Filmes-terapia: a trilogia do Antes e o cinema de Richard Linklater
Filmes-terapia em um mundo ansioso: a trilogia do Antes e o cinema de Richard Linklater
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Filmes-terapia em um mundo ansioso: a trilogia do Antes e o cinema de Richard Linklater

Na era (do excesso) de informação, não é raro que estejamos à procura de pequenos momentos de pausa, vinda ou não de momentos e coisas que podem não ser terapia, mas possuem igual efeito terapêutico – nem que seja por breve momento. Por muito tempo, me perguntei se amava o Cinema por isso, pela pausa. Hoje eu sei bem que esse é um dos principais motivos. Para mim, o Cinema tem um potencial terapêutico inigualável. Só a sétima arte, às vezes, é capaz de me fazer esquecer qualquer compromisso ou maiores problemas por mais de 90 minutos. E essa magia é, de fato, muito especial.

Parando para refletir sobre filmes-terapia e diretores que possuem em sua filmografia verdadeiros respiros em forma de obras cinematográficas, foi impossível não pensar em Richard Linklater. Especialmente em um de seus trabalhos mais conhecidos: a trilogia do Antes. É surreal como em 1995, quando ainda estávamos distantes da maioria das tecnologias que temos hoje, Linklater já nos convidava a desacelerar nosso ritmo e simplesmente observar. A história de Jesse e Celine, um jovem casal que se conhece em um trem e decide descer em Viena por uma madrugada, se desdobra de repente em uma série de reflexões profundas sobre o sentido da vida, do amor e da morte.

As temáticas universais trabalhadas em diálogos profundos por Linklater não são apenas necessárias para o desenvolvimento da história do casal, são essenciais também para despertar nosso interesse na história e capturar a nossa atenção indivisível. Quando Celine se questiona sobre o nosso objetivo em tudo na vida ser, na verdade, uma forma de sermos mais amados, ela não está falando apenas da experiência dela ou de Jesse, está falando diretamente conosco. Se Antes do Amanhecer é, até hoje, usado em citações pelo mundo afora, é porque Linklater sabe como inserir o espectador na narrativa sem comprometer o desenvolvimento da história e o faz por meio de suas próprias indagações, reflexões e anseios, tornando algo até então individual em um sentimento coletivo.

Antes do Amanhecer
Antes do Amanhecer

Afinal, não é assim que nasce a arte, da vontade de tornar algo individual em um sentimento coletivo? Atire a primeira pedra quem nunca pensou estar sozinho no mundo, mesmo com milhões de pessoas em volta por se sentir mal compreendido. O sentimento de solitude é compartilhado por todos nós, em pequenas ou grandes doses, em diferentes momentos da vida. Falar sobre vida e morte, amor e filosofia, não estão nas nossas pautas diárias e encontrar alguém para compartilhar anseios e medos pode ser mais difícil do que parece. É com essa importância que filmes-terapia, como Antes do Amanhecer, geram alento no coração àqueles que só assim podem perceber não estarem mais sozinhos diante de tudo isso.

Para mim, esses são os melhores filmes: aqueles que nascem da vontade genuína do artista em expor a si mesmo sem ao menos saber que está expondo a todos nós. Quando Jesse divaga sobre sua visão de amor sendo um filho de pais divorciados, em um determinado nível, ele não fala apenas sobre isso, nem apenas com Celine. Estão presentes também a clara cisão do seu ambiente familiar e a solidão que ele sente como elementos essenciais para ajudar a traçar um perfil muito mais profundo de Jesse. Já quando Celine expõe sua visão sobre o feminismo e os homens pró-feministas como possíveis exploradores da liberdade sexual pregada pelo movimento, não estão presentes apenas a visão da personagem, como existe ali um ponto de partida para uma discussão muito mais complexa sobre o feminismo liberal e o empoderamento feminino, um tema socialmente relevante.

