CRÍTICA: EU, TONYA

CRÍTICA: EU, TONYA

Violência, sarcasmo e péssimas escolhas, tudo socados em um par de patins

 

Ficha técnica:

Direção: Craig Gillespie
Roteiro: Steven Rogers
Elenco:
Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney e Caitlin Carver
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2017 (15 de Fevereiro de 2018 no Brasil)

Sinopse: Conhecemos a vida da ex-patinadora Tonya Harding e todos os problemas que enfrentou da infância até a vida adulta, passando de um símbolo americano como Campeã à uma odiada trapaceira Olímpica.

É 1990 e a América mais uma vez está em busca de um ídolo, alguém para pôr em um pedestal e fazer toda a sua Nação amar e se espelhar, sugando o máximo possível do ícone. E era tudo que Tonya queria ser, mas nada é tão fácil assim.

Apaixonada pela patinação desde muito pequena, Tonya Harding (Margot Robbie) tinha uma mãe tão fria quanto o gelo da pista em que treinava, e treinava duro todo santo dia, chegando a abandonar a escola e qualquer outro tipo de estudo. LaVona Harding (Allison Jamey) durona, egoísta e de uma ironia solvente – com tempo certo, se tornará uma das mães mais inesquecíveis das telonas – tem um peso inestimável para a trama. Com o primeiro Arco inteiramente em seu bolso, ela é a odiosa personagem que nos culpamos por amar de alguma forma. – Que trabalho espetacular. Entreguem logo a estatueta para esta mulher!!

Além de nos apresentar logo de cara para essas duas e suas atuações impecáveis, somos pegos pela bela trilha sonora que, acompanhada do trabalho muito bem feito dos figurinos e locações, transportam instantaneamente a nossa mente para outra década.

Para quem achou que a Margot Robbie seria apenas mais uma lindíssima garota em Hollywood para fazer cenas como em O Lobo de Wall Street, ou quem sabe, o seu talento e fama, se limitaria a ficar presa eternamente na irritante (porém funcional e bem retratada) Arlequina, no fiasco que foi Esquadrão Suícida, temos péssimas notícias.

Mais uma vez Robbie está mostrando a sua ascensão abrindo portas para que todos conheçam o seu nome. Agora nada mais e nada menos, a porta do Oscar foi a baixo com Eu, Tonya. Pode ser que não ganhe o prêmio pela sua interpretação, até porque a concorrência vem pesadíssima com Frances McDormand, Sally Hawkins e a sempre, Meryl Streep. O fato é, que com isso o seu nome já está registrado na história com tamanha Indicação.

A atriz interpreta Tonya desde os 15 anos, com toda a sua energia e brutalidade até se transformar em uma sobrevivente amargurada de 40 e poucos. Onde os sonhos ficaram para trás, junto a suas grandes conquistas que a enchem de orgulho. A patinadora sempre teve ao seu favor uma habilidade grandiosa, sublime, ímpar. Tecnicamente tinha tudo para se tornar a melhor. Em contrapartida, é difícil se encaixar em um esporte tão pomposo, elegante e delicado sendo a garota que era.

Quando se trabalha em um Roteiro, existe a ‘’Lei dos Retornos Diminutivos’’, onde se brinca com a onda nas ‘’Trocas de Valor’’, indo do positivo ao negativo, do prazer a dor, e neste conceito, não se deve repetir as mesmas escolhas, pois se bater muito na mesma tecla, você enfraquece o seu efeito. E aqui, é tão bem arquitetado, que não importa se você tem estômago fraco para essas coisas ou é um insensível com tendências sociopatas, o repetir das agressões durante o longa, faz você se chocar e se irritar em cada uma das vezes que ocorre.

A forma de falso documentário, traz traços mais realistas a biografia e ao mesmo tempo um ar imoral, cômico, que a cada passagem carrega um charme muito gostoso. Formato este, optado pelo roteirista Steven Rogers (do adaptado PS, Eu Te Amo e do distinto Natal dos Coopers) onde mostra versatilidade e aos poucos se torna um interessante nome na área.

