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Crítica: O Quarto de Jack

O Quarto de Jack recebeu quatro indicações ao Oscar, incluindo melhor filme.

Ficha técnica:
Direção: Lenny Abrahamson
Roteiro: Emma Donoghue
Elenco: Brie Larson, Jacob Tremblay, Sean Bridgers, Joan Allen
Nacionalidade e lançamento: EUA, 2015 (18 de fevereiro de 2016 no Brasil)

Sinopse: Jack (Jacob Tremblay) é confinado a vida toda, junto com a mãe (Brie Larson), como refém em um quarto. Ele conhece o mundo através de uma claraboia no teto e da televisão, não sabendo distinguir o que é ou não real. A mãe elabora diversas maneiras de tirá-los daquele lugar enquanto tenta criar o filho da melhor maneira possível naquelas circunstâncias.

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O Quarto de Jack é um daqueles filmes que se você é um ser humano provavelmente chorará em pelo menos uma cena. E evitem o trailer, ele está recheado de spoiler e estraga bastante a experiência. Sendo clichê, posso definir o longa como: tocante e envolvente do início ao fim.

E essa sensibilidade se dá pois não demora muito para sermos cativados pelo carisma e pela situação de Joy e Jack. A dupla é confinada em um quarto, sendo reféns de um sequestrador. Mas, apesar do espaço diminuto e das limitações impostas, nos é apresentado um micro-universo a partir do olhar de uma criança de 5 anos, que nunca saiu daquele ambiente, e do de uma carinhosa mãe que tenta criar o filho da melhor maneira possível – dentro das possibilidades.

Como Jack só conhece as coisas através de uma tela de televisão e do que a mãe conta (de forma lúdica), deparamo-nos com uma visão de mundo muito singular. A vista do ambiente externo se dá apenas por uma claraboia com uma pequena vista para o céu. O menino considera, por exemplo, que entre o quarto e o céu há o espaço com diversos planetas – o que mostra o quão distante é o mundo lá fora, um outro mundo, para aquele pequeno ser. Mesmo quando a mãe revela o que tem para além daquelas paredes ele só considera real o que existe no quarto, pois onde caberiam as outras pessoas, mares, grandes animais? Uma clara alusão ao mito da caverna de Platão.

Já a mãe (que está no quarto há 7 anos) tenta proteger o filho do “Velho Nick”, o sequestrador. No começo da trama vemos Joy seguindo aquela torturante rotina – forma do roteiro estabelecer qual era a vida que ela levava dia após dia. E o faz de uma forma excelente. Sentimos todo o peso daquela condição.

Além do roteiro, as atuações são o ponto forte aqui. Brie Larson, que fez muitos trabalhos para a televisão, dá um peso à personagem que é algo raro no cinema. A Joy exige muito da atriz, principalmente rompantes emocionais, e dos mais variados: raiva, tristeza, alegria, amor, loucura, além de força e fraqueza na dose certa. Sem dúvidas que com outra atriz teríamos um efeito bem diferente e provavelmente inferior. Indicação ao Oscar merecida e conta com a minha torcida (apesar dos ótimos trabalhos de Kate Blanchet em Carol e de Charlotte Rampling em 45 anos).

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Agora o destaque maior vai para Jacob Tremblay. O que esse menino fez aqui o coloca no hall das maiores, talvez maior, atuação infantil que eu já vi. É realmente inacreditável o sentimento que ele compartilha com o personagem. Praticamente cada palavra e ação aqui presentes tem algo de relevante. Desde ele brincando com um carrinho, passando pelo assombro com um dente quebrado da mãe (e toda as cenas que a reverberaram a partir daquela) até o ápice dramático são todos significativos. Há, por exemplo, uma passagem envolvendo um tapete que eu nunca vi no cinema o público ter aquela reação tensa. E parte considerável daquilo se dá por méritos na atuação dele (a forma como a cena foi construída e a reação da Brie Larson completam o tripé da perfeição aqui). Sei que é temeroso indicar uma criança ao Oscar, mas ele não estar na lista – e como franco favorito – é algo imperdoável.

