A Metalinguagem de "Vingadores: Ultimato" | Cinem(ação)
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A Metalinguagem de “Vingadores: Ultimato”

Agora que já passou toda aquela empolgação com o lançamento avassalador de “Vingadores: Ultimato” e as ideias sobre o filme foram assentando em minha cabeça, finalmente decidi escrever sobre a obra depois de uma grande pressão social (Jéssica, estou falando de você). Mas diferente do que havia planejado, evitarei o formato tradicional da crítica do filme e me focarei em um elemento muito específico da obra – a Metalinguagem.

Apenas para contextualizar, metalinguagem é a linguagem quando se auto referencia. É quando um livro fala dele próprio ou um filme fala sobre o cinema em si. Usando como exemplo um filme “Marvel”, metalinguagem é quando Deadpool quebra a quarta parede e conversa diretamente com o público. Ou quando o mesmo expõe ao espectador que tudo visto em tela se trata de um filme. Há diversas maneiras de se utilizar da metalinguagem e caso haja interesse em se aprofundar no tema, eu produzi um vídeo mais detalhado sobre o assunto. Você pode conferir clicando aqui.

Voltando a “Vingadores: Ultimato”, para entendermos a metalinguagem do filme, precisamos entender que essa obra é um conjunto de outros filmes que são partes de uma obra maior. Ultimato é a última peça de um quadro com outras 21 peças que vinham sendo postas na moldura desde “Homem de Ferro” de 2008. Porém, para que houvesse harmônia ao encaixar esta última peça, os produtores, roteiristas e diretores teriam que olhar o quadro de cima para identificar que imagem tudo aquilo estava formando e onde essa peça se encaixaria. E eles realmente o fizeram. Não só fizeram como expuseram para nós como isso foi feito e é agora que entramos de vez na metalinguagem.

Algumas obras, principalmente séries para TV, se valem do famoso “previously on…” (no episódio anterior…) para resgatar eventos do passado e situar o espectador de onde os personagens sugiram e onde chegaram na história. Este recurso em uma série pode até funcionar (ainda que eu não goste muito) mas a solução encontrada pelos roteiristas Stephen McFeely e Christopher Markus foi algo bem mais complexo – viagem no tempo.

Narrativamente a viagem no tempo é uma solução até simples para reverter as ações de Thanos no filme anterior. Aliás, nem precisaria todas aquelas viagens já que utilizando a joia do tempo muito do ocorrido poderia ser desfeita, mas isso é outro assunto. A viagem no tempo não apenas é um recurso narrativo como também é metalinguístico. Quando os personagens viajam no tempo e resgatam cenas de filmes anteriores, eles fazem o mesmo que o roteiristas fizeram ao revisitar as obras e juntar as peças. Dá mesma forma, o parte do público fez o mesmo exercício de revisitar as obras anteriores para ampliar a expectativa com essa conclusão. “Vingadores: Ultimato” não apenas menciona o filme dentro do filme, como narrativamente o insere dentro de uma história maior.

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Os Vingadores (2012) em cena revisitada durante “Vingadores: Ultimato”

Outras franquias também fizeram filmes que fazem parte de um universo maior e que em algum momento se entrelaçam entre si. Porém, a escala de grandeza que a Marvel Studios alcançou é algo inédito. Pode-se questionar a qualidade de muitos desses filmes, mas a forma como eles foram concebidos e trabalhados dentro de uma industria tão complicada como o cinema, é algo que merece respeito. São 22 filmes ao longo de 11 anos culminando em uma obra que junta tudo com muita competência.

Mas podemos explorar mais dessa linguagem dentro do filme. Desta vez, o comentário é menos relevante para a trama, porém resgata uma preocupação que muitos tinham em relação à alguns filmes com menos apelo de público como “Homem-Formiga” e “Guardiões da Galáxia” mas que parece que a Marvel Studios estava bem ciente do alcance de esses filmes tinham. Na cena onde algumas crianças pedem para tirar fotos com Hulk, Scott Lang (Homem-Formiga) pergunta se elas o conhecem, no que Bruce Banner tenta remediar ao perceber que Scott era quase um desconhecido de muitos. Esse comentário conversa com a realidade de que “Homem Formiga” é um personagem desconhecido da maioria do público, o que não impediu que a Marvel Studios investisse no personagem. Para a Marvel não existe personagem que não possa ser utilizado e que não reverta isso em sucesso. Aquelas crianças podem até não conhecer o Homem-Formiga, mas elas serão convencidas de que é um herói que vale a fotografia.

Outro momento metalinguístico está nas cenas finais do filme onde há algumas “passagens de bastões” que podem parecer apenas um aceno do que virá pela frente, mas podemos entender como um comentário da própria franquia pela falta de diversidade em seu universo. Quando Thor cede o Trono para Valquíria, uma mulher negra, é uma resposta às críticas que o estúdio vem recebendo durante toda sua existência. Assim como quando Steve Rodgers cede seu escudo para Sam Wilson. Não são apenas personagens ganhando espaço. São atores e atrizes que foram relegados a papeis menores ganhando protagonismo. Hoje, além de “Pantera Negra”, a Marvel Studios acena para um futuro mais diverso, dando oportunidades para outros atores e atrizes ganharem espaço na franquia.

Isso que “Vingadores: Ultimato” fez não é um segredo ou uma novidade. Utilizar a metalinguagem para discutir a própria arte é recorrente e vai desde a bobagem juvenil de “Shazam” até o reflexivo e contestador “Holy Motors”. O que a Marvel Studios fará com os Vingadores daqui para frente é uma incógnita, mas é certo que há muito o que se explorar, questionar e amadurecer nessas histórias. O material para isso o estúdio tem. Capacidade para fazer também. Veremos se terão criatividade para sustentar um universo tão grande.

Aguardemos!

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