One Piece finalmente consegue capturar uma nova audiência
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One Piece demora a engrenar, mas finalmente consegue capturar uma nova audiência

One Piece
Criação: Steven Maeda, Matt Owens
Elenco: Iñaki Godoy, Emily Rudd, Mackenyu, Vincent Regan, Morgan Davies, Aidan Scott, Armand Aucamp, Jacob Romero, Jeff Ward.
Sinopse: Em um mundo marítimo, um jovem capitão pirata parte com sua equipe para alcançar o título de Rei dos Piratas e descobrir o tesouro mítico One Piece.

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A fixação da Netflix com adaptações de propriedades animadas japonesas já estava chegando ao fim. Depois do tremendo fracasso crítico do filme live-action de ‘Death Note’ e da terrível série ‘Cowboy Bebop”, as chances da plataforma de streaming quebrar a maldição da adaptação de animes eram muito escassas. Tudo isso causava um medo tenaz nos fãs de One Piece. Quando a Netflix por fim anunciou que havia comprado os direitos da franquia diretamente do encalço de Eiichiro Oda (por uma bagatela que certamente faria queixos caírem ao redor do globo), uma legião de fanáticos pelo anime veio até as redes sociais protestar e demonstrar seu desgosto. Era uma tarefa muito mais do que árdua  transpor todo aquele universo e aqueles personagens totalmente excêntricos para um ecossistema realístico e “normal”. Não só isso, mas também adaptar quase 100 episódios de um dos primeiros arcos do seriado japonês em um curto esquema de 8 capítulos. Era uma batalha quase impossível.

Chegando em setembro de 2023, com a série tendo devidamente estreado e percorrido seu curso já com algum distanciamento, podemos afirmar que a tarefa foi bem sucedida. “One Piece” da Netflix é uma série falha, com vários problemas, mas que consegue muito bem adaptar o universo encantador do mangá e do anime.

Essa dificuldade de encaixar elementos da história de quase 100 episódios em 8 capítulos é muito evidente principalmente durante as duas primeiras partes da história contada pela Netflix. O primeiro episódio é de longe o pior da série. Pilotos sempre são difíceis de se esquematizar. Lembro que são poucos pilotos que já realmente entregaram conteúdo de qualidade (de cabeça me vêm os episódio piloto de LOST, Sopranos e The Wire). Até o recente piloto de “The Last of Us” sofreu problemas para engatar a história. Mas o episódio 1 de One Piece não tem problemas, tem tragédias.

O primeiro capítulo é tenebroso em todos os aspectos. Não nos apresenta bem o protagonista (com cortes incessantes entre passado e presente que não nos deixam adaptar com o desenvolvimento da trama principal), não consegue passar o carisma de nenhum personagem de apoio (com a exceção de Zoro) e ainda tem diálogos esquisitíssimos que poderiam muito bem terem sido escritos pela sala de roteiro da WWE. Outro problema – esse mais recorrente até tarde da série – é a elaboração dos sets. Por vezes nota-se que o alto dinheiro envolvido na produção deve ter sido pouco aplicado na construção dos cenários. Recorrentemente me encontrei assistindo uma produção talvez de nível Rede Record de Televisão, com sets enviados diretamente da novela Jesus. Cenários vazios, ocos e que pra complementar não foram nem um pouco ajudados pela péssima fotografia sem cor e sem brilho de “One Piece – A Série”. Outro incômodo frequente na série é que a direção também parece ser precária. Inúmeras cenas de luta parecem filmadas em slow-motion, com cortes providenciais que maquiam a direção apática durante batalhas e cenas de ação. Ainda falando nesse aspecto, a direção de atores também tem muita dificuldade em encontrar seu tom. Em uma certa hora estamos assistindo a um filme de “brucutus” com one-liners e closes heróicos clichês. Já em outro momento parece que fomos transportados para Game of Thrones, com uma exposição de lore feita de modo extremamente corrido e insosso.

O segundo episódio tem os mesmos problemas mas já esboça uma melhora em alguns aspectos. Conseguimos aprender um pouco mais sobre as motivações dos personagens e finalmente somos introduzidos ao mundo de One Piece de maneira definitiva. Porém, mesmo assim, a série continua com um roteiro fraco, infantilizado, que não sabe qual tom seguir. É somente no final do episódio 2 que a história acha seu rumo, engrena em uma trama focada e só aí que temos uma resolução do que iremos acompanhar ao longo dos capítulos restantes.

Quando a história finalmente usa sua bússola e nos deixa apreciar a interação dos personagens com o rico e divertido universo criado por Eiichiro Oda, aí sim que One Piece revela seu charme. Aí sim conseguimos observar o grandessíssimo carisma presente na escolha do ator principal, Iñaki Godoy, e conseguimos entender a dinâmica tão envolvente que a tripulação do Going Merry apresenta.

O enredo de uma hora para outra fica interessante, com tramoias do mal vindo de todos os lados possíveis e com um elenco de vilões que faria inveja ao Batman. A história apresenta seu enorme quebra-cabeças e nos faz saltar de empolgação ao referenciar a enormidade do mundo de One Piece. Mas isso só acontece lá pelo episódio 5 realmente. A partir da metade da história, ficamos completamente envolvidos com os personagens e principalmente com os vilões e capangas que o universo nos traz. Pra quem conseguiu enfrentar as águas turbulentas dos episódios 1 e 2, One Piece os recompensa com um divertimento ímpar, um ótimo passatempo que entretém e instiga.

“One Piece – A Série” só melhora depois de algum tempo e demanda paciência de seus espectadores. A confusão do início pode ser algo determinante para o abandono de alguns que são novos no universo de Oda. Porém, contrariando essa tese, vimos que a série se tornou um sucesso mundial e já foi renovada pela plataforma de streaming.

A série que finalmente quebrou a maldição dos animes em adaptações ocidentais não é pra qualquer um e realmente requer uma certa medida de passividade em seu início, aguentando episódios longos de 1 hora que quase não apresentam nada. A direção e o roteiro ao longo da série continuam bem precários – sim, melhoram depois, ficam “passíveis”, decentes – mas com o desenrolar do enredo esses aspectos se tornam irrelevantes em face ao tamanho divertimento que os personagens e que o universo de One Piece nos propõe. É uma série que com certeza nos deixa com gosto de quero mais e que exala um rico potencial para muitas e muitas temporadas cheias de arcos narrativos para Luffy e sua trupe. Cheia de falhas, mas que podem facilmente ser consertadas para a iminente segunda temporada que logo mais vem aí.

  • Nota
3

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