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As mudanças no Oscar – e possíveis soluções

A essa altura, você já deve estar sabendo das novas medidas tomadas pelos organizadores do Oscar. As mudanças na premiação, que visam torná-la mais popular, incluem uma nova categoria e prêmios dados no intervalo. O problema é o efeito que isso pode causar.

 

Segundo um artigo de Kristopher Tapley, na Variety, a audiência do Oscar 2018 foi de 26,5 milhões de pessoas nos Estados Unidos, o que significa uma queda de 20% em relação a 2017. Mesmo assim, a premiação continua sendo muito maior do que as premiações Emmy, Grammy e Tony – premiações equivalentes da TV, música e teatro respectivamente. Mesmo assim, a Academia de Hollywood parece estar muito preocupada, e anunciou mudanças importantes que passarão a vigorar já no Oscar 2019.

possíveis soluções

As mudanças e meus comentários sobre ela:

 

3 horas: nada mais e nada menos

A primeira mudança  é a da redução da cerimônia para 3 horas fixas. Isso pode ser uma boa ideia, já que a demora na entrega dos prêmios e a “morosidade” são motivos para que muitas pessoas desliguem a TV. Creio que esta pode ser uma medida interessante. O que é triste, no fim das contas, é que eles provavelmente vão cortar premiações “menores”, que podem ficar restritas aos intermináveis intervalos comerciais, em vez de reduzir piadas e momentos costumeiramente inúteis. Com isso, cada vez menos valor será dado aos outros profissionais da indústria, que continuará bajulando e valorizando apenas as estrelas.

 

Começo de fevereiro

A segunda mudança é a data da premiação. Como já não é mais possível mudar a cerimônia de 2019, que será dia 24 de fevereiro, a cerimônia de 2020 já está marcada para o comecinho do mês, dia 9. Ou seja, em vez de ser no final do mês, agora a premiação virá provavelmente antes de prêmios como o do sindicato dos atores (SAG Awards) e dos diretores (Director’s Guild Awards). Com isso, pode ser que o Oscar se torne mais surpreendente, já que não teremos acesso à preferência dos votantes principais nas categorias. A mudança pode ser benéfica ou, na pior das hipóteses, não causar dano algum. No caso do Brasil, a data continuará coincidindo com o carnaval de vez em quando.

 

Categoria “Filme Popular”

Por fim, a Academia criou uma nova categoria: Melhor Filme Popular. Já se fala em premiar “Pantera Negra” na edição de 2019. Com isso, a instituição quer ter mais audiência da premiação e se aproximar de um público maior. Ao que me parece, a decisão é tão estúpida quanto potencialmente ineficaz.

Primeiramente, não creio que essa decisão criará qualquer aproximação do público mais jovem ou de uma audiência maior. Se a premiação não se conectar com essa audiência, não é dar prêmio a um filme “popular” que o fará. Depois, a categoria cria a péssima possibilidade de que nenhum “blockbuster” seja indicado ao Oscar principal, corroborando com a ideia de que filmes de grande bilheteria possuem uma qualidade invariavelmente menor – e filmes como “Titanic”, “O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei”, e “E o vento Levou” provam que isso não é verdade. A criação desta categoria também mostra que a Academia está desesperada e não sabe bem o que fazer, o que pode enfraquecer ainda mais a sua imagem.

 

89th Academy Awards – Oscars Awards Show – Hollywood, California, U.S. – 26/02/17 – Writer and Director Barry Jenkins of “Moonlight” holds up the Best Picture Oscar in front of host Jimmy Kimmel (rear) as he stands with Producer Adele Romanski (R). REUTERS/Lucy Nicholson

Uma possível solução

Acredito que uma premiação – ou qualquer evento – que quer se manter com boa audiência precisa se manter relevante. E para que algo seja relevante, é fundamental que tenha elementos que mostrem algo congruente com o mundo em que vivemos. Portanto, quando o Oscar se inclui no debate acerca das denúncias de assédio na indústria e da importância da representatividade, a cerimônia está se tornando mais relevante – afinal, todo mundo comentou estas questões em relação ao Oscar, até mesmo quem não viu a premiação.

