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Crítica 2: O Charlatão – 44ª Mostra de São Paulo

O Charlatão - 44ª Mostra de Cinema de São Paulo

“O Charlatão” traz questões importantes, mas cai no esquematismo e na pulverização de discussões.

Ficha técnica:
Direção: Agnieszka Holland
Roteiro:  Marek Epstein
Nacionalidade e Lançamento: República Tcheca, Irlanda, Polônia, Eslováquia, 2020 (44ª Mostra de São Paulo)
Sinopse: Inspirado na história do herborista Jan Mikolasek, que dedicou a vida para cuidar de pessoas doentes, apesar dos imensos obstáculos que enfrentou nas esferas pública e privada. Nascido na virada do século 20, Mikolasek ganha fama e fortuna usando métodos de tratamento pouco ortodoxos para curar uma ampla gama de doenças. Renomado na Tchecoslováquia antes da Segunda Guerra Mundial, o curandeiro aumenta a reputação e a riqueza durante a ocupação nazista e sob o regime comunista. Um após o outro, cada um desses regimes se vale das habilidades de Mikolasek e em troca lhe dá proteção. Mas quão altos devem ser os custos para manter esse status quando as coisas mudarem?

Elenco: Ivan Trojan, Josef Trojan, Juraj Loj, Jaroslava Pokorná.

Jan Mikolasek foi um personagem real da história da então Tchecoslováquia. Por ser especialista em ervas e em observar a doença nas pessoas por meio da urina, era chamado por muitos de “charlatão”. Mas a obra da polonesa Agnieszka Holland não questiona isso para além do começo da obra e se preocupa em criticar o autoritarismo “dos dois lados” que passou pela região no mesmo período: a ocupação nazista e o regime soviético.

O pano de fundo político não evita que o filme trate do personagem como um homem bondoso e quase santo por sua obsessão de apenas “curar as pessoas” – como ele faz questão de repetir ao menos duas vezes ao longo do filme.  Dessa forma, o título “O Charlatão” chega a ser irônico dentro da proposta da cineasta.

As estratégias beiram o exagero e o piegas em muitos momentos. As mãos erguidas para cima, como se fossem tomadas por um dom divino (ainda que Mikolasek não fosse religioso) também se repetem, sem contar a postura rude e arrogante que ele carrega, especialmente nos primeiros minutos da trama, como se fosse para se passar por um “mestre a ser respeitado” – e se o objetivo de Holland era criar a dúvida no espectador, fez na verdade ele parecer inconsistente (especialmente se considerarmos um flashback que nos mostra o protagonista fazendo algo horrível, para depois o filme abandonar o assunto).

Em “O Charlatão”, o romance entre o protagonista e Frantisek Palko, seu ajudante, não nos permite compreender sua complexidade a ponto de justificar o drama que ocorre nos minutos finais. Além de não ser necessariamente real – já que a adaptação ao cinema se baseia apenas em “suposições” a respeito da sexualidade de Mikolasek – o relacionamento entre ambos é enfraquecido pelo fato de não compreendermos a figura de Palko.

Da mesma forma que não compreendemos como o personagem secundário realmente se sentia em relação ao patrão e amante, também não temos elementos – exceto por uma fala – para compreender sua confissão final. Aqui, ficaria mais interessante se o espectador já soubesse da informação e o filme construísse algum tipo de tensão nos momentos finais. Do contrário, torna-se uma informação jogada, com ares de “deus ex machina”.

Com isso, “O Charlatão” perde a oportunidade de se aprofundar nas complexidades do biografado para enobrecê-lo demais. Plantas medicinais podem oferecer tratamentos a muitas pessoas, mas duvido que olhar a urina de alguém permita chegar a alguma conclusão científica. Considerando que vivemos em tempos de descrença na ciência, o filme passa uma ideia que corrobora com a realização de práticas sem comprovação.

Por mais bem intencionado que o personagem-título tenha sido, fica difícil não imaginar que nos dias de hoje ele se tornaria um “coach” a utilizar justificativas pseudocientíficas para acumular riquezas.

  • Nota
1.5
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