Dia Mundial de Luta Contra Aids: Especial Rent - Cinem(ação)
Rent

A Vida é um Musical – Dia Mundial de Luta Contra AIDS: Especial Rent

Dia 1º de Dezembro é o ‘Dia Mundial de Combate à AIDS‘ e nesse dia tão importante relembramos um dos mais importantes musicais da Broadway Rent

O dia 1º de Dezembro marca o Dia de Luta Contra a Aids, e por mais que muitos digam que os musicais não tem nada a ver com a realidade porque tudo é muito lindo, tudo é muito bonito, não é bem assim. Pra conscientizar nesse dia a importância de lutar contra a Aids, resolvi trazer pra vocês um musical que retrata a luta contra a doença, o musical Rent. E falar desse musical nessa data é muito propício, não só por tratar da Aids, mas também porque dia 23/11/2020 o filme baseado no filme completou 15 anos, dia 25/01/2021 o espetáculo completa 25 anos de sua estreia e também completa 25 anos da morte de Jonathan Larson, o criador do peça. Ou seja, seja tudo conspirou para que hoje conversemos sobre Rent.

Então pega o chopp e o vinho e vamos encarar a boemia!

Rent: O Musical
Rent Original Cast Broadway
Elenco original da Broadway de Rent

O musical Rent começou a surgir em 1988, quando Billy Aronson, um escritor e dramaturgo americano, que resolveu fazer uma atualização para a ópera La bohème, composta por Giacomo Puccini em entre 1893 e 1895, com o libreto (texto sobre o qual são compostas as óperas e musicais) de  Luigi Illica e Giuseppe Giacosa, baseado no livro Scenes de la Vie de Boheme, de Henri Murger, livro esse que também serviu de inspiração para o musical Moulin Rouge!. No ano seguinte Jonathan Larson se juntou ao escritor e escreveram 3 canções Santa Fe, Rent e I Should Tell You. Com a chegada de Larson, a peça começou a ser formada. Ele sugeriu que o musical se passasse em meio à pobreza e a falta de moradia, e a vida de gays, drag queens e punks no bairro de East Village em Manhattan, em um Apartamento em Greenwich Village, e ja deu o nome a peça Rent.

Em 1991, Larson entrou em acordo com Aronson para que ele pudesse tornar Rent uma peça sua. As pretenções de Larson eram ambiciosas, ele queria fazer uma ópera rock baseada em La bohème, uma ópera rock que agradasse a geração MTV. Aronson e Larson fizeram um acordo, de que se o espetáculo chegasse a Broadway ele seria creditado com o conceito original da peça e que receberia parte dos lucros. Larson escreveu centenas de canções e fez muitas mudanças drásticas no show, e a versão final da peça tinha 42 canções. Em 1992, o compositor entrou em contato com o diretor artístico James Nicola, com uma cópia do roteiro e das músicas de Rent.

Jonathan Larson

Em 1993, foi feita a primeira leitura da peça no New York Theatre Workshop, mas apesar de promissora se notou muitos problemas na peça, principalmente em sua estrutura. Canções então foram cortadas, o musical foi se reestruturando, encenações foram feitas, o elenco sendo formado, aos poucos Rent foi se formando. E em 24 de janeiro de 1996, Larson deu uma entrevista sobre a peça que estrearia no dia seguinte off-Broadway. A única entrevista que o autor deu sobre a peça, porque dia 25 de janeiro de 1996 Jonathan Larson faleceu vítima de aneurisma de aorta não diagnosticado, que se acredita ter resultado da síndrome de Marfan. Mas como se diz: ‘O show não pode parar’, e no dia 25 mesmo, o elenco fez uma apresentação, a primeira oficial, em homenagem a Larson. O 1º ato todo foi cantado com o elenco todo sentado enfileirado, até que em La Vie Bohème, que conclui o 1º ato, eles não se contiveram e fizeram o 2º ato todo como deveria ser feito originalmente. Com a popularidade esmagadora do musical, com todos os ingressos, em todas as seções esgotadas, em 29 de abril de 1996 o espetáculo estreou na Broadway onde ficou em cartaz por 12 anos. Inclusive a última apresentação foi filmada e está disponível no Youtube Filme pra quem quiser conferir.