 

Quando penso nas questões que poderiam tornar a premiação do Oscar mais relevante de forma a gerar mais audiência, penso em alguns fatores que poderiam aproximar o grande público da cerimônia, assim como torná-la mais atraente:

 

1- Em pleno 2018, ninguém se sente atraído por uma festa black-tie. Mulheres com vestidos longos chiquérrimos e homens vestidos de pinguim não apelam para quase ninguém. Um ambiente mais descontraído e com menos exigências de vestimenta seria muito mais interessante. Considerando que a moda é uma forma que as celebridades têm para se expressar, veríamos atores com camisas diferentes, pessoas de bermudas, mulheres de calças (poucas o fazem na cerimônia atual). Acredite em mim: mais pessoas se conectariam com a festa.

 

2- O público quer diversidade. Não falo aqui de apresentadores negros, diretores mexicanos premiados e mulheres empoderadas. Isso tudo é muito importante, mas creio que uma maior presença de filmes de outros países traria mais apelo, até mesmo com o público americano. Que tal um filme francês indicado a Melhor Fotografia, ou aquela atriz brasileira na categoria de atuação? Isso aumentaria a audiência mundial, mostraria mais conexão dos Estados Unidos com o mundo, e criaria um senso de novidade que combina com o que vivemos.

 

3- Novas categorias que façam sentido. Algumas pessoas dizem que deveria haver um prêmio para atuações “revelação”, outros defendem que poderia haver uma categoria de “primeiro filme” para diretores estreantes, e ainda existe uma luta há anos pela categoria de “dublê” (os Stunts, que têm seu próprio sindicato). Essas novas categorias não apenas criariam novidades, como possivelmente abririam novos olhares do público para o cinema. E o processo de conquista de relevância não é algo do dia para a noite, e nem sempre com aquilo que o público quer (mas aquilo que ele precisa).

(ah, e já pensou que ousado seria se considerassem os games como produções cinematográficas e dessem Oscars para essa categoria? Ideia maluca, mas é pra se pensar…)

 

4- Outras medições além da audiência na TV. Qualquer pessoa sabe que audiência em números não é tudo. Na TV aberta, principalmente, afinal de contas esse hábito está se perdendo. Tem muita gente que acompanha o Oscar pelas inúmeras “lives” que influenciadores fazem no Youtube (e outras redes sociais). Buscar entender o novo comportamento das pessoas é fundamental para isso. Quem sabe a Academia não passaria os bastidores da premiação em forma de Live no Instagram, ou liberaria a transmissão em outras plataformas. Uma das regras do marketing é estar onde o público está…

 

…e por falar em público, a Academia precisa reconhecer algo óbvio que acontece no mundo todo e cada vez mais: a atenção das pessoas está cada vez mais dividida. Talvez o Oscar simplesmente não tenha mais apelo para tanta gente assim (e vamos combinar, lá nos primórdios ele não tinha também, tornou-se grandioso apenas nas últimas décadas), e tá tudo bem! Quer mais uma regra do marketing? Então lá vai: “quem quer falar com todo mundo acaba não falando com ninguém”.

 

Como vivemos em tempos de segmentação, não seria a hora de o Oscar definir uma para si? E aí ele precisará definir se está falando com cinéfilos, com a indústria ou com o “povão”. Se for para falar com a indústria,  será necessário atender às demandas dos sindicatos e dos movimentos como o MeToo. Se for para falar com os cinéfilos, talvez aumentar a presença de filmes de outros países ou criar mais prêmios técnicos pode criar mais conexão. Mas se a ideia é falar com uma “massa” de pessoas, então a ideia deve estar em ver mais valor nos filmes populares, não criando uma categoria para eles, mas permitindo que filmes de gênero tenham mais indicações, e criando mecanismos para que filmes de maior bilheteria sofram menos preconceito (indicar os bons filmes de super-herói e dar mais espaço ao horror e à comédia, por exemplo).

 

Enquanto isso, cabe ao cinéfilo aprender a valorizar outras premiações.

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