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A Família Addams (2019)

A concepção visual criada por Charles Addams para seus personagens – que viriam a se tornar tão famosos em décadas diferentes, em contextos históricos distintos mas que, desprendendo-se desses impasses, sempre se manteve como potencial discursivo-cômico acerca da tão conhecida “american way of life” – é do tipo raro que fomenta qualidade desde sua essência.

Os integrantes da família provocam o riso não somente pelo absurdo, mas – e esse ponto considero crucial para o resgate do potencial da, hoje, marca “Família Adams” – principalmente pela naturalidade que a família reage diante dos absurdos, os quais fazem completo sentido dentro da particularidade da família. Essa palavra desperta conjunto, proximidade e uniformidade, ao passo que a sociedade norte-americana coleciona direcionamentos ao longo de sua história em estabelecer justamente uma caracterização padronizada, cujas probabilidades são ameaçadas artisticamente por qualquer canto que soe rebeldia. Imagina uma família com tendência ao gótico que, por si, agrupa valores sombrios, excludentes e melancólicos.

O potencial, creio, fora desmistificado na introdução desse texto, ainda que precise acrescentar o detalhe que me desperta atenção toda forma de choque com a obviedade, algo que percebo que seja intrínseco à concepção artística e desenvolvimento da Família Adams não apenas nessa animação, mas na ideia em suma. Não à toa esse arquétipo inspirou e inspirará diversas outras histórias como o desenho animado “Foster’s Home for Imaginary Friends” ou até mesmo “Miss Peregrine’s Home for Peculiar Children”.

Dito isso, observo que a nova animação possui seus méritos enraizados no arquétipo, ainda que seu desenvolvimento não seja condizente com o potencial da marca, com citei anteriormente. O roteiro faz o recorrente: pega uma estética (no caso personagens) nostálgicos e, para conquistar sucesso com o público infantil e, notoriamente, aumentar a bilheteria, projeta a história em um contexto social contemporâneo. A premissa é ótima e rende cenas tanto engraçadas como tomadas por uma criticidade social inteligente – destaco momentos como a que Vandinha fala que vai “quebrar o sistema” em uma escola do fundamental e que tanto faz o filtro no Instagram “pois fica preto e branco em todas”, em uma clara referência ao seu estado psicológico em contraste com a plastificação colorida do seu redor.

A feliz ambientalização para assimilação do público infantil soa como algo oportuno e extremamente recorrente, ao passo que a indecisão entre roteiro e direção não. As boas e críticas cenas são aleatórias e intercaladas com cenas que se aproximam muito de obras como “Hotel Transilvânia” que, longe de se tratar de um filme ruim, se destaca muito mais ao seguir com o seu perfil até a conclusão. “A Família Adams” (2019) desperta a sensação de estar indeciso, em relação às piadas e desenvolvimento de personagens-símbolos, criando excelentes cenas isoladas.

É preciso ainda destacar a inteligente utilização das músicas – não somente o tema original que por si só se trata de uma obra imortal e contagiante, inclusive as crianças na minha sessão estalavam o dedo com uma animosidade contagiante – mas as canções envoltas de comicidade macabra, por vezes, oras sentimentalistas propositalmente.

O design da mansão Adams é competente na sensação de conforto, ainda que seja baseado na excentricidade – contando com um demônio que tenta expulsar a família aos gritos constantemente – e sua estética fica ainda mais atrativa levando em conta a cidade “feliz”, plastificada e cor-de-rosa ao lado, diferença que pontua a história, desperta casos e encontros que, em geral, não funcionam na maioria dos momentos. Talvez o potencial, que conhecemos tão bem, desses personagens só faça ressaltar aos olhos o quão melhor poderia ser se não fosse a visível indecisão criativa.

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