10 comentários importantes para entender Terrace House [com spoilers]
10 comentários importantes para entender Terrace House [com spoilers]

10 comentários importantes para entender Terrace House [com spoilers]

Sim! Eu decidi escrever sobre Terrace House, o reality show japonês que é um “original Netflix” e me fez parar de ver outras coisas para terminar todos os episódios. Por isso, vou me aproveitar que a coluna é “cinema e algo mais” e falar sobre o “algo mais”, embora a série/reality tenha muito de cinema por lá (mesmo que indiretamente).

Antes de começar a explicar os motivos para ver Terrace House, gostaria de deixar claro que não assisti à série nova que se passa no Havaí, mas à temporada anterior, chamada de “Boys and Girls in the City”, e que se passa em Tóquio. Tem muitas coisas que eu gostaria de falar a respeito da série. Por isso vou tentar resumir nos tópicos com os motivos para assisti-la. Antes disso, vale destacar que eu conheci o reality show por meio do (excelente) canal no Youtube “Yo Ban Boo”.

Eita. Peraí. Você não sabe do que se trata o reality show “Terrace House”? Trata-se de uma produção da Fuji Television, do Japão, que se propõe a colocar três homens e três mulheres jovens em uma casa e acompanhar a vida deles. A primeira edição do programa foi feita somente no Japão, e somente a partir desta segunda versão é que houve coprodução com a Netflix.

 

Confira a lista de itens imprescindíveis para entender “Terrace House” (contém spoilers!):

 

1- É um exercício de empatia

Com exceção dos filhos e netos de imigrantes japoneses, os brasileiros possuem pouca conexão com a cultura nipônica. Os cumprimentos, a forma como se conectam uns co os outros e a maneira como lidam com os sentimentos – e fazem da culinária um elo entre as pessoas – são muito diferentes daquilo que nós, brasileiros, fazemos. Por isso, é necessário um bocado de empatia para apreciar a demora entre o primeiro contato de um potencial casal e o primeiro beijo entre eles. Se fosse no Brasil, ouso arriscar que seis pessoas com cerca de 20 anos de idade transariam logo nos primeiros dias. Mas não é o caso do Japão (ou pelo menos não dos participantes aqui mostrados, embora todos nós saibamos que trata-se um país menos safado extrovertido que o Brasil).

A forma como eles lidam com o trabalho, a realização dos sonhos e o esforço e a dedicação também são diferentes. Não melhores, nem piores. Apenas diferentes. E para se divertir com os 46 episódios da temporada, é importante se colocar no lugar deles e embarcar na onda dos japoneses.

Assim como nos filmes, aplica-se a necessidade de empatia neste reality: compreender uma obra audiovisual (e qualquer obra de arte, a bem dizer) exige que nos coloquemos no lugar do outro. E sim, Terrace House faz com que as pessoas se sintam em uma cultura diferente, valorizando sentimentos diversos e olhando para pessoas que, por mais díspares que possam ser, são incrivelmente humanas.

 

2- Mostra a beleza e as vicissitudes da rotina diária

Vamos combinar uma coisa: trancafiar um grupo de pessoas em um lugar e fazer gincanas para definir um líder ou criar festas exageradas não é bem o que podemos chamar de realidade, certo? Pois em “Terrace House” não existe esse tipo de coisa. As pessoas estão dividindo uma casa, mas cada uma tem sua vida: seu trabalho, estudos, compromissos, amigos de outros lugares, irmãs e mães incentivando ações que vão contribuir para o andamento das relações na casa.

Alguns momentos são bastante icônicos:

Quando uma participante repara que a louça está extremamente bagunçada e suja na cozinha, decide convocar a todos para que comecem a lavá-la. O que poderia ser uma briga homérica em um “Big Brother” da vida, em Terrace House é apenas algo comum: eles conversam e decidem que devem lavar a louça. Isso pode parecer “chato” à primeira vista, mas é muito mais real.

Em outra situação, a inexperiente Minori decide fazer uma deliciosa carne que o recém-namorado Uchi ganhou de um cliente. O problema é que isso é feito na ausência dele. Pouco tempo depois, Uchi se mostra incrivelmente chateado: quem vê o acontecimento isolado pode pensar que é um exagero do rapaz, mas quem acompanha a série – e exerce um pouco da sua empatia – consegue perceber que aquilo foi apenas a gota d’água de outros problemas no relacionamento dos dois.