Mas o que faz de Rent tão popular assim? Um dos principais motivos é que o espetáculo foi um dos primeiros, se salvo engano o primeiro, a tratar da Aids de forma tão explícita, dos 8 personagens principais 4 são HIV positivo, além disso o musical trata de pessoas comuns como eu e você que lutam para sobreviver. Sem contar que as músicas são ótimas. Outro ponto que contribui para o suceso do musical é que ele é semibiográfico, Larson incorporou vários elementos de sua vida no espetáculo. Por exemplo, ele viveu em Nova York por muitos anos como um artista com um futuro incerto, sacrificou uma vida estável para correr atrás de sua arte e tinha muitas das mesmas esperanças e medos de seus personagens. Como os personagens do espetáculo, ele enfrentou condições precárias de vida, como fogão a lenha ilegal, banheira no meio de sua cozinha, campainha quebrada, que fazia com que seus convidados ligassem do telefone público do outro lado da rua e ele jogava a chave, tudo isso incorporado a peça. A história por trás de Maureen, deixa Mark por uma mulher (Joanne), é baseada no fato de que a própria namorada de Larson o deixou por uma mulher. O personagem Mark Cohen é baseado nos amigos de Larson, o cineasta e produtor Jonathan Burkhart e o documentarista Eddie Rosenstein.

Além das adaptações de La Bohème pro século XX, substituindo a Tuberculose pela Aids e Paris do século XIX para a Nova York da década de 80 e 90, incluir dados acontecimentos biográficos, Larson se inspirou em vários locais e acontecimentos reais. Como o Life Café, onde se passa a música La Vie Bohème, era um restaurante real que se fechou em 2013. A confusão ocorrida no final do 1º Ato foi baseado em uma confusão ocorrida em East Village em 1988 por causa de um toque de recolher no Tompkins Square Park. Uma das cenas mais emocionantes do musical, a música Will I?, que se passa em uma reunião do Suporte a Vida, que mostra o medo de viver com a Aids, foi inspirada por um acontecimento real. Larson participou de uma reunião de Friends in Deed, uma organização que ajuda as pessoas a lidar com doenças e luto, bem como como o Suporte à Vida. Depois da primeira vez, Larson compareceu às reuniões regularmente. Durante uma reunião, um homem se levantou e disse que não tinha medo de morrer. Ele disse, entretanto, que havia uma coisa de que temia: ‘ele perderia sua dignidade?’ Dessa pergunta surgiu a primeira linha da música Will I?. As pessoas presentes na reunião de Suporte de Vida durante o musical, como Gordon, Ali e Pam, tem os nomes dos amigos de Larson que morreram de Aids. No show da Broadway, os nomes dos personagens daquela cena eram trocados todas as noites para homenagear os amigos dos membros do elenco que viviam ou morreram de AIDS.

Resultado, o espetáculo foi recebido de forma postiva por toda crítica não apenas pela atuação e músicas, mas também por sua representação de indivíduos soropositivos. Muitos críticos elogiaram o fato de personagens como Angel e Collins seremfelizes, com perspectivas positivas sobre a vida, em vez de estarem resignados com a morte, algo muito comum de se ver em obras sobre HIV’s positivos da década de 80 e 90. Como resultado o espetáculo foi indicado a 10 Tonys Awards e levou 4 incluindo Melhor Musical. Além do Tony, Rent ganhou o prêmio Prêmio Pulitzer de Teatro.

