Black Mirror: Bandersnatch e o futuro do entretenimento
Bandersnatch

Black Mirror: Bandersnatch e o futuro do entretenimento

Black Mirror: Bandersnatch inovou e criou um precedente para o futuro. Será?

Interatividade, essa é uma palavra cada vez mais presente no nosso mundo, ainda mais no mundo do entretenimento. Não é de hoje que podemos opinar em finais e em decisões “importantes”. Desde a década de 90 temos a interatividade a nosso dispor.

Por exemplo, quem não se lembra do Disk MTV? Ali assistíamos os videos mais votados por nós. Ainda em 1995 a MTV fez a versão tupiniquim do VMA (Video Music Awards), o VMB (Video Music Brasil), onde votávamos para nossos artistas favoritos serem premiados por seus clipes. Ainda na década de 90, em 1992 para ser mais exato, começamos a decidir o futuro de várias histórias no programa Você Decide, da Rede Globo. Esse foi um programa até então revolucionário para o Brasil, porque agora assistíamos histórias e “podíamos decidir” o desfecho delas. Ainda na Rede Globo na década de 90 tivemos a criação do Intercine, onde “escolhíamos” o filme que passaria no dia seguinte. E como esquecer as únicas vezes que o brasileiro votou certo? Sim, como esquecer a escolha de Sheila Carvalho como a morena do Tchan e Sheila Melo como a loira do Tchan no Domingão do Faustão? Também de forma interativa através do telefone e do voto popular. Além desses exemplos temos vários outros exemplos de interatividade na TV Brasileira e Mundial. Mas todas elas têm algo em comum: você não tinha o poder total, afinal se o seu escolhido não fosse o mais votado, você nunca teria sua vontade satisfeita. Mas isso mudou, graças a Netflix, Charlie Brooker e Bandersnatch.

No último dia 28 de dezembro a Netflix lançou Black Mirror: Bandersnatch, o primeiro filme interativo, me corrijam se eu estiver errado, da história do cinema ou TV. No filme, ou episódio, como você preferir, vemos uma história, que diferente de todas as outras de Black Mirror, se passa no passado, em 1984. Ali Stefan (Fion Whitehead), um programador de jogos, começa adaptar um livro de fantasia interativo chamado Bandersnatch para videogame. Enquanto faz isso Stefan começa a questionar o que é realidade e ficção, entrando em um desafio alucinante que trará consequências diferentes a cada decisão tomada.

Decisões essas tomadas pelo próprio espectador. Ou seja, em Black Mirror: Bandersnatch você não precisa torcer pela sua escolha, ela irá acontecer de qualquer forma. E é aí que entra a genialidade desse filme. Porque a partir de uma escolha você pode chegar a finais variados. Este que vos escreve conseguiu chegar 10 finais diferentes, e ainda existem possibilidades das quais eu ainda não tive tempo de explorar.

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Como muitos sites já escreveram, o episódio tem suas falhas. Se preocupou muito mais com a inovação do que com o roteiro. Mas cumpre muito bem seu objetivo: te dar uma experiência diferente a cada decisão tomada. Embora em Bandersnatch, praticamente todas as decisões lhe darão o “mesmo final”, com variações de acordo com a suas escolhas, a experiência ainda sim é única. E se você tentar ver todas as possibilidades em uma sentada só, você “perderá” 5 horas da sua vida.

Mas esse texto não é uma crítica do filme, e sim uma discussão, uma reflexão de onde podemos chegar após esse “evento de Black Mirror”, como os próprios produtores chamaram esse episódio. Mas mesmo assim, vale ressaltar a parte técnica. A edição é muito bem feita, e cada decisão que é tomada soa natural, não há cortes secos ou sobreposições mau feitas que daria um ar artificial ao filme. Outra coisa a se destacar é a fotografia que intercala tons que identificam passado, presente, futuro, sonho e realidade. Essa mudança na paleta de cores além de identificar onde estamos e o que está acontecendo, provoca em nós as sensações necessária que o momento quer passar. A verdade é que Black Mirror: Bandersnatch, é melhor do que todos os episódios da última temporada de Black Mirror.

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Mas vamos ao que interessa. É fato que parece que Hollywood – quando falo Hollywood estou incluindo filmes e séries – está perdendo a criatividade. Nunca antes houve um número tão grandes de remakes, reboots, revivals, adaptações e repetições de histórias de formas diferentes. Por isso quando aparecem coisas inovadoras como Black Mirror, em especial Bandersnatch, a nossa esperança é renovada. Afinal Charlie Brooker, o criador de Black Mirror, tem inovado e se reinventado. Parece que sua mente não tem limite, e quando parece que sua criatividade chegoua fim, o que muitos falaram ao assistir a 4ª temporada de Black Mirror, ele nos surpreende mais uma vez. E é isso que ele faz em Bandersnatch. Ele cria uma experiência única! Uma nova forma de assistir séries. E fala sério, quantas vezes você não quis mudar os rumos de uma série ou de um filme? Mesmo que fosse apenas para ver o que aconteceria em outra realidade.

