O filme “Marighella” e o medo da censura - Cinem(ação)

O filme “Marighella” e o medo da censura

Foi com uma certa estranheza que eu vi, há alguns dias, em uma campanha com a hashtag #EuQueroAssistirMarighella, que a Paris Filmes estaria com receio de lançar o filme “Marighella” nos cinemas devido à possibilidade de ações violentas contrárias a ele.

Desde a sua produção, o filme dirigido por Wagner Moura vem recebendo ameaças e duras críticas daqueles que discordam da ideologia que Marighella representa. Recentemente, no entanto, o próprio Wagner Moura declarou que tinha receio se a distribuidora lançaria o filme nos cinemas. Ao mesmo tempo, o escritor Mário Magalhães, autor do livro no qual o filme se inspirou, questionou se a distribuidora não estaria se rendendo a algum tipo de “censura”.

Diante disso, não demorou para que muita gente engajasse em uma campanha nas redes sociais. Todos tentando pressionar a distribuidora a lançar o filme.

Antes de analisar um pouco mais a situação, já dou um spoiler: foi anunciado hoje que o filme será lançado no dia 20 de novembro no circuito comercial no Brasil. Será uma quarta-feira, pleno Dia da Consciência Negra, o que é significativo.

Marighella

A censura que não é censura mas meio que é censura

Quis tentar entender melhor tudo o que estava acontecendo. Descobri que tudo se resume a uma única palavra: medo.

Nesta matéria do site da Revista Monet, por exemplo,  podemos ver que até mesmo o diretor Wagner Moura está com medo de pisar no Brasil, após o período em que viaja para divulgar o filme e exibi-lo em festivais.

Não encontrei absolutamente nenhuma evidência de que alguma instituição estaria procurando impedir o lançamento de Marighella nos cinemas. Tudo o que há, no fim das contas, é medo.

Medo por parte da distribuidora (embora não tenham confirmado isso) de lançar o filme diante de tanta gente contrária reagindo com violência. Medo por parte dos defensores do filme, de que a Paris Filmes não faça o lançamento. Por parte do diretor, medo de que o longa não seja lançado e medo até mesmo de voltar ao país.

Se ninguém proíbe nada, tecnicamente não há censura. No entanto, gerar medo é um modo de fazer censura (e aqui cito Gabriel o Pensador, quase involuntariamente). Assim como na época em que uma exibição do “Queermuseu” foi cancelada após manifestações contrárias, há quase dois anos; hoje sabemos que não há qualquer tipo de necessidade de censurar algo oficialmente: alguns grupos tratam de fazer isso por conta própria.

É compreensível que haja medo por parte de tantos, especialmente porque há violência (ou pelo menos ameaças pesadas) por parte de muita gente, além de integrantes do alto escalão do governo que, quando não corroboram diretamente com essa violência, ao menos se colocam ao lado destas pessoas. Quando isso acontece, o ato de produzir um filme lançá-lo nos cinemas é uma forma de resistência. Afinal de contas, ninguém é obrigado a ver um filme, e ninguém é obrigado a concordar com as ideias de alguém. Mas para que continuemos em uma sociedade democrática, precisamos aprender a conviver com o diferente – e sem violência.

Caso contrário, poderão ser abertas brechas no estado democrático de direito. E quando isso acontece, legitima-se a violência por parte de quem luta para que todos sejam livres… algo que foi justamente o que fez Marighella.

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