O fato de nenhum participante ser obrigado a ficar na casa e poder sair quando quer também traz um ar de realidade muito interessante. Afinal, amizades são coisas que vão e vem. Quando menos se espera, alguém precisa ir trabalhar em outra cidade, se afastar por conta dos estudos, entre tantas outras questões. Quer mais “vida real” que isso? O americano Arman é a maior prova disso: pelo menos dois de seus interesses amorosos vão embora simplesmente porque precisam ir. E a vida vai se fazendo de encontros e desencontros.

É claro que é possível que a entrada e saída dos participantes tenha alguma orientação dos produtores: em certos momentos, é conveniente para o programa que o participante saia para que outro traga novas questões. Mas em nenhum momento isso soa artificial.

 

3- Mostra as relações como elas realmente são

Quando Hikaru decide sair da casa e chora desajeitadamente enquanto come um espeto do churrasco, a reação de seu amigo Arman é comovente. Sem querer parecer tão preocupado, diz que não sabia da decisão e depois dá um abraço, também desajeitado, no amigo. Pouco tempo depois, Misaki agradece a Hikaru pelo “fora” que ele deu nela, e diz que isso a ajudou a melhorar. Em “Terrace House” ninguém chora copiosamente ou faz tempestade em copo d’água. E isso é mais bonito do que aqueles encontros que o Luciano Huck organiza no programa dele.

Ainda que dentro de uma cultura diferente, os participantes conversam como podem, tentam expressar o que pensam sem necessariamente falar tudo e nem sempre são eficientes nisso. Alguns romances são mais tímidos, outros não acontecem. Não tem jogo comandado por alguém de fora e nem momentos em que alguém força “lavar a roupa suja”.

Aliás, por falar em lavar a roupa suja, os moradores da casa precisam levar as roupas para a lavanderia (que eventualmente é palco de algum acontecimento), e são responsáveis pela limpeza – o que explica como a casa fica tão sujinha em certo ponto. Quem já morou em república ou dividiu apartamento sabe muito bem como é.

 

4- Permite ir além das causalidade típica do “show business”

Quando alguém “briga porque a pessoa disse isso” ou “se desentende devido àquilo”, parece que a vida é como um roteiro de simplório de um desenho infantil. Mas em terrace House não há espaço para isso. As pessoas tomam atitudes com base em diversos momentos. Seria muito mais fácil, até mesmo do ponto de vista de storytelling ou de edição, criar uma sequência simples. Mas na maioria das vezes, algumas ações são tomadas devido a diversos fatores – e frequentemente vemos os participantes explicando e reexplicando uns aos outros o que aconteceu entre eles (ou as análises dos comentaristas que você vai ler no próximo item).

 

Por falar em show business, é interessante notar como a maioria dos participantes é realmente formada por pessoas desta mesma indústria do entretenimento ou da moda. No começo, são pessoas de profissões “descoladas”, como um sapateador, um cabeleireiro e um jogador de beisebol. Depois, embora cheguem à casa uma designer de chapéus (ao que tudo indica, essa profissão existe pelo menos em Tóquio) e um aspirante a bombeiro do Havaí (what?), a maioria é formada por modelos, atores ou quaisquer pessoas que possam se beneficiar ao aparecer na TV. Aliás, tem um caso esquisito ligado a isso que será citado no item 6!

 

5- Comentários que se aprofundam nas relações – e são engraçados!

No começo, achei um saco enfadonho ter que ouvir seis comentaristas diferentes (humoristas, atores e personalidades do Japão) analisando o que foi visto. Depois, comecei a perceber que eles eram extremamente úteis para mostrar com um pouco mais de profundidade aquilo que estávamos vendo. Afinal, a edição do programa é pouco marcada, e muitas vezes não nos damos conta de tudo o que está acontecendo… além de toda a diferença cultural que temos em relação aos japoneses. Com isso, é importante que possamos ver os comentaristas tentando analisar, por exemplo, por que a pessoa X não gostou da atitude da pessoa Y, e como ela deveria agir a partir de então. E esses comentários são acompanhados de muitas piadas e risadas (algumas com referências que jamais compreenderei), que eventualmente são machistas e conservadoras – afinal, o Japão não é um país tão evoluído em tudo. O que me surpreendeu é que, ao fim da temporada, eu estava rindo com eles. Sim, eles são engraçados e falam coisas muito malucas.