Imagine se Neo de Matrix tivesse tomado a pílula azul ao invés da vermelha? O que teria acontecido? Será que teríamos outro escolhido? Será que o Agente Smith teria recrutado o Neo e o escolhido estaria do lado dos agentes? E se Jack Dawson tivesse perdido o jogo de pôker no início de Titanic? O que seria de Rose? Teria ela se matado? E se ela tivesse se matado o que aconteceria? E se Jack tivesse subido na porta e sobrevivesse? E se conseguíssemos mudar o final de How I Meet Your Mother e não matar Tracy McConnell e fazer o Ted terminar com ela ao invés da Robin? E se você conseguisse salvar Marissa de The OC e salvar a 4ª temporada, e quem sabe até o final da série? E se conseguíssemos escolher entre as decisões de Zack Snider ou Joss Whedon enquanto assistimos Liga da Justiça? As possibilidades de escolhas, se tornaria experiência diferente a cada vez que assistíssemos nossos filmes e nossas séries favoritas. A forma de assistir e se divertir mudaria completamente.

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A verdade é que Bandersnatch abriu um precedente que pode mudar completamente a forma de nos divertir e assistir a filmes. Mas será que isso realmente pode acontecer? Mudar a forma de assistir filmes no cinema é quase impossível, afinal são às vezes centenas de pessoas em uma mesma sala. Mas ainda sim a interatividade poderia chegar até lá, igual acontecia nos exemplos citados no início desse artigo, mas acho difícil. Ou seja, essa opção de interatividade seria algo que estaria disponível apenas para plataformas de streaming como Netflix, Amazon Prime, Looke, Crakle, entre outros. Black Mirror foi a pioneira, agora podemos esperar uma série de outras obras interativas, entre filmes e séries.

Mas será que esse é o futuro? Obras interativas em que nós mesmos “criamos as histórias” e o destino de nossos personagens? Seria esse o fim da “falta de criatividade” de Hollywood? É ainda é muito cedo para dizer se isso irá revolucionar a forma de assistir e nos divertir, mas é o primeiro passo para uma mudança. Essa experiência deu certo, e novas experiências serão realizadas. Algumas darão certo outras não, mas conforme forem sendo feitas, irão se aperfeiçoando. E nós iremos querer mais!

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O ser humano é fascinado por novidades, e quer sempre explorar todas as possibilidades de algo. Ou vai dizer que ao assistir Bandersnatch, você não quis explorar todas as possibilidades possíveis de uma só vez? Pois eu sim. E sinceramente quero mais dessa experiência. E isso pode fazer com que a forma de assistirmos as coisas mudem. Passaremos a migrar da TV e do cinema para o streaming, afinal na TV e no cinema não temos essa liberdade de escolha. E aí vem aquela pergunta, que inclusive já foi tema de um podcast da casa: A Netflix vai matar o cinema? Afinal de contas quem de nós não gostaria de “controlar totalmente” nossos personagens favoritos? Ou então lhes dar um desfecho diferente? Ou ainda explorar outras possibilidades da nossa série favorita ou filme favorito? Tudo isso seria possível com a interatividade dos filmes e séries!

Mas ao mesmo tempo com o sucesso de Bandesnatch, o número de produções iguais irão aumentar, e as chances de o mercado ficar saturado serão imensas. Pode ocorrer igual aconteceu com o 3D. Depois que o James Cameron fez um estrago nas bilheterias com Avatar, começaram a fazer tudo uma desculpa para fazer um filme em 3D. Até Velozes e Furiosos 7 foi feita uma versão em 3D. Com isso o mercado ficou saturado, e hoje as pessoas fogem do 3D, porque além de não ter muita diferença na maioria dos filmes, o valor do ingresso não vale a pena. Ou seja, se não tomar cuidado, o que hoje é inovação, é novidade, é genial, amanhã será ultrapassado, chato e já terá enchido o saco. Como tudo que existe em excesso. Infelizmente o ser humano é egoísta e ambicioso, o resultado seria uma enxurrada de produções sem sentido só para ganhar views e dinheiro.

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A verdade é que obras como Bandersnatch são o futuro do entretenimento. Quanto mais avançamos na linha do tempo, mais interativas as coisas ficarão, e isso inclui nossas diversões e entretenimentos. E com isso mais presos as tecnologias nós ficaremos. O que significa que mais próximos do universo de Black Mirror ficaremos. O que é realmente assustador!

Essa situação ocorrerá mais cedo ou mais tarde, podem aguardar, afinal já é possível ver situações em que famílias se comunicam apenas por Whatsapp mesmo todos estando dentro de casa. Cada dia estamos mais presos ainda ao “espelho negro”. O lançamento de Black Mirror: Bandersnatch abriu um precedente que será copiado e refeito. E em breve assistir a filmes e séries interativos será tão comum quanto assinar Netflix ou ir ao Cinema.

E quem sabe abrindo esse precedente a crise de criatividade de Hollywood melhore e tenhamos mais histórias originais! Ou não! Já imaginou lançarem a versão interativa de clássicos como E o Vento Levou ou O Poderoso Chefão? Já pensou você escolher se Ashley se casa com Scarllet ou com Melanie logo no começo do filme? Ou escolher se Sonny Corleone morto ou não? O que aconteceria com esses clássicos? Já pensou escolher se Ilza vai embora com Victor para América ou fica com Rick no Marrocos em Casablanca? Bem, quem sabe ao fazerem isso, não criem versões interativas de filmes como Liga da Justiça, e aí sim teremos um filme digno da Liga. Brincadeiras a parte esse é o nosso futuro: escolher o que acontecerá nas séries e filmes! Que tal começar agora?

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