E com todo esse sucesso não demorou muito para o musical ganhar o mundo! Além da Broadway e West End, como é de praxe, o musical fez uma turnê pelos Estados Unidos e Inglaterra, ganhou uma versão no Hollywood Bow e revivais na Broadway, off-Broadway e West End. Além disso o musical ganhou versões em mais de 40 países em no mínimo 20 idiomas diferentes, incluindo o Brasil. Aqui a primeira montagem aconteceu em 1999, e foi um dos responsáveis pelo revival do teatro musical no Brasil. Essa montagem contava com grandes nomes do nosso teatro como Alessandra Maestrini e Jarbas Homem de Melo. Essa montagem inclusive é bem fácil de se achar no YouTube. Já a segunda montagem ocorreu em 2017, e trazia a nova geração do teatro musical brasileiro com Thiago Machado, Myra Ruiz e Diego Montez no elenco. No início de 2020 foi montado em Manchester na Inglaterra um revival do musical. Segundo uma matéria que li Rent já não tem a força do início. O que acho injusto, pois esse é um espetáculo atemporal, que retrata uma época e uma vida de pessoas comuns como eu e você!

Rent: O Filme

Com tamanho sucesso era de se esperar que Rent se tornasse um filme mais cedo ou mais tarde, e foi o que aconteceu. Em 2005 foi lançado nos cinemas Rent: Os Boêmios, como ficou conhecido no Brasil. Para a direção foi escolhido Chris Columbus, que havia dirigido filmes como Esqueceram de Mim e Uma Babá Quase Perfeita. O roteiro foi escrito pelo até então desconhecido Stephen Chbosky, que escreveu e dirigiu As Vantagens de Ser Invisível. O elenco trouxe quase todos os membros do elenco original da Broadway: Anthony Rapp como Mark, Adam Pascal como Roger, Indina Menzel como Maureen, Jessy L. Martin como Tom Collins, Wilson Jermaine Heredia como Angel e Taye Diggs como Benny. As únicas que não voltaram ao seu papel original foram Daphne Rubin-Vega e Fredi Walker, elas foram substituídas por Rosario Dawson e Tracie Thoms vivendo Mimi e Joane respectivamente.

Um grande diretor, um elenco já afiado nos papéis, um roteirista talentoso trabalhando em cima de um texto excelente, sinal de sucesso, correto? Errado! Rent sequer conseguiu se pagar! O filme custou US$ 40 milhões e arrecadou um pouco mais US$ 31 milhões no mundo todo. E a crítica não foi nem um pouco bondosa com o filme, muito se criticou a direção sem coerência de Columbus, alguns criticaram até o figurino. Mas um consenso geral foi que:

Os fãs do musical de palco podem até perdoar Rent e suas falhas, mas a direção fraca, a inescapável estagnação e uma irritante pretensão de falsa boemia impedem o filme de se conectar com o público.

Consenso no Rotten Tomatoes

Resultado no Rotten o filme tem aprovação de 46% da crítica especializada e no Metacritc tem nota 53 de 100. Mas como acontece com muitos filmes, Rent é amado pelo público e tem ganhado status cult. Basta ver a aprovação do público nesses mesmos sites: no Rotten o filme tem 85% de aprovação do público e no Metacritc tem nota 7,3 em 10. Ou seja, odiado pela crítica, mas amado por quem realmente importa o público, Rent se tornou e tem se tornado cada vez mais amado pelos cinéfilos.

Rent

Para me preparar para esse texto, eu assisti a montagem nacional, a filmada na Broadway e ao filme. A verdade é que o filme me entregou tudo o que eu esperava. Minhas músicas favoritas estavam ali, meus personagens favoritos também. Talvez faltou dar um pouco de profundidade aos personagens, algumas questões poderiam ser mais bem exploradas no filme. Mas entendo que o objetivo era trazer para tela o que vemos no palco, e isso eles fizeram muito bem. Isso fica claro na cena da música La Vie Bohème, o número musical foi realizado com maestria, conseguiram transmitir para a cena a força que vemos no palco.

