do sucesso. Mas o segredo do fracasso é tentar agradar todo mundo” o que é uma grande verdade e tira a assinatura de muitos diretores reprimidos por aí.

Para finalizar então, quero deixar fora o link mais uma vez da matéria do Dani AQUI com o curta e uma grande cena real extraída do longa para que você sinta mais um pouquinho do sabor, e deixarei o videoclipe lançado ontem, com cenas inéditas que não estão no filme e que também foi dirigido pelo Esmir Filho. Confiram:

 

4

Resumo

Um puta trabalho por partes dos atores e dois dedinhos de loucura, servidos com grandes doses de questionamentos. Alguma Coisa Assim é mais uma amostra da bela transformação que está ocorrendo no nosso cenário cinematográfico. Os jovens estão vindo com tudo.

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