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Crítica: Meu Amigo, O Dragão

Meu Amigo, O Dragão, mais nova releitura da Disney, é como um conto clássico lido para você antes de dormir.

Ficha técnica:

Direção: David Lowery
Roteiro: David Lowery & Toby Halbrooks
Elenco: Bryce Dallas Howard, Oakes Fegley, Wes Bentley, Karl Urban, Oona Laurence, Isiah Whitlock, Jr., Robert Redford
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (29 de setembro de 2016 no Brasil)

Sinopse: As aventuras de um garoto órfão chamado Pete e seu melhor amigo Elliot, que por acaso é também um Dragão. 

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Das releituras da Disney baseadas em clássicos e animações do estúdio, Meu Amigo, O Dragão, a mais recente, é também uma das mais interessantes – e eficientes. Utilizando a ideia básica do original, centrada em Pete e seu amigo Elliot, que é um dragão, esta obra é bem diferente daquela em temática. Enquanto a original era leve e possuía uma certa auto consciência que beirava a metalinguagem, com várias canções e um Elliot feito em animação que dançava em meio aos atores reais, aqui temos uma história que permanece leve, mas não podia ser mais honesta e “pura” como fábula.

E a sensação que se tem ao final de Meu Amigo, O Dragão é justamente essa: a de que alguém acabou de ler um clássico livro infantil para você antes de dormir. É o resgate de uma “pureza”, de uma certa inocência em relação a seus personagens que não se vê atualmente. E consegue ter uma grandeza e sensação de aventura que em momento algum soa forçada ou imposta por obrigação. É tudo que O Bom Gigante Amigo  de Steven Spielberg queria ser e não é.

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Durante anos, o velho escultor de madeira Mr. Meacham (Robert Redford) tem encantado crianças locais com suas histórias sobre o temível dragão que mora no meio da floresta do Noroeste do Pacífico. Para sua filha, Grace (Bryce Dallas Howard), que trabalha como guarda florestal, essas histórias são pouco mais do que histórias fantásticas…até que ela conhece Pete (Oakes Fegley). Pete é um misterioso garoto de 10 anos sem família, nem casa, que diz viver na floresta com um dragão gigante e verde chamado Elliot. E segundo as descrições de Pete, Elliot parece ser extremamente semelhante ao dragão das histórias de Mr. Meacham. Com a ajuda de Natalie (Oona Laurence), uma garota de 11 anos cujo pai Jack (Wes Bentley) é dono da madeireira local, Grace parte em busca de descobrir de onde Pete veio, onde é o seu lugar e a verdade sobre esse dragão.

Dirigida por David Lowery (diretor do drama independente Amor Fora da Lei), o filme possui a “visão diferenciada” que um diretor como Lowery traria para o projeto. Percebemos a influência do cineasta logo no início, quando presenciamos um acidente de carro do ponto de vista do jovem Pete. Justamente por não ser excessivamente dramática, a cena funciona e é emocionante – singela até – assim como o primeiro encontro de Pete com o dragão Elliot. Ou então nos belos momentos em que acompanhamos Pete e Elliot se aventurando pela floresta, com a câmera na mão e bela fotografia de Bojan Bazelli, que lembram inclusive outra obra “de autor” que adaptava uma história amada e que girava em torno da relação de um garoto com um “monstro”: Onde Vivem Os Monstros, de Spike Jonze.

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As semelhanças começam no próprio pôster, com a criatura escondida atrás de uma árvore. Porém, enquanto a obra de Jonze falhava em se comunicar com todos os públicos (principalmente com as crianças), o filme de Lowery é mais universal. Inclusive, o filme merece destaque por ir contra a corrente dos blockbusters atuais, incluindo músicas Folk em muitas cenas ao invés do pop pasteurizado que se vê nesses filmes grandes e modernos, atribuindo um tom rústico todo particular à obra. A verdade é que Meu Amigo, O Dragão é um filme de relações disfarçado de blockbuster.

