Crítica: "João, O Maestro", filme com Alexandre Nero
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Crítica: João, O Maestro

João, O Maestro” é um grande desperdício de potencial.

 

Ficha técnica:

Direção e Roteiro: Mauro Lima
Elenco:  Alexandre Nero, Rodrigo Pandolfo, Aline Moraes, Fernanda Nobre, Caco Ciocler, Davi Campolongo, Kevin Sebastian.
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 17 de agosto de 2017

SINOPSE: A biografia de João Carlos Martins mostra a vida do pianista e maestro desde que era uma criança considerada um prodígio do piano. Ao longo dos anos, João ganha fama e passa a tocar nos melhores lugares do mundo. Em sua fase adulta após alcançar o sucesso, sofre um acidente que prejudica os movimentos da mão direita. Mais tarde, outro acidente o obriga a se reinventar em sua carreira musical.

 

Em “João, O Maestro”, há dois tristes paradoxos. A primeira coisa que vemos no filme é um letreiro com o significado de paixão: a paixão que guiou – e guia – o protagonista João Carlos Martins ao longo de toda a sua vida. Mais tarde, o personagem de Caco Ciocler (na melhor interpretação de todo o filme) pede para que o jovem João (Pandolfo) toque o silêncio como forma de fazer com que a música seja mais tocante. Para haver paixão, portanto, é necessário que haja silêncio. É uma pena que o filme “João, O Maestro” sofra com a falta de paixão – e de silêncio.

Focado em narrar diversos pontos da vida de João Carlos Martins – que já se tornou uma das personalidades mais importantes da Arte no Brasil, em todos os aspectos e de todos os tempos – o filme tenta se basear em idas e vindas temporais para tentar reforçar elementos da história de vida do artista, falhando ao não conseguir dar impacto a isso.

Por falar em impacto, este é um dos principais problemas do filme de Mauro Lima (que já esteve em melhor forma em “Meu Nome Não é Johnny” e “Tim Maia“). Com poucos momentos de quietude e nenhum momento de qualquer “silêncio narrativo” que permita ao público sentir mais da dor do protagonista, o filme não cria o impacto necessário no espectador.

O filme é verborrágico – algo que não combina com a vida do biografado, que sempre transmitiu emoção sem dizer nada e teve problemas da saúde que o impediam de falar demais. “João, O Maestro” tenta explicar muito ao espectador todos os problemas de saúde que atingiram João Carlos, mas poucas vezes nos passa a real sensação de sofrimento, trazendo os momentos de sua vida apenas como episódios isolados, e nunca como relações causais. Aliás, a cena em que vemos sangue nas teclas do piano faz lembrar de um certo Whiplash, com a diferença que o longa americano demonstrava a dor no rosto do ator e tinha a música como complemento à composição imagética, em vez de ser o elemento principal de dramaticidade, como é aqui.

Um exemplo que simboliza “João, O Maestro” é o de uma fala sobre as mãos do protagonista. Em sua infância, uma menina afirma que as mãos dele fazem coisas diferentes e parecem não se conhecer. Mais tarde, já sob a interpretação de Alexandre Nero, ele repete a frase para falar sobre suas mãos: não mais as que dedilham o piano, mas as que não obedecem aos comandos de seu cérebro. É uma pena que isso ocorra sem silêncios, sem uma sequência que nos prepare para ouvir a frase, em uma situação que não traz reação emocional. Para atrapalhar, Nero não consegue dar ao personagem o peso necessário – ao contrário dos outros dois atores, que ao menos possuem algum carisma.

A montagem, apressada, não consegue dar impacto às situações de acidentes, que deveriam ser momentos chave na trama. Seria interessante, por exemplo, se o filme explorasse um pouco mais a paixão do pianista por futebol, para então mostrá-lo como uma fraqueza capaz de atrapalhar sua carreira. Mas não: ele simplesmente sofre um acidente “do nada”. Em sua verborragia, surge um personagem para questionar quem “governa” as mãos de João: Deus ou o Diabo? Depois disso, o chamam de monstro. Mas em nenhum momento o filme volta a tratar disso ou tenta trazer uma resposta.

As personagens mulheres são um problema à parte. Surgem como troféus ou muletas do protagonista. E considerando a vida de João, é fácil compreender a importância que elas tiveram por dar apoio, sustentação e fazer algo complexo como, por exemplo, criar os filhos! Um pouco mais de respeito a elas por parte do roteiro seria bem-vindo.

Embora alguns diálogos sejam interessantes – e não há necessidade de que sejam naturalistas – é uma pena que alguns pareçam forçados ou ambiciosos demais.

Mas “João, O Maestro” não é um filme ruim. O que o salva é a sua base: a história de vida de João Carlos Martins é digna de nota, sua grandeza artística é maravilhosa, e sua importância para a música brasileira é inenarrável. Um homem como ele merecia um filme melhor.

Faltou paixão.

  • Nota
2.5

Resumo

O filme é verborrágico – algo que não combina com a vida do biografado, que sempre transmitiu emoção sem dizer nada e teve problemas da saúde que o impediam de falar demais. “João, O Maestro” tenta explicar muito ao espectador todos os problemas de saúde que atingiram João Carlos, mas poucas vezes nos passa a real sensação de sofrimento, trazendo os momentos de sua vida apenas como episódios isolados.

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