Se nos identificamos ora com Jesse, ora com Celine, o motivo é que embora sejam duas pessoas diferentes, com visões de mundo e passados distintos, seus anseios e medos ainda se mantêm universais. E isso, com certeza, não é para qualquer diretor. Manter-se interessante e instigante mesmo com um filme carregado de diálogos feitos em um presente absoluto (especialmente o segundo filme da trilogia), é um dom que nem todos possuem. Estou Pensando em Acabar com Tudo, filme recente de Charlie Kaufman para a Netflix, é um exemplo claro de filme que mira seus diálogos em busca de tornar-se interessante ou minimamente inteligente, mas recai em uma pretensão vazia. O que é absurdamente comum em filmes baseados em conversas e longas divagações, mas que não acontece na trilogia do Antes.

Podemos tentar explicar isso com a ideia de que Linklater consegue fazer algo muito difícil parecer muito básico: filmar conversas milimetricamente ensaiadas com muita naturalidade. Poucas coisas são tão certas na história do Cinema quanto a máxima de que quanto mais próximo do realismo um diretor tentar ser, mais formalista ele irá se tornar. Quando Hitchcock tentava ser mais realista, era quando mais deixava claro ser inimigo do improviso. Não é muito diferente da forma como Linklater decidiu fazer todos os filmes da trilogia do Antes: ensaios exaustivos e repetições incontáveis para se chegar no resultado mais próximo da naturalidade possível.

Antes do Pôr-do-Sol

Ethan Hawke e Julie Delpy ensaiaram as cenas e os diálogos várias vezes para que Linklater pudesse filmar em diversos ângulos algo que muitas vezes vai parecer um plano sequência (ou se não, com cortes quase imperceptíveis). E o que isso tem a ver com o nosso sentimento de contemplação, nosso convite para uma terapia cinematográfica? Tudo. O estilo de decupagem escolhido pelo diretor, seu detalhismo em deixar tudo próximo da perfeição, seus diálogos bem trabalhados com cidades-personagens vivas ao fundo e a opção pela ausência de música em sua trilha sonora são apenas algumas das escolhas que tornam o fato do diretor conseguir a nossa atenção indivisível algo ainda mais especial.

Convenhamos que o que Linklater faz é muito mais desafiador do que um filme de ação faz, com uso de todos os dispositivos narrativos, para chamar nossa atenção. Ele depende, assim, exclusivamente da força dos seus diálogos e da sua visão específica de como esse filme deve ser executado para criar algo único – e fez. Assistir a trilogia do Antes em um mundo tão ansioso, com excesso de informações e filmes com montagens cada vez mais ágeis, de histórias cada vez mais aceleradas, é um respiro cinematográfico não só porque nos toca em nosso âmago e provoca as mais diversas reflexões, mas também porque é um momento de conversa, de silêncio e de paz – no sentido mais literal da palavra.

Sem barulhos e maiores distrações, a trilogia do Antes tem uma razão de se tornar cada vez mais especial e imune aos efeitos do tempo: é única. Nada chega a ser tão emocionante e ao mesmo tempo tão realista quanto a forma que Jesse e Celine se comunicam. O amor existe, mas é tão palpável e pouco fantasioso à medida que o tempo passa, que se torna algo que paira no ar – e não o foco. O foco mesmo é o vínculo especial que se cria entre duas pessoas, que sabem poder conversar sobre tudo entre si e conosco. Como voyeurs desse casal, somos testemunha de um romance ao mesmo tempo que somos testemunhas de um vínculo precioso que anda em falta nesse mundo tão caótico.

Antes da Meia-Noite
Antes da Meia-Noite

É a tranquilidade transmitida pela voz de Jesse e Celine ecoando nas ruas de Paris, Viena ou em uma pequena cidade grega, que nos convence a parar tudo que estamos fazendo e ouvir. O cinema de Linklater é a antítese de um mundo estressante, é a preciosidade que existe em andar, não correr. Em ouvir o outro, entender suas vontades, medos e desejos, abraçando a possibilidade de existir no outro um pouco de você mesmo. Filmes-terapia vão além dos filmes-conforto: eles nos mostram uma visão de mundo inspiradora. São realmente respiros cinematográficos que transmitem uma arte apaixonada, daquelas que são impossíveis de esquecer. Se Linklater abre o coração e nós estamos dispostos a ouvir, uma brecha no espaço-tempo se abre e, de repente, o mundo lá fora não existe. E só o Cinema é capaz de fazer isso.

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