A Vida em Si (Dan Fogelman, 2018) - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

A Vida em Si (Dan Fogelman, 2018)

Com um elenco excepcional enquanto analisado individualmente mas fraco no conjunto, essa desconexão é o maior problema do diretor e roteirista Dan Fogelman, que cria uma obra mais grandiosa do que se revela, dando contornos gigantescos para parar em um ponto não tão excepcional assim, apesar de belo na sua mensagem. A Vida em Si (2018) é profundamente interessante, ainda que se revele raso gradativamente.

Oscar Isaac, Olivia Wilde, Annete Bening e Antonio Banderas, esses são alguns nomes de peso que estrelam A Vida em Si (2018), mas tirando suas qualidades e total entrega aos papeis – às vezes até correspondendo mais do que o texto superficial – quem quer chamar toda atenção para si é mesmo o diretor e roteirista Dan Fogelman. Não que ele não tenha capacidade para isso, pelo contrário, como já visto em outros trabalhos, como no roteiro de Amor a Toda Prova (2011) ou na série This Is Us (2016) se trata de um bom escritor, no entanto aqui existe inúmeras curvas no roteiro que só plastificam conceitos simples.

O longa possui muitas coisas positivas: a brincadeira com a metalinguagem, as idas e vindas – algumas precisas e outras descartáveis – e a divisão de capítulos e personagens de modo que se estrelassem – mas nem todos recebem a atenção proporcional ao desenvolvimento complexo em tempo limitado, o que faz com que a resolução não seja efetiva como pretende ser. É fácil constatar que todos os pontos positivos trazem consigo uma ruptura, como se fosse um exercício de foco que depois nos decepciona com a falta de praticidade, é muito drama e história para arcos desenvolvidos sem o devido tempo. Se não houvesse a preocupação de conectar essas histórias, provavelmente renderia três ótimos curtas-metragens, mas a pretensão é real e o filme falha incrivelmente justamente nessa exata curva no segundo ato onde tudo que está sendo mostrado se unifica em uma só história que tenta refletir conceitos de família, tempo e consequências.

As referências a Bob Dylan são incríveis, não só pela magnitude do artista mas pelo uso do álbum de retomada Time out of Mind, mais especificamente a música “make you feel my love” que representam um estágio de renascimento na vida do cantor. Aliás, essa canção agridoce certamente serviu como referência para o roteiro, casa perfeitamente com o começo, meio e fim dessa obra que questiona o amor que clama por ser sentido, no pequeno grandioso gesto de um abraço caloroso, nem que ele represente “deixar ir”.

A história contada em vários tempos soa como a vida, a impressão geral é que o arco dramático do primeiro ato, que envolve as personagens Will Dempsey (Oscar Isaac) e Abby Dempsey (Olivia Wilde) desperta tanto atenção e tem o desenvolvimento tão certeiro no que diz respeito às consequências, ritmo e como a realidade é suspensa em meio ao onírico provocado pela dor da perda, que quando há o próximo capítulo, em uma transição que soa brusca dada o abismo de qualidade entre um e outro, perdemos a conexão com a história porque todos os personagens que aparecerão a partir desse ponto não têm atenção, carinho e sincronia como o casal do primeiro ato, vivido por dois maravilhosos atores em momentos estupendos da carreira.

É de uma sensibilidade impar o momento que vemos um encontro entre Will e Abby, onde ele deixa transparecer o seu perfil sincero e intenso ao afirmar que está esperando “o momento certo de convidá-la para sair, pois será para sempre” e como tempos depois Abby revida essa mesma intensidade afirmando que “não está preparada para ser amada nessa intensidade”. É de uma riqueza estranhamente pura, essa conexão se dá de modo dinâmico, envolvente e traz justamente o que a ideia do título e a tese explicada ao longo traz: a vida como um narrador que conduz de forma não linear. Onde pode-se ter tudo e não se achar no direito de ter, quase um confronto inocente de sensações.

Enquanto Will narra os eventos da sua vida, ele cria e modifica a realidade. O fascínio de suas observações podem ser só suas, pois ele comunica e memoria sua história. É contrastante a forma como Bob Dylan é discutido entre o casal e depois a filha cantando uma versão punk da música, como se uma obra de arte fosse se despedaçando através do tempo e que o espaço não mais servisse ao propósito do amor.

Depois do primeiro ato retomamos à introdução dessa crítica, no sentido de querer relacionar com essa brilhante história inicial. Há pontuais momentos belíssimos e que fazem alusão à mensagem principal, todas elas implícitas e lindas pela delicadeza simples, como um trabalhador que prefere colher azeitonas com as mãos para não feri-las, mas quando o roteiro começa a plastificar o óbvio, atinge o patamar de potencial dramático desperdiçado justamente pela sua proporção exagerada. A vida em si não é um narrador confiável e quando se há pretensão de ser, tudo vira borracha. É a mensagem do filme que o próprio roteirista comete em momentos importantes.





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