Crítica: Ícaro (2017 – Netflix)

Crítica: Ícaro (2017 – Netflix)

Documentário premiado em Sudance esmiúça o maior esquema de fraude do Esporte Mundial.

Ficha técnica:

Direção: Bryan Fogel

Roteiro: Jon Bertain, Bryan Fogel, Mark Monroe, Timothy Rode

Elenco: Bryan Fogel, Grigory Rodchenkov

Sinopse: Quando Bryan Fogel começa a descobrir a verdade sobre o doping nos esportes, uma reunião casual com um cientista russo transforma sua história de uma experiência pessoal em um thriller geopolítico envolvendo urina suja, morte inexplicável e um ouro olímpico.Trata-se da exposição do maior escândalo da história do esporte.

Em 2013, Lance Armstrong, admitiu publicamente, em uma entrevista a Oprah Winfrey, ter feito uso de substâncias proibidas para poder competir. Depois de anos lutando para provar sua inocência, e já tendo perdido todos os títulos conquistados no Tour de France, o ex-ciclista admitiu o doping e foi banido do esporte que o consagrou. Esse é o ponto de partida do Documentário Ícaro, do cineasta americano Bryan Fogel.

O documentário, ganhador do Prêmio Especial do Júri do Festival de Sudance, começa com Bryan Fogel iniciando um experimento para mostrar a fragilidade do sistema antidoping internacional. Inspirado pelo ocorrido com Lance Armstrong, Bryan decide se dopar no período de 1 ano, se prepararando para uma prova de ciclismo. Para ajuda-lo entra em cena o Dr. Grigory Rodchenkov, diretor responsável por um laboratório de controle de antidoping em Moscou. Em meio ao experimento, explode o esquema de doping da Rússia. A partir daí, Bryan entra de cabeça no complexo esquema de doping russo. E com a ajuda de Grigory esmiúça esse complexo esquema de fraude. Escancarando assim para o mundo o maior caso de fraude no esporte mundial.

Com uma montagem dinâmica, que funde reportagens de TV, entrevistas, treinamentos, visitas a laboratórios, imagens de arquivo, ligações via Skype, reuniões, disputas esportivas e morte suspeita, o documentário lembra, e muito, um trhiller político. Em certos momentos nem parece que estamos assistindo a um documentário. O que acaba se tornando uma boa qualidade, uma vez que muitos fogem de filmes do gênero. Com conspirações, fugas, reuniões secretas, ligações noturnas, o documentário constrói uma trama digna de filmes no melhor estilo de Todos os Homens do Presidente.

Por ter sido filmado no momento que eclodiu o escândalo, o filme trás um ar documental de urgência. Afinal tudo pode acontecer, tudo pode dar errado. Qualquer um pode ser preso ou morrer. A qualquer momento um HD pode ser roubado ou destruído. Essa sensação de perigo é o ponto alto do Filme. Embora saibamos o resultado final, a equipe de atletismo russa foi banida dos Jogos Olímpicos Rio 2016, não fazemos ideia do que se passou nos bastidores. E o filme faz o papel de nos mostrar os bastidores, de como foi a investigação, as reuniões, de como chegaram a conclusão final.

E essa é justamente a grande virtude do filme. Documentários têm a fama de serem chatos, e enfadonhos. Ícaro é diferente. O que vemos em cena é uma verdadeira história cinematográfica, que não tem roteiro. Na verdade ele é escrito enquanto os eventos  acontecem. Tudo é inesperado. Por ser a vida real, tudo pode acontecer. E por ser inesperado o filme se torna tão eficiente em prender nossa atenção. Tal qual um thriller político de qualidadade, Ícaro te prende do início ao fim.

Na verdade, existe momentos do filme que parece que realmente estamos assistindo a um thriller político. A forma como Bryan Fogel filmou, como focalizou a câmera e as tomadas que fez, criam uma tensão pouco vista em nossos dias. Em dado momento inclusive, a montagem do filme lembra as cenas finais de Argo. A forma como foi montado, e até o cenário em que se passa, lembra o filme de Ben Affleck.

Mas como nada é perfeito, o filme tem suas falhas. Uma delas é forçar o paralelo entre a história de Grigory e Winston, personagem do livro 1984 de George Orwell (curiosamente, coincidência ou não, o prêmio que o filme ganhou em Sudance se chama The Orwell Award). Por mais que Grigory estivesse lendo 1984  durante a produção do filme, e ele faça alusão a primeira vez que o leu, com exceção de alguns fatos, o paralelo não existe. Por isso essa tentativa soa um pouco forçado na projeção. Principalmente da metade do segundo ato em diante. Nesse momento Bryan usa os pilares de 1984 para contar os passos dados por Grigory. Só que esse uso se torna um tanto quanto forçado, e não faz muito sentido no filme.

Outro problema de Ícaro é no que diz respeito a relação de Bryan e Grigory. Quando começam a questionar as denúncias feitas por Grigory, a relação entre eles é questionada. Principalmente por Bryan ser um cineasta. Mas, isso é apenas citado, e bem rápido. O questionamento não é aprofundado. Para um filme que busca a verdade, achei essa uma falha um tanto quanto grave. Mas de forma alguma desmerece o excelente trabalho feito pelo diretor.

Contando uma história que é real e atual, Ícaro é um filme indispensável para todos os amantes de esporte e de Olimpíadas. Além disso é um filme acessível a todo o público. Mesmo sendo um documentário, gênero do qual muitos fogem, o filme pode agradar o grande público. Em especial os amantes de filmes de conspiração e thrillers políticos. Com uma montagem dinâmica e inteligente, o diretor consegue criar um clima de tensão pouco visto em filmes do gênero. Ícaro entra fácil na lista de melhores do ano. Porque além de ser um grande filme, ele escancara um gigantesco esquema de fraude no esporte. E nos tempos que vivemos, sempre que vemos filmes que lutam pela verdade e pela justiça, passamos a ter um pouco mais de fé na raça humana.

Curiosidade

Na mitologia grega Ícaro, filho de Dédalo, voou muito alto se aproximando cada vez mais do sol. Ele chegou tão perto, que suas asas, feitas de pena e cera, foram queimadas. Ícaro caiu no mar e perdeu sua vida. Esse paralelo entre o nome do personagem da mitologia e o mundo do doping cai muito bem. Assim como Ícaro, que voou cada vez mais alto e teve uma queda que causou sua morte, os envolvidos no esquema de doping voaram cada vez mais alto e tiveram uma queda gigantesca. Agora estarão para sempre marcados por esse escândalo. Que o diga Lance Armstrong, que foi banido para sempre do ciclismo.

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