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Crítica: A Via Láctea

A cidade é ampla e grande, mas ao mesmo tempo claustrofóbica. Breves e entrecortados closes de partes do corpo e dos olhos e dos rostos nos dão sensação de proximidade, ao mesmo tempo em que nos transmitem nervosismo. Estamos perdidos em uma selva escura, como Heitor.

Heitor (Marco Ricca) é apaixonado por Júlia (Alice Braga). Ela também é apaixonada por ele. Mas ela é jovem, e ele não. Brigas são inevitáveis. Tal como a luz das estrelas demora anos luz para chegar ao alcance de nossos olhos, o reencontro entre dois amantes pode demorar, já que a distância/tempo é muito maior em uma cidade com trânsito e milhões de carros empacados, aglomerados.

Enquanto isso, as pessoas batem à porta do carro. As placas dizem, o rádio conversa. Heitor se sente sufocado pelo cinza de uma São Paulo chuvosa. As palavras podem dizer muito, mas em alguns momentos dizem aquilo que não devem dizer, ou representam aquilo que não é. Aconteceu justamente com Heitor: um escritor, poeta, professor, que tanto entende de palavras.

A Via Láctea, galáxia, é um conjunto de estrelas que formam uma (tentativa de) unidade. “A Via Láctea”, filme, é um conjunto de referências, emoções e repetições de elementos que formam uma unidade (ou, ao menos, tentam formar).

O filme todo retrata a viagem de Heitor para encontrar a namorada com quem acabou de brigar ao telefone. Por meio de flashbacks, vamos conhecendo sua situação, sua história, seus dramas. De Júlia, vamos conhecendo mais suas intenções. Ao mesmo tempo em que extrai poesia do concreto, Lina Chamie, a diretora, parece querer colocar absolutamente todas as suas referências no filme, caindo no eventual exagero de bombardear o telespectador com elementos que não ficam claros e não enriquecem o texto (havia um cão para termos o seu ponto de vista retratado?).

Mas o vai-e-vem de imagens, o entra-e-sai de vozes e as mil referências literárias/artísticas formam um todo paradoxalmente coeso e caótico, como em uma galáxia. Em meio à constelação de pessoas, um carro recebe informações, processa-as e digere-as conforme suas necessidades, suas lembranças e seus medos. Aos poucos, Heitor se lembra do passado, procura por si mesmo, busca o amor, tenta encontrar a juventude perdida, e se perde – ou se encontra.

As cenas que se repetem tentam remontar um mosaico de sons, ruídos, músicas e imagens entrecortadas. Se sobram referências e elementos literários, falta aparar as arestas soltas provenientes da intensidade do meio acadêmico, que é obviamente rico, mas destoante da cidade nua e crua.

“A Via Láctea” faz jus ao poema de Mario Chamie (pai da diretora), recitado durante o longa. No fim das contas, o filme todo é “uma palavra sem nexo na pedra da calçada”.

Quando saía de casa
percebeu que a chuva soletrava
uma palavra sem nexo
na pedra da calçada
não percebeu
que percebia
que a chuva que chovia
não chovia
na rua onde andava
 
Era a chuva que trazia
de dentro de sua casa
Era a chuva que molhava
seu silêncio molhado
na pedra que carregava

Nota: 04 Claquetes

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