Crítica: Amor Possível – 50ª Mostra de São Paulo
Amor Possível
Direção: Lee Chang-dong
Roteiro: Lee Chang-dong, Oh Jung-mi
Nacionalidade e Lançamento: Coreia do Sul, Estados Unidos, 2026
Elenco: Jeon Do-yeon, Sul Kyung-gu, Zo In-sung, Cho Yeo-jeong.
Sinopse: A complexa relação entre dois casais que seguem caminhos diferentes e lidam com desejos ocultos. Mi-ok leva uma vida pacata com o marido desempregado, Ho-seok, e o filho pequeno, Cheol, até que um funeral os coloca em contato com Ye-ji, uma documentarista que registra a vida de trabalhadores demitidos, e o marido dela, Sang-woo.
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Eu entendo que uma das grandes preocupações de Lee Chang-dong em seus filmes sejam os roteiros e os temas que eles carregam. Parece-me que seu interesse está muito mais concentrado na elaboração dessas estruturas dramáticas, na construção dos personagens e nas questões que atravessam suas histórias, e não vejo problema nenhum nisso em si. Afinal, essa preocupação com o texto e com os temas não impediu outros cineastas e roteiristas de se tornarem grandes encenadores justamente por conseguirem transformar esses elementos em parte fundamental da elaboração cinematográfica de seus filmes. O que acho que acaba impedindo Amor Possível de decolar para mim é justamente sua dimensão visual tão pudica, tão pouco interessada em ultrapassar noções bastante básicas de encenação. Existe um filme muito bom em sua estrutura dramática, mas sinto falta de uma imaginação visual capaz de levar tudo aquilo a uma dimensão maior.
O retrato de classe e crítica ao capitalismo (e seus “ricos bom mocinhos”) é bastante acertado, o texto do filme é muito bom e existe uma densidade simbólica nas situações e nos objetos que é acompanhada por um senso de humor bastante interessante. As dinâmicas entre os personagens também funcionam muito bem, revelando contradições, tensões, atrações e diferentes formas de se relacionar com o mundo ou com a temática de classe. O roteiro é bastante competente, mesmo que atravesse alguns lugares-comuns já muito nítidos, como aquela revelação envolvendo o filho do casal no final, que me parece particularmente patética e enfraquece um pouco o percurso construído até ali. Os atores são excelentes e conseguem dar vida a essas relações com muita competência, além de existirem algumas grandes sequências isoladas, como a da praia, em que o filme parece encontrar uma força dramática e uma sensibilidade que eu gostaria de ter visto mais vezes ao longo de sua duração.
O problema é que sinto falta de uma pungência maior na maneira como tudo isso é traduzido visualmente. Falta imaginação na construção dos planos, na relação entre os corpos e os espaços, nas distâncias escolhidas pela câmera e na própria maneira como a encenação acompanha o desenvolvimento das situações. Não se trata necessariamente de exigir que o filme seja visualmente exuberante ou que cada sequência precise apresentar alguma grande invenção formal, mas de sentir que as escolhas de linguagem poderiam acrescentar algo àquilo que o roteiro já oferece. A impressão que fica é a de que a imagem muitas vezes se contenta em acompanhar o desenvolvimento dramático, sem encontrar maneiras próprias de tensioná-lo, aprofundá-lo ou produzir novas camadas de sentido. A encenação parece estar a serviço de um material que já funciona muito bem por conta própria, mas raramente consegue potencializar suas possibilidades.
É até curioso observar como Amor Possível se aproxima de O Sentido da Vida, de Ryusuke Hamaguchi, especialmente quando pensamos na importância que ambos os cineastas dão à elaboração de seus roteiros e às dinâmicas entre seus personagens. Mas Hamaguchi é um cineasta que, antes de tudo, consegue levar seus grandes roteiros a uma dimensão maior justamente porque também é um grande encenador. Cada ângulo, cada distância, cada composição, cada escolha de plano e cada pensamento formal acrescentam uma camada ao poder dramatúrgico que já existe na estrutura e no texto de seus filmes. A encenação não está simplesmente ilustrando ou acompanhando aquilo que foi escrito, mas encontrando novas possibilidades dentro da própria escrita, fazendo com que o drama adquira uma força que não estaria presente apenas no roteiro.
É essa dimensão que sinto falta em Lee Chang-dong aqui. Existe uma boa história, bons personagens, ótimos atores e uma série de questões interessantes sendo trabalhadas, mas a tradução cinematográfica de tudo isso me parece pouco ambiciosa. O filme tem bastante a dizer, mas nem sempre encontra uma maneira visualmente estimulante de dizer essas coisas. E, para mim, é justamente nessa distância entre a qualidade do material dramático e a modéstia de sua realização formal que Amor Possível acaba não alcançando todo o seu potencial.
Nota: 3 /5