 

6- Não mostra tudo – e é sincero sobre isso

Basta pensar um pouco sobre como o programa se apresenta que já conseguimos sacar que nem tudo é mostrado. O trabalho dos personagens só é mostrado quando convém (ainda bem) e há situações que são apenas contadas pelos participantes. Creio que as câmeras sequer ficam ligadas 24 horas por dia. Mas isso não simboliza qualquer falta de credibilidade ou veracidade. Além do caso de um acidente que ocorreu na ausência das câmeras, outra situação curiosa acontece ao fim da temporada: a modelo Riko e o chef Hayato são acusado de fazerem todos de idiotas diante das câmeras, pois estariam fingindo que não tinham nenhuma relação apenas para não afetar o trabalho da menina. Mas como eles teriam até mesmo dormido juntos, os outros participantes fazem com que eles abram o jogo. Fica a dúvida se nós, espectadores, não sabíamos disso por escolha dos editores ou por ausência de filmagens. Vale adicionar outro fato: ao visitar a casa, a mãe de Riko diz que já falou com Hayato no telefone, o que é mais um fator que mostra que os dois eram um casal que estava saindo mais do que as câmeras “poderiam mostrar”.

 

Nesse momento, é preciso compreender que toda filmagem, seja reality show, ficção ou documentário, é uma construção narrativa. É claro que pode haver algum tipo de escolha quanto ao que mostrar. Seria impossível ver o quanto os participantes conversavam, ou então saber da vida deles fora da casa (em um episódio, nos divertimos com Arman porque ele estava de ressaca, e isso me faz presumir que ele foi a muitas festas em Tóquio, independente das pessoas na casa). Não adianta querer ser inocente e achar que o programa mostra absolutamente tudo. Mesmo assim, a forma como as coisas acontecem demonstra que os (poucos) relacionamentos são reais, as amizades são verdadeiras, e nada é forçado (procurar os participantes no Instagram ajuda a esclarecer as coisas). Aliás… é importante citar que, após o incidente envolvendo o segredo de Riko e Hayato, a edição do programa faz uma “mea culpa” filmando os participantes dormindo, sem medo de mostrar o novo casal formado por Arman e Masako dormindo juntos. Vale lembrar, ainda assim, que o casal Uchi e Minori certamente aproveitou muito bem o tal do “quarto japonês”, já que a menina confirma isso em uma conversa com sua irmã.

 

7- É uma oportunidade de aprender japonês – e cultura japonesa

É claro que assistir a muitas horas de algo em uma língua não faz com que você saia falando. Mas algumas palavras muito úteis são repetidas com tanta frequência que ajudam. No meu caso, que tive a oportunidade de estudar japonês por um tempo, consegui identificar a estrutura gramatical e muitas letras dos “silabários” mostrados por lá. Não entendia nada, mas conseguia me nortear um pouco.

Quem quiser aprender algumas palavrinhas, anote aí:

Itadakimasu: algo como “obrigado pela comida” ou “vamos comer”, que é dito absolutamente toda vez que as pessoas vão comer.

Kampai: expressão para a hora de brindar, semelhante a saúde, tim-tim, cheers, salud, etc, etc.

Tadaima + okaeri: sempre que alguém chega em casa, diz Tadaima (Cheguei) e as pessoas respondem Okaeri (bem-vindo de volta).

Gomen: em vez de dizer “gomen nasai” em sua forma completa, as pessoas pedem desculpas dizendo apenas “gomen”.

 

8- Fotografia cuidadosa

Confesso que eu tenho muita curiosidade em ver um making of da série. É claro que temos algumas combinações que facilitam, como as discussões na mesa da ampla e iluminada cozinha e as conversas nos quartos dos meninos e das meninas em uma disposição claramente estabelecida. Mas o fato é que a série toda tem imagens belíssimas na hora de mostrar paisagens, locais amplos, cenas noturnas, entre outras. Mesmo assim, nada disso é mais maravilhoso que as imagens citadas no próximo item…

 

9- Porn food

Quem, assim como eu, é fã de cenas que mostram comida sendo preparada (como nos filmes Chef, Julie e Julia, Estômago, etc), vai adorar Terrace House. Em uma cultura centrada na comida, em que as conversas e confraternizações são feitas ao redor da mesa, os amigos frequentam os bares e restaurantes mais descolados da cidade, e as câmeras não hesitam em mostrar conteúdos gráficos e altamente saborosos dos pratos. Dá vontade de ir ao Japão (com o bolso cheio) e comer tudo.

 

10 – Turismo no Japão

Se a ideia de comer comidas “pornográficas” não é suficiente, saiba que as imagens de Tóquio – e principalmente Yokohama – são lindas e são bastante convidativas para colocar o Japão na lista daquela próxima viagem.

 

PS: há dois textos muito bons sobre o reality e que explicam outras coisas a respeito dele. Veja abaixo (em inglês):

“Terrace House conserta o que está errado nos realitys da TV

“Terrace House: o ranking definitivo

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  • Conversador

    são mtos episódios! mas quem sabe…