Crítica: A Vida Invisível – 43ª Mostra de São Paulo - Cinem(ação)
A Vida Invisível - filme de Karim Aïnouz - Carol Duarte e Julia Stockler

Crítica: A Vida Invisível – 43ª Mostra de São Paulo

A Vida Invisível é uma trajetória de vida de duas personagens, capaz de arrancar lágrimas dos mais embrutecidos.

A Vida Invisível teve apenas uma exibição na 43ª Mostra de São Paulo e chega aos cinemas de todo o país dia 21 de novembro.

Ficha técnica:
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Karim Aïnouz, Inés Bortagaray, Murilo Hauser (baseado no romance de Martha Batalha)
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 21 de novembro de 2019 (20 de Maio no Festival de Cannes, 19 de setembro apenas no Ceará)
Sinopse: Eurídice e Guida são duas irmãs inseparáveis ​​que cresceram em uma família conservadora. Cada uma nutre um sonho: Eurídice quer se tornar uma renomada pianista, enquanto Guida deseja encontrar o amor verdadeiro. Em uma virada dramática, elas são separadas pelo pai e forçadas a viver distantes. As irmãs, então, assumem o controle de seus destinos, sem nunca perderem a esperança de se encontrar novamente.

Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, Fernanda Montenegro, Barbara Santos, Gregório Duvivier, Antônio Fonseca.

As primeiras imagens de “A Vida Invisível” são plantas. Folhas verdes no jardim recebendo os respingos da chuva. Depois, ao longo de todo o filme, as plantas estão sempre presentes: na sacada do apartamento, nas paredes, ao redor das casas. Porque no fim das contas as protagonistas Eurídice e Guida, irmãs que se separam ainda na juventude, são um pouco como as plantas: invisíveis. Foram criadas para serem apenas ornamentos aos seus homens.

Eurídice e Guida têm sonhos e desejos. Apaixonam-se, cada uma a seu modo. Mas são mulheres em um Rio de Janeiro conservador da década de 1950. A sociedade exige que se casem e assim permaneçam: uma sombra na vida dos maridos, tal qual a mãe havia sido.

Guida opta por ir à Grécia com o marinheiro por quem se apaixonou. Ele aparece em meio a luzes vermelhas, que simbolizam o perigo. Apaixonada, ela não percebe. Quando volta, é considerada uma pessoa inaceitável por seu pai, que a proíbe de entrar na casa. Como mulheres que se apoiam, Eurídice e Guida se precisam. Mas os homens as impedem de se ver. Proíbem, castram, mentem. Exigem que o pai de uma criança assine um documento, mesmo que este pai não exista.

Cada uma delas encontra apoio em outra mulher. Eurídice conta com a prima, Guida conhece uma grande amiga. Vivem as vidas dolorosas das mulheres de seu tempo – e que não são muito diferentes de tantas mulheres de tantos outros tempos, inclusive os de hoje.

Karim Aïnouz, criado por mulheres, estuda as vidas delas e aborda o feminino em seus filmes, como O Céu de Suely, O Abismo Prateado e seu primeiro curta, Seams, no qual fala sobre sua mãe e outras mulheres de sua terra. Até quando retrata o masculino, Karim fala do feminino que há (ou deveria haver) em cada um deles, tanto em Madame Satã quanto em Praia do Futuro. Sua reflexão sobre o sofrimento feminino passa, obviamente, pelo repensar sobre o papel masculino. É aí que estão os personagens de António Fonseca e Gregório Duvivier, nunca preocupados verdadeiramente com as mulheres. Até na hora de brincar com a filha pequena, o pai finge enforcá-la. Do lado oposto, o menino criado apenas pela mãe dança livremente pela casa, sem que alguém o impeça de fazer algo que um pai possivelmente consideraria “impróprio”.

A trama de “A Vida Invisível” segue um longo período sem transparecer de forma dura o seu caráter episódico. Vemos as transformações nas personagens e a forma como elas seguem vivendo com determinação a despeito de tudo o que lhes acontece. O brinco, símbolo da feminilidade, sempre esperando a chegada do par que o complete. As cartas escritas ao longo do tempo vão sendo narradas e completam a tessitura da trama, dando elementos de épico e até mesmo de melodramático, nunca separados da sensibilidade de Karim.

Ao longo de duas horas, “A Vida Invisível” passeia pela trajetória de suas protagonistas com tudo corroborando para sensibilizar o espectador: a trilha sonora grandiosa; as cores intensas que ao mesmo tempo não evocam muita alegria; e a direção de arte, que dá a este Rio de Janeiro um clima mais sujo e desgastado, que parece exalar cheiro de cigarro e de madeira velha das casas. A tacada final, capaz de amolecer os corações mais gelados, é praticamente uma referência ao próprio cinema nacional: Fernanda Montenegro lendo cartas (em Central do Brasil, ela escrevia).

Junto com as lágrimas, vem o sentimento amargo de um futuro desperdiçado e uma vida invisível. Sentimento este que só não é maior do que o doce sabor do afeto, presente em todo o longa, mas que ao final transborda. É o afeto, que tanto falta no homens, que ainda há de evitar que existam mais Eurídices e Guidas.

  • Nota
5

Summary

“A Vida Invisível” passeia pela trajetória de suas protagonistas com tudo corroborando para sensibilizar o espectador: a trilha sonora grandiosa; as cores intensas que ao mesmo tempo não evocam muita alegria. A tacada final é capaz de amolecer os corações mais gelados.

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