Velozes e Furiosos 9 - Um salto de fé - Cinem(ação)

Velozes e Furiosos 9 – Um salto de fé

Há um momento muito emblemático em Velozes e Furiosos 9 logo no começo:  após um jipe cair numa mina terrestre e explodir, o fanfarrão Roman (Tyrese Gibson) é esmagado pelo veículo, para o horror de Tej (Ludacris) e Ramsey (Nathalie Emmanuel), que presenciaram a cena. Segundos depois, Roman aparece por de trás do carro sem nenhum arranhão. Era uma ilusão de ótica. Minutos antes, Roman também protagonizou uma dessas cenas, mais absurda até: cercado por um grupo de mercenários, o herói recebe tiros de todos os lados, e derrota, sozinho, os vilões. Após a sequência, ele olha para os lados, se apalpa para ver se existe alguma ferida em seu corpo, e se espanta pelo que aconteceu. Como ele poderia ter sobrevivido?

Mas o incidente com o jipe naquele momento não foi uma ilusão de ótica. Por alguns segundos, Roman realmente foi esmagado pelo carro em chamas, é o que se registra na cena. O personagem claramente é esmagado. Mas quando o diretor Justin Lin (que retorna para a franquia) nos diz que está tudo bem, acreditamos. Faz alguns filmes que Velozes e Furiosos se tornou uma franquia de inverossimilhanças e desafios às leis mais básicas da gravidade, e isso não é algo novo em filmes de ação que deixam alguma lógica de lado em prol da farsa e do espetáculo, mas esse argumento aparece sempre aflorado nas discussões sobre a saga comandada por Vin Diesel (Dominic Toretto). Os filmes têm se dado muito bem nas não explicações: aceitamos que nesse universo tudo pode acontecer, e “tá tudo bem, sabe?”. Porém, neste nono capítulo, a natureza ilógica daquele universo é colocada em pauta nas discussões entre Roman e Tej. É comum nesses blockbusters de elenco inchado, com diversos coadjuvantes, que eles sejam definidos pela “piada recorrente” da vez, como o fato de Ramsey (a hacker da equipe) não saber dirigir ou mesmo pela idiotice de Roman, o personagem de uma piada só nos filmes anteriores. É curioso que a caraterística principal para o personagem neste “Velozes e Furiosos 9” seja justamente ele começar a perceber as “falhas da matrix”. Diesel acredita demais na mitologia daquela história – o único que acha que está num filme de verdade – para reconhecer isso.

É como se nas cenas que dividem, Roman e Tej estivessem discutindo a existência de Deus. O primeiro jura que eles estão sempre vivos por algum motivo enquanto o segundo tenta se ater à lógica e aos números. Mas essa discussão soaria até tola a essa altura do campeonato, se não tivéssemos como pastor Justin Lin, o melhor diretor que já passou pela série (e que ajudou a ressuscitá-la, definindo o tipo de filme que veríamos nos capítulos subsequentes) no comando. É o diretor que mais soube – e sabe – aproveitar e equilibrar a ação, o humor e o espetáculo. São deles as melhores sequências de ação da série, sempre fáceis de compreender, fluidas e bem equilibradas, onde existe de fato uma dedicação na construção dela até a culminação do momento “wtf”. Se alguns diretores da franquia vivem em prol de tais momentos, mas constroem sequências burocráticas até que chegue nesses ápices, geralmente filmado em uma câmera lenta que os transforma realmente em “moneyshots” (como se até mesmo os realizadores estivessem falando “viram como isso foi irreal?”), para Lin elas acontecem a todo momento, porque ele já acredita, veemente, nisso. Porque essa é a única lógica que se deve acreditar. Toretto e seu irmão nunca visto na série, Jakob (John Cena) socam através de concreto, dão saltos super-heroicos, desafiam a gravidade constantemente entre um corte e outro naturalmente. E voltamos à sequência-chave do jipe que dita o que veremos a seguir: o diretor o mostrou sendo esmagado, mas depois disse que estava tudo bem. Basta acreditar.

Grande parte do cinema norte-americano comercial parece pautado por uma moralidade muito enraizada no cristianismo e valores bíblicos quase inconscientes nas formas que encaram família, casamento, mártires. Mas é especialmente curioso notar como Velozes e Furiosos parece uma grande franquia de filmes cristãos dentro de Blockbusters, pegando o grande apego católico de Toretto e sua família e usando isso como mote. Sempre representado pelo crucifixo que Dom carrega consigo e que já se tornou marca registrada do personagem, este símbolo é carregado também por Jakob Toretto, irmão do mal que, a lá Caim e Abel, se vira contra Dom por inveja, e possui um crucifixo idêntico ao protagonista. Dentro dessa série de filmes, sempre temos uma cena de Dom e seus apóstolos cerimonialmente rezando antes das refeições. Em “Velozes e Furiosos 9”, com sequências de Roman e Tej (aliadas ao caráter bíblico da própria situação de Caim e Abel), isso parece mais evidente.

São características muito interessantes contidas num filme muito bem-resolvido em suas propostas. Se as sequências de ação por Justin Lin continuam mais afiadas do que nunca, a forma com que ele traz essas discussões e momentos metalinguísticos nunca soa excessivamente sarcástica porque ainda existe comprometimento do diretor com a dramaturgia, por mais ridícula que seja. Ele é movido pela ação no sentido básico da palavra, e sabe o que importa ou não para o ritmo do filme. O vilão? Apenas um cartoon que em certo momento diz que “crianças ricas e mimadas comandam o mundo”. Também temos a volta de Han, personagem que morreu no terceiro filme e sofreu um retcon para que retornasse à vida. Mr. Nobody (Kurt Russel) diz pra ele, na cena que explica sua ressureição: “a parte difícil vai ser te manter morto”. Em determinado momento a vilã Cypher (Charlize Theron) discute sobre a própria estrutura do filme que assistimos, dizendo que “se isso fosse um filme, este seria o momento onde o vilão fracassou e terá que recorrer a um plano melhor”.

Estamos no ponto onde os próprios personagens começam a duvidar deste mundo impossível, e os únicos que triunfam são aqueles que acreditam nesse impossível. E isso se consuma na ideia que já virou até meme, e é colocada no filme: quando a franquia vai finalmente para o espaço — e isso acontece justamente com Roman e Tej. Nessa discussão entre lógica e fé muito vocal por parte dos dois no filme, temos o eventual momento do salto de fé que contradiz qualquer matemática e números. Tornar algo tão simples como suspensão de descrença em um ponto de roteiro poderia parecer tolo, mas Lin não usa isso para justificar as sequências absurdas nas quais seus heróis se envolvem. Essa já é a lógica de seu universo. Velozes e Furiosos 9 é um filme onde esses personagens se encontram nessa espécie de crise de fé na própria farsa em que vivem, então nada mais justo do que eles discutirem isso, entre uma cena de ação cada vez mais inacreditável e empolgante que a outra. E se Roman e Tej olhassem para a janela de seu carro em órbita e a terra vista do espaço nesse universo de Velozes e Furiosos fosse plana, estaria tudo bem, também.

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