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Crítica: Avatar: Fogo e Cinzas

Avatar: Fogo e Cinzas
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron, Rick Jaffa, Amanda Silver
Nacionalidade e Lançamento: Estados Unidos, 2026
Elenco: Sam Worthington, Zoe Saldaña, Sigourney Weaver, Stephen Lang, Oona Chaplin, Kate Winslet, Cliff Curtis.
Sinopse: Após uma perda devastadora, a família de Jake e Neytiri enfrenta uma tribo Na’vi hostil, o Povo das Cinzas, liderada pelo implacável Varang, à medida que os conflitos em Pandora se intensificam e surgem novos dilemas morais.

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No cinema e, especialmente, no cinema de James Cameron, uma máxima parece fazer sentido: não importa tanto a história que se conta, mas sim como ela é contada. Uma das maiores críticas à saga Avatar concentra-se em uma suposta ausência de substância em seus enredos. Acusam a história de ser simples demais, de já ter sido vista inúmeras vezes no cinema e fora dele: o homem que se apaixona por um outro universo que, a princípio, não compreende e, então, decide vivê-lo com a intensidade de uma vida inteira — não sem antes tornar-se herói daquele (novo) mundo.

Sim, essas críticas negativas têm um fundo de verdade: o enredo de Avatar, de fato, não é uma grande novidade, tampouco são as reviravoltas que acontecem ao longo dos filmes. Entretanto, existe um cuidado com a construção do universo de Pandora que sempre foi e continua sendo muito impressionante, que é a maneira como Cameron leva o espectador nessa jornada melodramática e (quase) irresistível para com os sentidos, mexendo direto com o coração mais do que para com o cérebro, por meio do que há de mais fundamental nessa arte.

Da criação de universos detalhistas com imagens de preencher os olhos até o trabalho de som imersivo que complementa essa experiência em tela grande, é inegável o dom do diretor para um bom blockbuster, para contar histórias — por mais simples que pareçam ser. Ao assistir a um filme da saga Avatar, sinto que a maioria dos espectadores, como eu, vai para o cinema em busca de um espetáculo visual e sonoro, que torna possível escapar da realidade do mundo, nem que seja por algumas horas. Diante de tanta complexidade técnica, a simplicidade do roteiro não me incomodava a ponto de torcer tanto o nariz, mesmo que fosse algo que eu desejasse.

Dito isso, em Avatar: Fogo e Cinzas, aquele que era apenas um desejo, foi enfim atendido. O terceiro filme da franquia remete a temas bem mais emocionalmente densos e complexos, como luto, suicídio, imperialismo, sacrifício e violência, que os filmes que o antecedem. É como se Cameron decidisse arriscar uma abrangência maior de temas a serem trabalhados nesses personagens e desse a eles uma camada a mais, uma abordagem ainda mais humanizada para seus seres azuis. Se em Caminho da Água, o viés ambientalista era a espinha dorsal da história, neste o imperialismo é o protagonista da vez e dialoga mais que nunca com o zeitgeist de um mundo que parece querer retornar a esse momento da nossa história (se é que algum dia deixamos de estar nele).

O longa começa com a família que já conhecemos enfrentando o luto, cada um ao seu modo, após a perda de Neteyam. O irmão se sente culpado, Jake o culpa e também culpa a si mesmo, a mãe tenta reconstruir uma família que está aos pedaços e todos da tribo tentam se proteger de um novo ataque dos caras-rosadas. No meio dessa nuvem cinzenta, carregada de tristeza e arrependimentos, Cameron cria dilemas éticos muito interessantes sobre humanidade com duas cenas-chave para o filme, que podem resumi-lo de uma certa forma: a) o sacrifício de Spider, que passa a ser uma questão de segurança coletiva de Pandora; e b) Varang tocando, pela primeira vez, em uma arma de fogo após ser introduzida ao objeto pelo Coronel Miles.

Ainda que haja outros conflitos adjacentes que surgem ao longo das suas três horas e vinte minutos de duração, estes são facilmente resolvidos para que os dois grandes momentos de Avatar: Fogo e Cinzas estejam justo nessas duas cenas. É na composição da cena da faca, enquanto Spider toma banho desavisado no rio e na crescente tensão que prossegue esse momento, e na maneira como Cameron decupa a cena de Varang, imprimindo uma mensagem muito maior sobre o estado atual do mundo e a sede pela destruição que se torna possível ao armar qualquer indivíduo que não vê outra resposta além da violência.

Quando se fala em uma possível morte do cinema como espaço e se observam os números de Avatar desde o primeiro filme, é impossível não pensar que o cinema em que James Cameron acredita continua atraindo pessoas ano após ano porque, em última instância, também representa aquilo que essa arte pode oferecer em tempos difíceis.

Como um bom realizador de blockbusters, James Cameron navega por temas complexos e até mergulha neles quando pode, mas ao final sempre apresenta uma versão otimista. Um final feliz — pelo menos na tela de cinema. Por isso nos presenteia com uma última cena em que a imagem que fica é uma utopia boa de se imaginar: um mundo em união. Existe algo mais poético que isso em um mundo cada vez mais dividido? Cada vez mais polarizado? É um pouco de esperança para que as pessoas escutem a natureza, escutem uns aos outros. O cinema pode ser instrumento político mesmo quando escapa à realidade, e pode propor reflexão sobre o nosso mundo mesmo quando ainda se quer fugir dele.

Nota: 4 /5

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