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Crítica: La Vanité

La Vanité é uma tragicomédia sobre eutanásia, relações humanas e a vida

Ficha técnica:
Direção: Lionel Baier
Roteiro: Lionel Baier, Julien Bouissoux
Elenco:  Patrick Lapp, Carmen Maura, Ivan Georgiev
Nacionalidade e lançamento: Suíça e França, 2015 (14 de julho de 2016 no Brasil).

Sinopse: David está com uma doença terminal. Ele vai para um hotel e contrata uma associação que o ajuda a cometer um suicídio assistido. Esperanza é a enviada para gerenciar os protocolos finais e confirmar se David está certo daquela posição. Junto com Treplev, um garoto de programa que estava no quarto ao lado, eles vivem momentos de reflexão, situações inusitadas e compartilham dramas pessoais.

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Com forte índole teatral, ao se passar basicamente dentro de um quarto, com muitos diálogos e atuações fortes, La Vanité habilmente – em quase todos os momentos – transita entre uma situação dramática (doença, a desistência da vida e solidão) e as improváveis consequências cômicas deste fato.

O filme é curto, 75 minutos, mas a condição de David Miller é bem tratada no começo. A primeira cena é uma tomada de cima e ele caminhando sozinho, no meio da neve, em direção ao hotel. E lá chegando, descobre que o estabelecimento irá fechar as portas dentro de alguns dias e que mesmo com um evento importante na região, o local está vazio. O referido local, hoje com os dias contados, já vivera dias de glória. Alusão clara a David. Ele, aliás, foi o responsável pela arquitetura do hotel. Então, cria e criador estão marcados a compartilhar o perecimento juntos.

Esperanza, funcionária da empresa contratada por Miller, é um símbolo óbvio. Ela vem toda protocolar, mas logo tentará dissuadi-lo de tal empreitada. O barulhento vizinho de quarto, o jovem gigolô Treplev, também é alegórico na medida que a ocupação dele envolve prazer. Além que, mesmo não sendo o caso, o sexo é o combustível da vida. Prazer, juventude e vida, três contrastes com a situação de David.

O longa dá a entender que se passa às vésperas do natal. E a história, mesmo crível, confabula com as narrativas onde os fantasmas natalinos mostram a vida sob outros prismas para alguém em geral amargurado. Aqui os fantasmas são Esperanza, Treplev e o próprio Hotel. Este além de ser o cenário principal, vem à tona em flashbacks que realmente atormentam David.

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Os atores estão ótimos e melhoram as personas interpretadas. O mais contido, mas não menos expressivo, Patrick Lapp passa bem uma confusão mental, em especial nas cenas do passado sendo revisitado. Carmen Maura tem um trabalho de corpo muito interessante e difícil de executar. Um olhar, um gesto, uma postura a colocam em cena de um jeito marcante. Ivan Georgiev cumpre bem o alívio – e não só cômico, mas um gigolô no meio dos dois mais idosos fica hilário. Ele dá uma quebra muito interessante. Agora os três atores juntos funcionam ainda melhor. As cenas dos três no quarto são uma mistura de “dramédia” excelente. Queria ter visto mais daquilo.

As cenas fora do hotel tem sentido e valor, além de darem um respiro narrativo. Contudo elas destoam do resto de forma que me tiraram da imersão do longa. Os momentos no restaurante vazio e depois com as moças dançando, reforçam a citada solidão do protagonista, mas se não estivessem ali, o enredo seguiria muito bem sem elas. Os próprios flashbacks acrescentam, porém entram de maneira carregada naquele cenário.

Apesar de um bom retrato, a partir de um sagaz recorte, falta uma camada além. A garantia de entretenimento naqueles rápidos minutos, esvai-se em meio a um que de pueril – coisa que La Vanité não é. A jornada daqueles interessantes tipos é pequena ante a situação em si, o que também enfraquece o todo.

La Vanité é bem engraçado, faz um humor simples e raro. Tem uma história inusitada, porém facilmente apreendida. Os atores tornam a coisa melhor do que ela é. Carece, o todo, de um algo a mais. Apesar dos momentos não tão bons, creio que valeu a experiência e o ingresso.

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