Obra vs. Artista: o caso J. K. Rowling - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
Artigo

Obra vs. Artista: o caso J. K. Rowling

Em 2026, poucos temas são mais espinhosos do que separar a arte do artista.

Há algum tempo eu tentei fazer um texto sobre o assunto — recomendo que leia antes que dê continuidade ao presente texto —, no entanto, três anos depois percebo que ainda passo longe de esgotar o assunto na minha própria cabeça. Tudo que envolve artistas como Woody Allen, J. K. Rowling, Roman Polanski, Francis Ford Coppola, Pablo Picasso como tantos outros que carregam declarações, denúncias ou condenações nas costas é um bicho de mais de sete cabeças para lidarmos seja na cultura pop, seja na cinefilia, seja na crítica de cinema.

Em razão dessa complexidade e de tantas nuances dentro do mesmo tema, evito tocar no assunto na maior parte do tempo, mas quando se diz respeito a autoria da saga Harry Potter, é muito difícil se calar nas redes — ainda mais quando você também cria nesse meio e era uma grande fã até não muito tempo atrás, como é o meu caso.

Para quem cresceu nos anos 2000, é impossível se dissociar por completo do que significou Harry Potter para essa geração. Para mim, é como se fosse uma parte de quem eu me tornei. Se eu fui uma leitora ávida na infância, parte desse interesse foi desencadeado pela saga. Se eu me tornei uma cinéfila incurável, parte desse interesse nasceu no momento em que ganhei meu primeiro VHS de A Pedra Filosofal. Sobre mim, isso é algo incontornável.

Mesmo assim, eu decidi me afastar de Rowling e sua obra. Por quê?

É simples:

Porque, diferente de vários outros autores, J. K. Rowling usa o dinheiro recebido por essas obras para financiar movimentos, pesquisas e até processos que reforçam discursos transfóbicos os quais afetam a existência de uma minoria que já é constantemente invalidada, violentada e excluída da sociedade. Com base em argumentos controversos, para dizer o mínimo, Rowling invalida a experiência de pessoas trans, escondendo frequentemente seu discurso de ódio com uma argumentação “puramente” biológica e científica de que o sexo deve prevalecer sobre a identidade de gênero, o que na prática se transforma em mais exclusão e violência.

Em sua lista de preocupações, inclusive, estão uma série de fake news. Estratégia comum para pessoas que perpetuam ideais fascistas e excludentes, aliás.  Em seu texto de justificativas por ter “acatado essa causa”, J. K. Rowling diz preocupar-se com a segurança das “mulheres biológicas” em banheiros femininos, por exemplo. Uma preocupação calcada em zero evidências científicas ou registros consistentes de ataques de mulheres trans para com mulheres cis.

Ela diz preocupar-se com mulheres trans competindo contra mulheres cis nas Olimpíadas, mesmo que utilize como exemplo para isso Imane Khelif, uma mulher que sequer é trans, reduzindo mais uma oportunidade de discussão na definição que se quer estabelecer sobre sexo e gênero.

imagem ilustrativa: pexels

Ela diz estar preocupada com a “epidemia” de crianças que se dizem transgênero e preocupada que essas crianças se arrependam no futuro. Mesmo que não exista um estudo científico sério sobre essa “epidemia” e mesmo que, estatisticamente, a maioria das pessoas que se arrependam hoje de realizar uma transição de gênero, na verdade destransicionam por preconceito. Apenas 1% por arrependimento (The Conversation).

Enquanto isso, o que realmente deveria preocupar as pessoas é o fato de que a idade média de homicídio de pessoas trans no Brasil (e na América Latina) é de 35 anos. Que apenas um quarto das pessoas trans no Brasil têm emprego formal (IPEA).  Que o Brasil foi considerado o país que mais mata pessoas trans no mundo pelo 15º ano consecutivo em 2024. Que também sofre uma epidemia de feminicídio, e ambos fenômenos estão correlacionados. E que o feminismo deveria ser compreendido em sua interseccionalidade porque todas as opressões estão intrinsecamente ligadas e nenhuma será combatida enquanto a outra existir.

Deixe seu comentário

×
Cinemação

Já vai cinéfilo? Não perca nada, inscreva-se!

Receba as novidades e tudo sobre a sétima arte direto no seu e-mail.

    Não se preocupe, não gostamos de spam.