Jacob Tremblay

A relação da mãe com o filho lembra o que vemos no A Vida é Bela. Não só pela química entre eles, O Quarto de Jack é bem superior neste ponto diga-se de passagem, mas notadamente pelo uso de recursos literários para sobreviver àquelas situações. Os universos que o pai e a mãe criam nos dois filmes para os filhos foi, mais do que uma opção, algo essencial à vida daqueles pequenos. Aqui, de modo explícito, é citado o Alice no País das Maravilhas e a metáfora estabelecida pela mãe foi extremamente inteligente e pertinente.

Por essas e outras que o roteiro adaptado, direção e melhor filme (além de atriz) são indicações que contemplam bem o que vimos aqui. Acho que tem chances de levar os prêmios de roteiro e atuação.

O filme tem um grande plot que não posso deixar de comentar. Mas é complicado de fazê-lo sem revelar detalhes da trama. Então depois da imagem abaixo colocarei spoileres. Dessa forma, só siga se já viu o filme ou se não se importar com esse tipo de informação.

O quarto de Jack _ joy e jack
ALERTA DE SPOILER: Conforme avisado siga aqui por conta e risco…

“Sei ter o pasmo essencial/Que tem uma criança se, ao nascer,/Reparasse que nascera deveras…/Sinto-me nascido a cada momento/Para a eterna novidade do Mundo…”
Este trecho é de um poema do Alberto Caeiro, um dos heterônimos do Fernando Pessoa. E o escolhi como parte do resumo do filme. Já que jack vai descobrindo o mundo e praticamente renasce a cada instante (e por que não Joy também?). Descoberta à semelhança do que ocorreu com o menino no O Menino e o Mundo.

Após um plano mirabolante da mãe, Jack se finge de morto e consegue escapar das garras do sequestrador. Nesta hora há um YES coletivo no cinema, precedido de uma tensão coletiva na magnífica cena do tapete na caminhonete. Tememos pela integridade física da Joy, mas a perspicácia da policial salvou o dia. O climax do longa, portanto, é no meio da trama, opção curiosa e que se mostrou acertada.

A partir daí na camada superficial o tom do filme muda. Mas os traumas do quarto reverberam a todo instante e pulsam naquelas vítimas, vide a claustrofobia causada pelo hospital e pela casa da avó de Jack. Tudo conduzido, também, pela transformação na fotografia e na trilha que pincelam a narrativa de um jeito sutil e agressivo (no bom sentido): o mundo é estranho e o quarto incomodamente “confortável”.

A relação avó, filha e neto é explorada de uma forma não muito convencional. Esperávamos um carinho total, mas algumas farpas são trocadas e dá um realismo peculiar. Contudo, o desenvolvimento do avô é estranho e até mal feito, sendo um dos poucos defeitos do filme (o personagem definitivamente não precisava estar ali, ou precisaria de um complemento maior – a cena do jantar não tem muito sentido).

O quarto de Jack Família

Acho que no mundo real nunca vi uma entrevista tão boa quanto a que aquela repórter consegue com a Joy. Que perguntas capciosas… ali a mãe mantem-se firme no que ela acredita, mas logo em seguida se questiona e nós cogitamos ressignificar parte da obra e da relação mãe e filho.

Há duas frases emblemáticas nesta segunda parte do filme. O tempo ser uma manteiga que se espalha e o “encolhimento” do quarto e de como ele só é o quarto com a porta fechada. Esta aliás está na reflexiva cena final. Nunca uma despedida de objetos, que dialoga com o “bom dia” do começo, em uma casa antiga – algo tão comum em crianças – foi feita de forma tão emocionante. Emoção, aliás, é a palavra-chave em O Quarto de Jack. E será que mesmo “livres” não estamos presos a algum quarto?

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