Crítica (2): Dia D
Dia D
Direção: Steven Spielberg
Roteiro: David Koepp
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Emily Blunt, Josh O’Connor, Eve Hewson, Colman Domingo, Colin Firth.
Sinopse: O mundo entra em pânico após um evento inexplicável ser transmitido ao vivo na televisão. Nele, fenômenos estranhos ao redor do planeta parecem estar cada vez mais próximos. Assim, segredos militares são expostos desencadeando uma crise global jamais vista antes.
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É admirável a capacidade que Steven Spielberg tem, no auge dos seus 82 anos, de elaborar imagens tão marcantes. Antes mesmo de assistir a “Dia D”, seu mais novo filme, brinquei em uma rede social que o cinema do diretor é “para quem acredita” (em alusão ao time Clube de Regatas Vasco da Gama, meu time do coração). Após assistir ao filme, eu reitero letra por letra: Spielberg é para quem acredita.
Depois de ter feito ET – O Extraterrestre, Contatos Imediatos de 3º Grau e Guerra dos Mundos, não acho que ninguém na história do cinema possa dizer que entende tanto de contatos extraterrestres quanto Spielberg. Seus filmes sobre vida para além da Terra são “saltos de fé” sobre o desconhecido, que trabalham ideias espirituais e até religiosas em intersecção com o valor da família (sempre presente nos seus filmes de alguma maneira) e a esperança na humanidade.
Em seu mais novo filme, Dia D, Emily Blunt interpreta Clara Benson, jornalista responsável pela previsão do tempo em Kansas City. Após a visita de um pássaro em sua casa, eventos estranhos passam a acontecer com ela: Clara passa a experimentar episódios inexplicáveis de conexão intensa umas com as outras, acessando memórias, sentimentos e dores que não lhe pertencem. À medida que seu pânico cresce, ela se vê no centro de uma investigação ao lado de Daniel (Josh O’Connor), tentando compreender se estão diante de um milagre, uma ameaça extraterrestre ou algo que simplesmente ultrapassa a capacidade humana de entendimento.
Certo que filmes de ficção científica sempre foram, em dada medida, meditações sobre nós mesmos antes que sobre a tecnologia ou formas de vida até então desconhecidas. E, entendendo isso, ao invés de se prolongar na elaboração de uma ideia aprofundada e cínica sobre a origem dos aliens ou do mecanismo do dispositivo que possibilita que pessoas acessem umas às outras, retratadas aqui como verdadeiras possessões demoníacas dignas de filmes de terror, Spielberg irá exigir do espectador algo que parece radical em tempos de “cinemas verossímeis”: a suspensão de descrença.

Em uma era cinematográfica em que todos os detalhes devem ser esmiuçados ao máximo, Dia D torna-se predestinado a ser mal compreendido pela maioria do público. A caça pelo temido “furo de roteiro” e eventuais conveniências que permitem algumas liberdades poéticas vira algo próximo de caça às bruxas, e então quem já foi conhecido como rei do blockbuster para muitos parece ter “perdido a mão”. Quando para mim, ao contrário, Spielberg parece exatamente o mesmo de sempre; nós, enquanto sociedade, é que parecemos ter mudado e nos tornado coletivamente mais descrentes.
Em Dia D, é como se os personagens de Emily Blunt e Josh O’Connor, em suas ideias e práticas radicais de empatia, pudessem ser tão profundamente capazes de praticar a alteridade que conseguem, literalmente, ver através do outro. Compreender as dores do outro, as dificuldades e as alegrias também. Quando o filme diz que não devemos temer o desconhecido, é porque a “invasão” em Dia D tem como consequência algo que não fazemos mais com tanta frequência, embora seja profundamente humano: ouvir o outro.
Spielberg reflete aspectos que são próprios do nosso tempo. Fake news, o descrédito do jornalismo e demais instituições, a crise da fé. A forma como perdemos a capacidade de crer nas imagens e, mais ainda, de ouvir. Existe algo de profundamente belo e simbólico em dedicar a última cena e palavra desse filme, com um corte abrupto, a uma única palavra: “ouçam”. Para um diretor sempre tão rechaçado pela breguice e pelo sentimentalismo exacerbado, é possível que seu cinema nunca tenha sido mais importante que agora.
Dito isso, meu incômodo com Dia D mora na forma como o vilão de Colin Firth e seu antagonista, o personagem de Colman Domingo, são desenvolvidos. Aqui a falta de aprofundamento não parece uma liberdade poética tomada pelo roteiro, parece uma falha ou uma negligência em prol de outros aspectos e personagens que não possuem peso equivalente para a trama. Pensando em como ambos movimentam os personagens principais, talvez o tempo de tela que possuem deveria ser melhor aproveitado.
As sequências de ação, por outro lado, são de tirar o fôlego e os movimentos de câmera que Spielberg se propõe a fazer são realmente impressionantes (e muito elaborados). A fotografia trabalha a luz em momentos importantes em que a verdade está prestes a ser revelada ou uma revelação espiritual está prestes a acontecer, e os enquadramentos são sempre bem pensados para refletir a dualidade central do filme entre fé e ciência. Mesmo quando parece que a direção chama muita atenção para si, ela está dizendo algo sobre a história que devemos prestar atenção.

Quando a tela fica dividida exatamente ao meio, por mais de uma vez ao longo do filme, com personagens ocupando extremos opostos do quadro, Spielberg elabora visualmente não apenas a dualidade entre espiritualidade e ciência, mas também o dilema ético central de Daniel, entre revelar a verdade e arriscar um mundo ainda mais instável ou revelá-la porque certas verdades precisam ir à luz (“conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”, João 8:32). Acaba que essa se torna uma imagem sobre a própria humanidade: separados por ideologias, crenças, fronteiras e formas distintas de enxergar a realidade, será que apenas um evento desta dimensão é o que seria capaz de nos unir?
É uma constatação amarga, principalmente porque, no fundo, sabemos que, fora do cinema esperançoso do diretor, a principal descoberta a ser retratada no filme tem mais chance de ser mais um fator a nos dividir. Só que Spielberg continua acreditando na humanidade, mesmo quando, fora do cinema, essa crença possa estar mais abalada que nunca, e é precisamente por conta disso que confiamos ao cinema dele todos os saltos de fé necessários desde o século passado. É pela oportunidade de presenciar que, ao menos naquela sala escura, pelo tempo que o projetor ilumina a tela, a humanidade ainda tem jeito.
Nota: 4 /5