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Crítica: Bacurau

Bacurau é metáfora de um país violento e elitista.

Ficha técnica
Direção: Kléber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Roteiro: Kléber Mendonça Filho, Juliano Dornelles
Nacionalidade e Lançamento: Brasil, 29 de agosto de 2019
Sinopse: Após perder Carmelita, sua matriarca, a pequena cidade de Bacurau passa a sofrer com ataques estranhos e parece ter sumido do mapa. Isso tudo acontece em algum futuro próximo.

“Não confunda a reação do oprimido com a violência do opressor”.

A frase, cujo autor não encontrei, foi pichada em um muro e provavelmente tem raízes nos dizeres de Malcolm X. Ela também pode ser relacionada ao cangaço, que dificilmente teria surgido se não fosse a pobreza e miséria a assolar o sertão nordestino, mesma terra onde Antônio Conselheiro liderou a resistência armada que culminou na Guerra de Canudos.

O que isso tem a ver com Bacurau?

Tudo.

A história se passa em um futuro não muito distante. No imaginário do espectador do cinema nacional, poderia se passar no mesmo período de Divino Amor. Enquanto a teocracia toma conta do outro filme, aqui a violência transborda.

Na cidade de Bacurau, que sequer pode ser encontrada no mapa, coisas estranhas acontecem. A violência faz parte do cotidiano, por isso tantos caixões. Mas eis que surgem alguns visitantes estranhos capazes de trazer mais violência. Enquanto isso, acompanhamos diversos personagens, moradores da pequena cidade, com suas nuances e motivações.

A câmera dos diretores Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles chacoalha em alguns momentos, passeia mais calmamente em outros, e flagra uma espécie de futuro distópico com ares de terror, momentos de gore e um clima de tensão e suspense que já se tornou marca de Kleber Mendonça Filho.

Aliás, se o cineasta sempre comentou as relações de poder na sociedade por meio de seus filmes, com destaque para O Som ao Redor e Aquarius, aqui ele vai a um patamar acima: o comentário chega à fala dos atores de forma quase sorrateira. Os personagens que falam inglês dizem o que buscam, os brasileiros deixam claro que não são de lá. “Você matou um dos seus”, responde o outro. Agora, as relações de poder atingiram uma violência sanguinolenta, como reflexo da nossa atual realidade.

Ao mesmo tempo em que Bacurau é um filme que tece diversos comentários por meio dos acontecimentos em um microcosmo que representa o Brasil, o filme também não diz “a que veio” logo de cara. Em seu tempo, ele desvenda os elementos que fazem parte da trama e revela pouco a pouco o que motiva os personagens. E ainda traz imagens com metáforas riquíssimas: os caixões quebrados, a boca de um animal morto e um corte seco para uma cruz, a mão do estrangeiro machucada pelo espinho desta terra.

Em alguns momentos, Bacurau lembra Mad Max. Mas aqui o personagem principal a defender a terra e a liberdade não é apenas um lobo solitário: é toda a gente. Que se rebela, que resiste. Que precisa de alguma droga que turve a vista e permita conviver com tamanha violência. Que retorna às suas origens do cangaço para combater o poder estrangeiro que desumaniza e mata.

Afinal, quem nasce em Bacurau é gente.

  • Nota
5

Summary

Bacurau é metáfora de um país violento e elitista. Em seu tempo, ele desvenda os elementos que fazem parte da trama.

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