Eu Cinéfilo #68: Crítica - Gosto de Cereja (1997) - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Eu Cinéfilo #68: Crítica – Gosto de Cereja (1997)

A principal razão que leva alguém a assistir um filme, é a crença que aquela obra vai proporcionar sensações. Seja medo, felicidade ou angústia, o cinema existe para tirar o espectador do eixo. O filme Gosto de Cereja faz exatamente o oposto, mas atinge com maestria a mesma finalidade sensorial.

O longa de Abbas Kiarostami conta a história de Badii, um homem de meia-idade que está decidido a cometer suicídio. Seu plano é simultaneamente simples e elaborado: quer ter uma overdose de analgésicos em uma vala ao lado de uma cerejeira. O detalhe é que ele busca um desconhecido para enterrá-lo, em troca de uma generosa quantia de dinheiro. A trama foca na jornada de Badii em busca de um cúmplice, sem dar detalhes da razão pela qual o homem quer tirar a vida. Isso mantém o espectador neutro, incapaz de ‘’julgar’’ a proporção de sua dor.

Gosto de Cereja é um daqueles filmes que fica com você por muito tempo depois de assisti-lo. Kiarostami propõe autorreflexão a partir do ponto de vista do protagonista. Quando a câmera não está em primeira pessoa, ela está fixa em planos longos, revelando pacíficas paisagens amarelas, onde vemos o carro de Badii vagar pelas estradas tortuosas, que podem ser interpretadas como as dificuldades da vida. Uma viagem sinestésica, que contrasta a angústia da depressão com a calmaria do deserto.

O filme é uma obra-prima pela forma cru que retrata a vida real. Não usa de elipses, iluminação rebuscada ou eventos chocantes. Até mesmo os personagens do filme, com exceção do protagonista, não são atores profissionais. São pontos de vistas diferentes, de pessoas em fases distintas da vida. Tudo que acontece na obra, de certa forma, está ali para impedir que a história avance. Ninguém quer aceitar o trabalho sujo, mas cada um por razões distintas.

O filme usa de elementos da natureza, tanto visuais quanto sonoros para estimular o espectador. Da mesma maneira que uma das mensagens do filme trabalha enxergar as simples virtudes da vida, como observar o luar ou o som dos pássaros, é isso que podemos apreciar durante toda a extensão do filme. Coisas que deveríamos fazer no nosso dia a dia, mas assim como Badii, ignoramos. Uma experiência cinematográfica única, que está disponível para assistir na MUBI.

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Texto escrito por:

Pedro Cheque

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