Crítica: Viva – A Vida é uma Festa (Coco, 2017)
Viva - A Vida é uma Festa

Crítica: Viva – A Vida é uma Festa (Coco, 2017)

Viva – A Vida é uma Festa é um filme que sabe emocionar qualquer um a partir do retrato de uma cultura específica.

 

Ficha técnica: 
Direção: Lee Unkrich, Adrian Molina
Roteiro: Adrian Molina, Matthew Aldrich
Elenco:  Anthony Gonzalez, Gael García Bernal, Benjamin Bratt, Renee Victor
Nacionalidade e lançamento: Estados Unidos, 2017 (4 de janeiro de 2018 no Brasil)

Sinopse: Miguel é confrontado pela família, que o proíbe de ser músico, e acaba indo parar no mundo dos mortos, onde aprenderá lições importantes.

 

Cada vez menos, as tradições e os antepassados são valorizados pelas pessoas. Pouco importa quem foram os nossos bisavós e tataravós: preocupamo-nos com o hoje e o agora. Em “Viva – A Vida é uma Festa”, nova animação da Pixar, podemos ver o quanto isso é importante com base em uma festa típica mexicana: o Dia dos Mortos.

Acompanhamos a história de Miguel Rivera, um menino que sonha em ser músico, mas vive em uma família onde a música é proibida. O motivo? O tataravô de Miguel deixou sua família para viver de música, e a amargura da tataravó foi passada de geração em geração. O garoto, entristecido com a família e sem acreditar na celebração de respeito aos antepassados, acaba indo parar no próprio mundo dos mortos, onde deverá encontrar seu tataravô para que sua família viva uma redenção do passado – e assim ele possa retornar ao mundo dos vivos.

A Pixar é conhecida por acertar de forma certeira em ideias novas, ao contrário das continuações, que dificilmente superam ou se igualam aos filmes originais (Toy Story é exceção, claro). “Viva – A Vida é uma Festa” é a prova de como o estúdio não apenas sabe explorar novas ideias, como desenvolve suas histórias de forma incrivelmente bem estruturada, e com qualidade técnica primorosa.

É fácil de reparar, por exemplo, como uma animação voltada às crianças poderia se perder para explicar uma linhagem familiar de quatro gerações. Ou então, poderia tornar-se enfadonha nesta explicação. Ela não apenas vence essa dificuldade, como ainda nos apresenta traços físicos e personalidades muito diferentes em cada um deles. E por falar em traços: que traços! Cada expressão de felicidade de Miguel e cada ruga de sua avó e sua bisavó carregam em si uma história. Aliás, tecnicamente o filme é impecável: as mudanças no corpo de Miguel, a fotografia dos ambientes, especialmente aqueles cheios de velas, o design de produção do mundo dos mortos, e as cores que alegram o cemitério no dia da celebração são apenas alguns dos pontos altos.

 

Digo mais: logo nos primeiros minutos de “Viva – A Vida é uma Festa”, dei um sorriso achando que havia “matado a charada” do filme e descoberto a verdade sobre o tataravô do protagonista – e ainda fiz desdém da trama, como se fosse muito óbvia. Mas é claro que os roteiristas da Pixar me pegaram de jeito e deram um belo tapa com luva de pelica. E o mais incrível: a explicação para esse plot twist faz todo o sentido a partir do momento em que Miguel percebe que a presença de certo personagem não ocorreu de forma gratuita ou ao acaso (e essa descoberta ainda ajuda na transformação de outro personagem).

É belo perceber, também, como o arco dramático do protagonista ocorre de forma gradativa. Logo após se dar conta de que o mundo dos mortos realmente existe, ele continua vendo esses personagens apenas como pessoas no seu caminho, para somente mais tarde compreender a importância da família e, em respeito à memória perdida do tataravô, aceita até mesmo a condição dada no início para que ele volte do mundo dos mortos.

 

A partir deste ponto, o texto pode conter SPOILERS

Entre tudo o que se pode analisar do filme, quero destacar os elementos que mostram as mensagens que a animação traz sobre família, passado e futuro. O protagonista, Miguel, é apenas uma criança (ou seja, representante do futuro), mas carrega o drama de um preconceito que existe em sua família com relação à música. A mensagem do filme, portanto, tem relação com o fato de que deve-se valorizar o passado e a História, mas rompendo com preconceitos antigos. É óbvio para qualquer um que não é nada bacana ter preconceito contra música… mas tire esse elemento e coloque os preconceitos que os seus avós carregam com eles, e você terá uma mensagem um pouco mais clara.

O fato de Miguel descobrir que o famoso cantor Ernesto de la Cruz construiu sua reputação em cima de mentiras faz com que, graças à nova geração, seja possível valorizar quem realmente fez a história: considerando que o filme americano se passa no México e valoriza a cultura latina com referências à herança dos povos indígenas, não fica difícil compreender esta mensagem, que corrobora com comissões da verdade e revisões históricas cada vez mais comuns, mesmo que ainda no plano acadêmico.

 

Por fim, apesar do protagonista masculino, é interessante notar que as figuras mais velhas que carregam a história consigo são duas mulheres: a avó chamada de Abuelita, que ensina Miguel sobre as tradições, e a bisavó Mamá Ines (Mamá Coco no original, nome que dá título ao filme mas foi adaptado para evitar confusões com palavras ofensivas da nossa língua). Especialmente no momento em que Mamá Ines conta sobre seu pai no final do filme, podemos depreender uma interessante valorização da mulher como dona do discurso histórico. Aliás, o fato de que foi a tataravó quem iniciou o negócio da família é sintomático de países latinos, onde tantas mulheres bancam a família sozinhas.

Por fim, não tem como falar de “Viva – A Vida é uma Festa” sem citar os momentos em que dedos perfeitamente animados dedilham notas no violão. As músicas carregadas de emoção formam o tempero final da receita que pode levar qualquer um às lágrimas, e que trarão em nós rapidamente a vontade de conhecer melhor nossas histórias e nossos antepassados.

Como fruto de seu tempo, “Viva – A Vida é uma Festa” é certeiro. Valoriza a memória (devidamente corrigida) de todos nós por meio do retrato da cultura de um povo historicamente oprimido: os indígenas, os latinos, os mexicanos nos Estados Unidos. É a arte mostrando que é capaz de derrubar muros.

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