Vamos a mais uma comparação com a outra produção da criatura “amiga” que a Disney trouxe às telas neste ano: se em minha crítica de O Bom Gigante Amigo expressei a dificuldade que tive em simplesmente acompanhar a protagonista e o gigante do título brincando na floresta, justamente pela falta de carisma e desinteresse que as personalidades aborrecidas de ambos geravam, neste filme o maior triunfo reside justamente nos momentos em que acompanhamos a tocante relação de Pete e Elliot.

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E Elliot, aliás, representa um grande esforço não só no design de personagem, mas também na animação. O visual do dragão – uma espécie de mistura de cachorro com réptil – desperta uma estranheza de início por ser justamente diferente de tudo que estamos costumados a ver no visual de um dragão “convencional”, mas é justamente essa diferença que acaba atribuindo uma identidade e charme a Elliot, tornando-o único. Reparem no detalhe das cicatrizes e de um dos dentes quebrados, homenagem ao filme original.

Os efeitos especiais em si dão alguns deslizes na questão do realismo de Elliot (devido a um orçamento menor, o que é compreensível se levarmos em conta de que esta não é uma “marca” tão forte como a maioria das últimas releituras do estúdio), mas em nenhum momento duvidamos de sua existência por ele possuir o mais importante: coração. E fica aqui mais uma lição ao “titio” Spielberg (outrora mestre neste tipo de filme): você pode ter milhões de dólares (140 no BGA contra 60 milhões aqui) e Mark Rylance fazendo captura de movimento para seu personagem, mas se ele não possuir coração, ele parecerá tão falso quanto um boneco de massinha.

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Na atuação, todos estão bem em seus respectivos papeis. O maior destaque é Robert Redford, com um vozeirão e presença que o tornam sábio mesmo falando sobre dragões verdes – e até o arco dele consegue emocionar. Bryce Dallas Howard consegue tornar crível o apego de sua personagem com o Pete de Oakes Fegley, que demonstra estar à vontade no papel. Oona Laurence, promissora atriz mirim que era um dos destaques em Nocaute, aqui faz um papel mais convencional. Até mesmo Karl Urban, que seria o “cara mau, mas não do mal” consegue trazer uma leveza para um personagem que, se interpretado por outro ator, poderia facilmente cair no famigerado “lugar-comum”.

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E é justamente essa leveza, essa sensação de estar lendo um pequeno conto clássico antes de dormir, que torna este filme tão atemporal, tão agradável e tão bonito. Com o clima e espírito dos filmes dos anos 80, com criaturas fantásticas e um núcleo familiar inserido no meio, Meu Amigo, O Dragão, consegue emocionar, divertir e sim, ser mais “spielberguiano” do que muitas obras recentes que falham em emular este estilo tão clássico e puro, oriundo das obras mais clássicas da Disney. São por esses tipos de filmes – e valores – que o estúdio do Mickey Mouse deve lutar. Não as “remasterizações”, os Alice No  País Das Maravilhas pop e vazias do mundo, mas sim pelas histórias como a de Pete e Elliot: sensíveis, aventurescas e, naquela velha expressão tão usada, mas que não poderia se encaixar melhor aqui, feitas para toda a família.

  • Nota Geral:
4

Resumo

Com o clima e espírito dos filmes dos anos 80, com criaturas fantásticas e um núcleo familiar inserido no meio, Meu Amigo, O Dragão, consegue emocionar, divertir e sim, ser mais “spielberguiano” do que muitas obras recentes que falham em emular este estilo tão clássico e puro, oriundo das obras mais clássicas da Disney. São por esses tipos de filmes – e valores – que o estúdio do Mickey Mouse deve lutar. Não as “remasterizações”, os Alice No País Das Maravilhas pop e vazias do mundo, mas sim pelas histórias como a de Pete e Elliot: sensíveis, aventurescas e, naquela velha expressão tão usada, mas que não poderia se encaixar melhor aqui, feitas para toda a família.

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