Mas uma das coisas que mais me emocionou foi a cena após La Vie Bohème quando temos as reprises de Seasons of Love e Will I?. Talvez esse seja, ou melhor é, o momento mais triste do musical, quando a Aids faz suas vítimas. A forma como Chris Columbus mostrou a perda, a morte, é de uma sensibilidade sem tamanho. Já o final do filme, por mais que seja o mesmo do musical, acho que não funciona no filme. Mas entendo que o objetivo era dar esperança. Em resumo, em minha opinião Rent é um bom filme que merece ser conferido, principalmente nessas épocas de trevas onde nós precisamos de mais amor e esperança!

Rent: O Legado
Rent

Não há como não reconhecer a importância de Rent para a cultura pop e para o teatro musical. Podemos dizer que quando o musical estreou ele salvou a Broadway que vinha em queda livre de bons musicais e espetáculos que fizesse a diferença. Com a estreia de Rent tudo mudou na Broadway, e o teatro musical ficou mais perto da nossa realidade. Afinal os personagens de Rent poderiam muito bem ser nossos vizinhos, nossos amigos, nossos parentes, nossos colegas. E isso faz o musical fazer tanto sucesso mesmo 25 anos depois.

Rent é um musical sobre sonhos, aceitação, luta e resistência. Mas acima de tudo uma musical sobre a vida. Angel, a personagem mais amada do musical, mostra que mesmo com AIDS é possível viver, é possível sonhar, é possível se divertir e é possível amar e ser amado.

E nesse dia em que lutamos contra a AIDS vamos lembrar sempre que a pessoa tem o vírus, a pessoa não é o vírus. Abraços e beijos como os que vemos Mark, Maureen e Joane darem em Angel, Mimi, Collins e Roger, não transmitem HIV. Rent me ensinou que não é porque alguém tem AIDS que serei infectado, não se afaste deles, pois é agora que eles mais precisam de você!

E para concluir deixo aqui a minha dica viva intensamente como Angel, corra atrás dos seus sonhos como Mark, lute como Maureen, estude como Joane, ame como Roger, se arrisque como Mimi e esteja aberto para o amor como Collins. Mas nunca, nunca mesmo se corrompa como Benny!

E pra concluir uso as palavras de Jonathan Larson:

O oposto de guerra não é paz… criação

Trecho da música La Vie Bohème B

Apesar da história nunca terminar. Vamos comemorar. Lembrar-se de um ano na vida de amigos. Lembre-se do amor. Meça sua vida em amor.

Trechos da música Seasons of Love

Nenhuma outra estrada, nenhum outro caminho. Há somente agora. Há somente aqui. Se entregue ao amor ou viva com medo. Nenhuma outra trilha, menhum outro caminho. Nenhum dia, a não ser hoje!

Trecho de Finale B

E viva La Vie Bohème!!!

Para Saber mais…

Rent ganhou uma versão para o cinema em 2005, uma filmada na Broadway em 2008 uma versão Live em 2019 filmada produzida pela Fox. A versão para o cinema e do teatro você encontra no Google Play Filmes ou no YouTube Filmes. Já a versão Live de 2019 não foi lançada “oficialmente” no Brasil. Também foram lançados dois documentários sobre o musical No Day But Today: The Story of Rent, dirigido por Jeffrey Schwarz, ele conta todo o processo de criação do musical. Ele foi lançado juntamente com o DVD do filme. Já o segundo é Revolution Rent, de Andy Señor, Jr. Esse documentário retrata a montagem do musical em Cuba no ano de 2014. Rent foi o primeiro musical americano a ser montado em solo cubano após a abertura de relação entre Estados Unidos e Cuba, e o documentário mostra esse processo.

Para dar um gosto de quero mais…

Versão de de Seasons of Love Filme
Versão de de Seasons of Love Teatro
Versão La Vie Bohème Filme
Versão La Vie Bohème Teatro
Versão One Song Glory Filme
Versão One Song Glory Teatro

Uma amostra do que foi a montagem de Rent no Brasil

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