Vaquejada, arte e política
Artigo sobre Boi Neon e Vaquejada

Vaquejada, arte e política

 

As coisas de repente se conectaram. Simplesmente assim. A vaquejada, que servia de cenário. A política, incrustada em tudo. E a arte, que nos move.

 

Cena 1, sala de casa, noite. Eu assisto ao filme “Boi Neon“, recentemente adquirido em DVD. As vaquejadas são mostradas o tempo todo. Os personagens, fadados a viver a mesma realidade para sempre, encontram-se atados, como os bois. Corta para:

 

Cena 2, quarto, flashback, fim de tarde. Lembro-me da notícia do mesmo dia sobre a aprovação da lei que transforma a Vaquejada em um Patrimônio Cultural Imaterial. Agora só falta a sanção do atual presidente que, representando claramente os setores mais poderosos e conservadores da sociedade, certamente o fará. Corta.

 

Cena 3, sala de casa, noite. Em “Boi Neon”, Juliano Cazarré vive o vaqueiro Iremar, que sonha em costurar e ser um estilista. Mas ele se encontra tão preso e sem saída quanto os bois que toca em seu trabalho. É um filme político. Porque mostra também as oportunidades, a indústria têxtil, os perfumes chegando aos vaqueiros que vivem uma vida tão pobre. Há tanta política no cinema que dá pra dizer que há muito cinema na política – e falo dela no sentido amplo, não na versão reducionista que se refere apenas aos representantes eleitos.

Corta de novo.

 

Cena 4, quarto, alguns dias atrás, computador. Discuto na rede social sobre o quanto podemos ser pessimistas. Igrejas controlando grande cidades, bancadas conservadoras aprovando pautas, sociologia saindo das escolas, que deverão ser “sem partido”. Neste momento, estamos todos pessimistas. Volta.

Boi Neon 01

Cena 5, sala de casa, noite. O fim do filme é pessimista. Estamos todos presos, sem futuro. Iremar não pode realizar o que deseja. Muita coisa o impede. O mesmo ocorre com os outros personagens. Mas há algo de tocante. Há algo de humano que traz esperança – aquela que dizem que morre por último. Corta.

 

Cena 6, sala de casa, noite – poucos minutos antes. O personagem de Juliano Cazarré costura enquanto seus amigos dançam. É o momento que ele tem para dedicar-se à sua arte. E é sua paixão pela arte que o move e o leva adiante. É isso que o faz crescer, aprender. Percebi o quanto me identificava com isso.

 

Cena 7, quarto, madrugada. Escrevo sobre cinema. Publico meus pensamentos transmutados em palavras. Dedicar-me à minha arte me leva adiante, me ajuda. Me faz acreditar que um dia não haverá mais pessoas – e nem gado – sendo tratados como gado. É essa arte que me dá esperanças. É por meio dela que me faço um ser político. A arte é capaz de nos mover e vencer o pessimismo.

 

Fim.

boi neon capa

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