Crítica: Gabriel e a Montanha (2017)
Gabriel e a Montanha

Crítica: Gabriel e a Montanha (2017)

Gabriel e a Montanha é uma bela homenagem a uma intensa e triste história.

Ficha técnica:
Direção: Fellipe Barbosa
Roteiro: Fellipe Barbosa e Lucas Paraizo
Elenco: João Pedro Zappa, Caroline Abras, John Goodluck
Nacionalidade e lançamento: Brasil, 02 de novembro de 2017

Gabriel e a Montanha

Retratar tragédias é sempre complicado. Além de mexer em algo que afeta o sentimento de algumas ou muitas pessoas, corre-se o risco da coisa descambar para um melodrama ou então por um enviesamento.

Parte do mérito do diretor Fellipe Barbosa está em recriar os últimos dias do amigo Gabriel Buchmann. O rapaz, em meio a uma viagem pelo mundo a fim de colher ideias para políticas públicas e conhecer novos lugares, acaba morrendo em uma montanha, por um descuido dele mesmo.

As contradições de Gabriel são muito bem exploradas no roteiro. Às vezes de forma menos explícita e até em tom cômico, como no fato dele ser um glutão. Ou de maneira mais dura e carregada quando dos embates com a namorada. Esse traço, não ignorado pelo diretor, sobe e muito e a qualidade da obra.

Curioso como o filme se equilibra bem entre o lado gentil, carismático e altruísta de Gabriel (João Pedro Zappa) ao mesmo tempo que mostra uma personalidade teimosa, insistente e até grosseira. Ou seja, Gabriel e a Montanha não faz um relato chapa branca.

Outro mérito, e talvez o principal charme do filme, está no retrato dos países que Gabriel passara, a saber: Quênia, Tanzânia, Zâmbia e Malawi. Em cada lugar há o cuidado de direcionar o olhar para além de um turismo tradicional e irmos no lado humano, fato que é uma rima à jornada do protagonista.

No primeiro ato isso fica mais forte. Ali são estabelecidas canções, palavras e objetos que irão reverberar depois. Seja em Gabriel cantando Nos Bailes da Vida, ou ainda, a valorosa espada e a sandália de borracha que ele ganha de presente. Para os fãs de futebol vale rápidos momentos de menções ao Chelsea, Real Madrid, Ronaldo e Flamengo, além de uma partidinha também ligeira…

Gabriel e a Montanha

O diferencial cai na conta da opção de usar os personagens reais dos eventos, sem atores profissionais. Com exceção de Cris, interpretada por Caroline Abras, que é a namorada de Gabriel, e do próprio Gabriel, por motivos óbvios, o resto do elenco dá uma interpretação documental. Isso permite um ar natural e sincero à trama.

Esse caráter é reforçado com emocionantes narrações dos personagens. Quem acompanha o site sabe o quanto eu condeno narrações, pois elas normalmente são sinal de preguiça ao expor o que já está em tela. Eis que fica claro que o problema não é o recurso, mas como ele é usado. Aqui, há sim uma dose explicativa, mas dentro de um contexto que funciona – especialmente o e-mail de Gabriel para a família. Mas o forte é a emoção transmitida pelos personagens e os momentos, muito pontuais, que a ferramenta é chamada.

Na parte técnica, vemos planos-sequências dando ainda mais fluidez e dramaticidade ao momento inicial. A trilha segue os passos do homenageado e vem em tons marcantes. A montagem deixa o ritmo um pouco descompassado em passagens por vezes repetidas. Imagino o quanto a viagem já tenha sido enxugada na obra, mas ainda assim as mais de duas horas na tela pesam.

Vale ressaltar a dificuldade de filmar nos mais ermos lugares. Aqui cada elemento técnico, mais ou bem realizado, serve à emoção da história. Gabriel e a Montanha, portanto, cumpre o espírito aventureiro, cultural e humano a que se propõe. Peça rara no nosso cinema uma obra com esse escopo, além de muito bem executada. Não à toa o sucesso do longa em Cannes…

 

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