O pesadelo da maternidade em Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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O pesadelo da maternidade em Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria

Maternidade não é um tema incomum no cinema. Muitos já falaram sobre as belezas e dificuldades de ser mãe. Ainda assim, é algo que merece ter espaço no audiovisual, especialmente quando traz as perspectivas de mulheres, abrindo espaço para aprofundar questões que às vezes são minimizadas dentro da nossa sociedade. 

E na temporada 2025/2026 temos filmes abordando o ser mãe por óticas que fogem da romantização tão comum ao tema, mostrando o quanto existe uma sobrecarga para a mulher que precisa ser falada. E que deixam claro o quanto a sociedade não aceita a maternidade que foge do padrão. Na verdade, a sociedade está pronta para massacrar uma mãe que não performa a maternidade da forma socialmente dita como correta.

Morra, Amor é a nova obra da cineasta  Lynne Ramsay, que já abordou o tema antes em Precisamos Falar Sobre O Kevin. E apesar de extremamente diferentes, os dois filmes se encontram no questionamento sobre a ideia de que a maternidade é algo intrínseco a ser mulher. 

Em Morra, Amor a cineasta traz Grace (Jennifer Lawrence em uma performance incrível) e Jackson (Robert Pattinson), um jovem casal extremamente apaixonado que vai morar em uma casa no meio da floresta, afastada de tudo.  Eles acabam tendo um filho e Grace fica sozinha cuidando do bebê enquanto Jackson sai para trabalhar e fica dias longe de casa. E em meio a solidão, isolamento e ressentimento pela situação ela lida com uma depressão pós-parto fortíssima que a faz perder um pouco da noção de realidade. 

Em um primeiro momento você pode achar que Jackson apoia Grace, mas a verdade é que ele não percebe o quanto ela está sobrecarregada cuidando sozinha do bebê. Ele não enxerga o quanto ela está em sofrimento. Não se esforça para estar mais presente, nem ficar com o filho para que a esposa tenha um descanso e possa cuidar de si mesma por algumas horas. Não faz sexo com ela, tirando uma das poucas coisas que a lembram do que é ser um indivíduo, uma mulher, além de mãe. E quando percebe o nível do problema e começa, de fato, a tentar dar apoio fica a dúvida se isso ainda serve de alguma coisa. 

Morra, Amor retrata essa exaustão de forma tão visceral que ela também chega na audiência pela repetição de tudo que acontece na tela. Nós acabamos vivendo a vida de Grace e sua forma de existir. E não é nada agradável.

Já em Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria, também vemos uma mãe sobrecarregada, exausta e com pouco suporte. Só que ela não está passando por depressão pós-parto e sua filha não é recém-nascida. 

Linda (Rose Byrne, provavelmente na performance feminina mais marcante do ano) é uma psicóloga que está em crise. Morando em um motel porque seu apartamento abriu um buraco no teto e o dono não agiliza a obra. Sua filha doente, se alimentando por uma sonda e sem perspectiva de melhora. Seu marido longe da família por conta do trabalho, apenas cobrando para que ela dê conta de tudo. Enquanto ele assiste jogo nos seus momentos de folga. Coisa que a esposa não tem por precisar cuidar da filha, atender seus pacientes e resolver a questão do próprio apartamento 

Quanto mais os dias passam, mais ela bebe, se isola e vai se desesperando ao sentir culpa por ser incapaz de resolver tudo, por não ser uma mãe perfeita e acreditar que é responsável por sua filha não melhorar. 

Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria é um filme que causa desconforto. É desesperador e incômodo ver aquela mãe se tornando mais e mais instável. Mas é perceptível o quanto ela está sobrecarregada e sozinha, sem suporte nenhum em uma situação completamente aterradora. É aterrador também perceber como ela se sente abandonada. Como tudo ao seu redor só aumenta sua claustrofobia. 

É interessante perceber como duas diretoras trazem em um mesmo momentos dois filmes tão distintos e com pontos tão grandes de convergência. Ambas parecem jogar para o público o quanto a maternidade é solitária, claustrofóbica. E o quanto a sociedade abandona mães à própria sorte. 

A mesma sociedade que ensina que mulheres “nasceram” para ser mães, também não dá suporte a essas pessoas. 

Muitas são as mulheres que não desejam ter filhos, mas mesmo hoje ainda são questionadas pela sua escolha de não gerar. Mulheres que desejam uma laqueadura no Brasil sofrem porque médicos ainda se recusam a fazer o procedimento, com a justificativa de que no futuro talvez elas queiram ser mães ou seus futuros parceiros queiram ser pais. Como se o corpo da mulher fosse feito para conceber o desejo de um homem. 

E esses mesmos homens que não carregam os filhos em seus ventres, mesmo abrindo a boca para dizer que estão ao lado de suas mulheres, costumam ter um papel muito fácil ao serem pais. Quantos são os homens que acreditam que paternidade é pagar contas e vez ou outra sair com os filhos, mas que nos momentos difíceis não estão ali ao lado deles?

Morra, Amor e Se Eu Tivesse Pernas Eu Te Chutaria também mostram isso. Essa paternidade que não conhece o peso social do que é ser mãe. O quanto esse momento que seria a suposta realização de um sonho de uma mulher pode facilmente ser um grande pesadelo

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