Crítica: Os Fantasmas Gentis – 50ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Crítica: Os Fantasmas Gentis – 50ª Mostra de São Paulo

Os Fantasmas Gentis
Direção: Caetano Gotardo
Roteiro: Caetano Gotardo
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 2026
Elenco: Andréa Marquee, Vinicius Melodi, Makena de Paula, Thaia Perez.
Sinopse: Inês conhece Hélio e isso muda a sua vida.

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Admito que estava meio de saco cheio do filme no começo, quando ele me parecia caminhar para um lugar comum de cinema intimista e cotidiano genérico, muito característico de uma certa parcela de prestígio do cinema brasileiro. Ainda acho que os diálogos longos e algumas atuações, por vezes bastante travadas, são excessivamente demarcados, como se tudo precisasse se transformar em um grande discurso ou em um diálogo cuidadosamente pensado para soar bonito. Existe uma preocupação muito evidente com a construção das falas, com a elaboração de cada frase, que acaba engessando justamente aquilo que o filme parece querer alcançar: uma lógica cotidiana, espontânea, de relações e situações que deveriam encontrar sua força na naturalidade. Em alguns momentos, essa autoconsciência da escrita distancia os personagens da vida que o filme pretende observar.

Mas, aos poucos, Os Fantasmas Gentis vai encontrando camadas mais simpáticas e interessantes, que foram me conquistando principalmente pela maneira como Caetano Gotardo trabalha a composição dos planos e a relação entre os personagens dentro do quadro. Comecei a me interessar mais pelos planos-detalhe, pelos enquadramentos em que outras pessoas observam a protagonista desfocadas, enquanto ela aparece de costas, em primeiríssimo plano, e por esses momentos em que os corpos parecem estar parcialmente excluídos do campo de visão. Cabeças e pés que ficam de fora do enquadramento, personagens vistos por outros personagens em closes, como acontece no discurso do professor de dança. São escolhas que vão criando uma relação muito particular entre quem observa e quem é observado, entre aquilo que conseguimos ver e aquilo que permanece fora do nosso alcance.

É nesse trabalho de composição que o filme começa a encontrar uma expressividade que me parece muito mais interessante do que aquela presente em seus diálogos. Existe uma atenção aos gestos, aos olhares e às pequenas relações espaciais que vai revelando uma intimidade que nem sempre precisa ser verbalizada. Os enquadramentos parecem, aos poucos, encontrar outras maneiras de acessar os personagens, como se a câmera precisasse descobrir a distância certa para se aproximar deles. E essa aproximação acontece também com a protagonista, talvez o aspecto mais bonito do filme.

Principalmente porque Os Fantasmas Gentis vai se permitindo ficar com ela. O filme realmente investe em se jogar, de maneira gradual, no seu universo emocional, nas suas questões e nas contradições que vão surgindo ao longo do percurso. Aquilo que inicialmente poderia parecer apenas um retrato cotidiano vai ganhando complexidade, sem necessariamente precisar anunciar suas transformações. As questões da protagonista vão se desdobrando discretamente, assim como as dinâmicas das pessoas ao seu redor, que começam a revelar uma beleza que antes não estava tão evidente. É como se, conforme passamos mais tempo com ela, também passássemos a enxergar de outra maneira tudo aquilo que a cerca.

E talvez seja justamente aí que o filme consiga superar minhas resistências iniciais. As relações, os personagens e os pequenos acontecimentos vão adquirindo uma dimensão afetiva que não estava tão clara no começo, até que todas essas dinâmicas se revelam de maneira muito mais bonita e comovente. Um filme que me ganhou aos poucos, pela insistência em permanecer junto de sua protagonista e em deixar que seu universo emocional se revele no tempo. Bem comovente no seu final.

Nota: 3 /5.

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