A narrativa é de um capricho cuidadoso, toda trabalhadinha para ter o seu próprio formato e mexer com o seu público de uma forma inquietante. Uma verdadeira gaiola, que te faz refém, levando em um grande passeio por vários tons dramáticos. E mesmo o público sabendo o que vai acontecer, o Roteiro sabe nos massagear de forma que não perdemos o gosto até o final. Grande parte disso, graças a excelente montagem, onde também está concorrendo na categoria de Melhor Edição do ano.

Na Direção o australiano Craig Gillespie mostra a confiança no Roteiro e que tem o filme completamente nas mãos. Demonstra sutileza e certeza em tudo que se propõem a fazer, não se perde em momento algum. No seu décimo ano de carreira, este sendo o seu sexto longa (dirigiu filmes como o remake de A Hora do Espanto e o corajoso A Garota Ideal) mostra avanço ao seu ápice na área, chegando a quebrar a quarta parede com maestria sem estragar a imersão. O Diretor investe trabalhar o dinamismo e cortes quase videoclípticos, alá Guy Ritchie, e sabe sustentar o tom de deboche que acolhe desde o início.

Se é possível relatar algum ponto negativo nessa obra, podemos citar no movimento de câmera e as manobras em cenas sobre o gelo – que são deliciosas, bem coreografadas e executadas – porém, não só para os rígidos, o efeito do rosto computadorizado da atriz em cima de uma verdadeira patinadora, nos agride um pouquinho aqui, mais um pouco ali e acaba incomodando. Uma fotografia enérgica e viva, tem o seu formato violentado pelo mal utilizada fundo verde.

Outra pedrinha no sapato de alguns, pode vir a ser o Namorado agressor de Tonya, Jeff Gillooly (Sebastian Stan), que em cenas de discussão e hostilidade, gera uma boa química, mas peca em toda cena que a emoção não é verbalizada. O nível de interpretação gerado pelas garotas do casting se dilui em suas mãos, parece que falta entrega da parte dele de alguma forma. A cena mais patética do filme, também fica por conta de Stan, onde ainda no primeiro ato, vemos o ator falhar miseravelmente tentando ser um adolescente com os seus 35 anos nas costas. E convenhamos, não é todo estúdio que tem o CGI rejuvenescedor da Marvel ou a dedicação sobre-humana do Christian Bale.

De um trabalho puro, limpo, onde retratou de forma visceral a vida da patinadora Tonya Harding. Margot soube lidar muito bem com o drama proposto, trazer vida a personagem com muita dedicação e muito carisma. Durante a história, a protagonista se mostra uma grande vítima de suas escolhas, por mais que o temperamento alheio seja ainda pior, e lhe afete de forma dolorosa, Tonya quase beira a vilãnisse ,concretizando que ninguém no filme fica em tons pretos ou brancos, seus egos não permitem uma unilateralidade, fazendo com que quase se perca em meio ao sonho. Isso deixa um certo sabor amargo em seus passos, permitindo uma interpretação dúbia por alguns e cravando para outros, que acima do certos e errado, Tonya era humana.

Destaque para Mckenna Grace, a Tonya criança, onde contracenou com Allison Jamey sem medo algum, e convenceu assim como o papel exigia. E não podemos esquecer da sempre fofa Julianne Nicholson, com um trabalho mais contido e provedor de ”escadas” para os demais em cenas em que a sua personagem, a treinadora Diane Rawlinson se encontrava presente.

Quando o filme deixa um pouco a crueldade e o escárnio de lado e se propõem a ser esperançoso e de alguma forma, aventuresco, também é muito bem explorado e nos ganha fácil mesmo em plena transição. A espera de um filme biográfico onde conquistas e superação em meio a problemas técnicos, familiares e amorosos como na maioria das obras cinematográficas, aqui você apanha junto a protagonista em cada cena de injúria e sofre a cada má escolha.

 

 

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