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Crítica: Dois Caras Legais (2016)

Dois Caras Legais tem um humor que mistura Trapalhões com irmãos Coen e uma boa dose de politicamente incorreto.

Ficha técnica:
Direção: Shane Black
Roteiro: Shane Black, Anthony Bagarozzi
Elenco:  Russell Crowe, Ryan Gosling, Angourie Rice, Matt Bomer, Lois Smith, Kim Basinger
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2016 (21 de julho de 2016 no Brasil)

Sinopse: dois “detetives”, um corpulento e antagônico e o outro alcoólatra e desastrado, entram em um caso envolvendo o desaparecimento de uma menina, mas eles percebem que a coisa vai muito além do que imaginavam. Muitos interesses estão em jogo e a verdade vai se revelando aos poucos.

Dois-Cara-Legais

A primeira cena de Dois Caras Legais é tragicômica. Enquanto um menino aprecia uma revista pornográfica na cozinha de casa, um carro atravessa o recinto espetacularmente, vindo desgovernado de uma ribanceira, e para no jardim. A vítima no veículo é exatamente a musa que o jovem contemplava momentos antes – igualmente despida. Rapidamente, após ouvir algumas balbucios dela e o som da polícia chegando ao fundo, o garoto tira o casaco para cobrir os seios nus da mulher.

Tal momento é uma metonímia para todo o filme. Ao longo da obra vemos uma ação/humor que vão além do convencional – algumas vezes desafiando a física. Uma dose de pornografia. Mortes estapafúrdias. Além de uma delicadeza e ética tortas em meio a uma confusão.

É comum filmes de vários gêneros terem pitadas de humor, os famosos alívios cômicos. Aqui ocorre o oposto: a trama policial e o suspense não são os focos principais. Dois Caras Legais é um filme de comédia e deve ser encarado como tal, e contendo boas pinceladas de ação. Ele se assemelha mais a um Deadpool do que a um Capitão América: Guerra Civil, para citar dois exemplos pop lançados este ano.

Apesar de clamar por uma suspensão de descrença, o roteiro tem que ser elogiado. O enredo beira o surreal, mas no frigir dos ovos mantem a lógica interna daquele universo. O texto é muito bom e quase todo diálogo funciona em um nível dramático e, claro, cômico. Mesmo com MUITA piada física, rimos de outras tantas coisas presentes nas falas dos personagens.

Dois-Cara-Legais

O carisma daqueles personagens, guiados por ótimas interpretações, cativa o público de um jeito raro. Destaco a cena que Jackson Healy (Crowe) visita “amigavelmente” Holland March (Gosling). Há uma quebra de expectativa ali que surpreende até o personagem de Crowe. E a finalização apresentando a filha de Holland, a jovem Holly March, em um momento banal, familiar e completamente torto (aqui encare isso como elogio, ao ver a cena entenderá).

Vale a lembrança também de um momento em um terreno baldio como drama sutil e belo. A questão do alcoolismo também é trazida, mas com um pouco menos força dramática. As mortes são mais peças da comédia que da faceta mais dura da vida. Portanto, tal elemento, o drama, não se sustenta tão bem quanto o humor. Mas é, como falei, um problema menor considerando a proposta aqui.

A atuação é um ponto muito forte aqui. Os dois protagonistas são velhos conhecidos de muita gente. Eu até prefiro um pouco o Russell Crowe (Gladiador, Uma Mente Brilhante e o recente Pais e Filhas), mas Ryan Gosling (Amor a Toda Prova, Drive e o A Grande Aposta) dá um show aqui e talvez se saia até um pouco melhor que Crowe. A brutalidade e delicadeza de um lado e uma certa malandragem e desleixo de outro, trabalhados a partir de uma presença física, são marcantes. Contudo, Angourie Rice de apenas 15 anos, segura a onda e dialoga de igual para igual com os dois veteranos. A sensatez madura e a curiosidade juvenil são bem exploradas pela atriz.

Dois-Cara-Legais

Dois Caras Legais se passa no final da década de 70, mas a marcação temporal não era necessária. O design de produção falou e bem falado por si próprio. E não só nos transportam para a época com carros e figurinos, mas com ótimas referências. Destaco 3: o jogo Pong, a banda Sex Pistols e o filme Tubarão 2. E há um que de a bola que bate de um lado para outro sem sair do lugar, como no game. Um viés punk, com alguma menção ao sexo e muita anarquia da banda. E a sensação de ameça constante e mistério da sequência de um dos maiores sucesso cinematográficos.

Mesmo tendo todos os méritos, o longa falha na resolução. O problema está tanto no fechamento do arco, um pouco simplório demais, e nas últimas cenas em si – estas com menos força que o restante do filme. Apesar de eu ter comprado o caos, ou anarquia como citei, tem hora que a coisa degringola demais. A cena de ação final é bem inferior a ótima passagem em uma festa no meio do filme.

Eu ri tanto quanto em Caça-Fantasmas, talvez até mais. Ambos tem um que de polêmico e são pontos fora da curva, por motivos completamente diferentes. Se você gosta de diálogos sarcásticos e um tanto ácidos, histórias absurdas e quiser ter 2 horas de descompromisso, Dois Caras Legais é para você. E se gosta do Russell Crowe ou Ryan Gosling, então Dois Caras Legais é imperdível.

[a classificação do longa é 14 anos, mas sem querer parecer careta, acho que 16 anos poderia ser o mais justo – talvez até 18]

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