Cinema Popular: Será que estamos sendo elitistas?

Cinema Popular: Será que estamos sendo elitistas?

Já aconteceu de você ir ao cinema e se deparar com pessoas mal educadas, que conversam o filme todo, colocam os pés sobre o encosto de sua poltrona, se levantam a cada 10 minutos, narram os acontecimentos do filme, gargalham alto em filme de terror, antecipam os spoilers ou vivem soltando o famigerado bordão “nossa, que mentira!”. Se você já se deparou com pelo menos um desses casos, saiba que você não está sozinho.

 

Não raro encontramos frequentadores de cinema reclamando de suas experiências dentro das salas. E não à toa, pois muitos desses casos (talvez todos) podem arruinar a experiência de se apreciar uma obra na tela grande. Lembro-me de ter passado por uma situação assim quando fui assistir ao filme “Ao Cair da Noite” e um grupo de adolescentes ficaram reclamando (em voz altíssima) do filme que segundo eles “era chato e não acontecia nada”. Por ser um filme imersivo que pede uma ambientação adequada, a minha experiência foi bem prejudicada para não dizer arruínada.

 

Estava decidido a não mais assistir a filmes de terror em salas de cinema. Foi então que refleti mais sobre o assunto e percebi que esse pensamento pode mascarar um certo elitismo da minha parte. Então voltei a frequentar cinemas e estava feliz pois aquela experiência não se repetiu. Foi então que me deparei com um vídeo onde uma jovem (novidade) destila preconceito para com o que ela chama de “povo que vai no cinema de chinelo”.

Este vídeo gerou uma grande comoção no twitter (rejuvenesci 15 anos com essa frase), com pessoas apontando o quão mesquinho é esse pensamento. Mas eu não quero usar esse espaço para xingar a garota (embora tivesse vontade), e sim propor um exercício para tentar entender de onde vem esse pensamento elitista que muitos ainda têm em relação ao cinema e seu público, e por que ele deve ser combatido com veemência.

 

No vídeo, a garota fala em aumentar o preço do ingresso para “selecionar o público”. É um discurso parecido com o que o youtuber (como poderia ser diferente?) Jurandir Filho do Rapaduracast publicou quando dizia que “com ingresso a 1 real, você abre a possibilidade de não só fãs de cinema irem assistir aos filmes, mas de pessoas más intencionadas”. Lógico que o youtuber que na época era apenas blogueiro e podcaster foi massacrado, obrigando-o a se retratar posteriormente. Porém o estrago já havia ocorrido e expôs o pensamento preconceituoso de muitos que realmente acreditam que a falta de educação nas salas de cinema está 100% relacionada com poder aquisitivo de seu público. Para essas pessoas, cinema deve ser um espaço para receber seus e suas amigas. É o velho desejo da exclusividade! Isso é uma tendência que vem crescendo com o aumento de filmes disponíveis para se assistir on demand. Hoje temos uma infinidade de filmes disponíveis para se assistir no conforto do lar, seja por meios legais ou ilegais. Apesar disso, os números nas bilheterias no Brasil continuam crescendo, com exceção de 2017 que teve um pequeno recuo, mas nada de assustar.

 

Segundo a ANCINE (Agência Nacional do Cinema), o total de público em salas de exibição no país em 2017 foi de 181,2 milhões, o que representou um pequeno recuo de 1,7% em relação a 2016. Porém, repare no gráfico abaixo como os números vêm crescendo desde 2009.

Estes números comprovam que o público de cinema valoriza a catarse coletiva que é o cinema. Essa coletividade proposta pelo cinema existe desde seus primórdios. Por exemplo, no dia 28 de dezembro de 1895 em uma sala do Grand Café de Paris, cerca de três dúzias de visitantes presenciaram o momento célebre da primeira sessão cinematográfica da história. Ali nasceu a sala de cinema!

 

Quase 123 anos depois, o cinema continua a nos fascinar como evento das massas. Entretanto, mesmo com esse apelo popular, o cinema ainda pode ser considerado elitista. Segundo pesquisa encomendada pelo Festival do Rio em 2016, o acesso ao cinema no Brasil continua limitado. Em 2015, 93,2 milhões de pessoas não possuíam acesso a salas de cinema na cidade em que moravam – ou seja, 46% da população brasileira. Se você vai ao cinema ao menos uma vez por mês, considere-se privilegiado ou privilegiada.

 

Esta restrição às salas de cinema não se dá apenas por conta da indisponibilidade de salas em cidades menores. Muitos tem cinema na cidade mas deixam de ir por conta dos preços aplicados. Veja esse gráfico abaixo que revela a bilheteria brasileira em 2017 e a média dos preços dos ingressos (PMI).

Pensemos em um filme como “Star Wars – Os Últimos Jedi” que ficou em 18º lugar no ranking de público. A média dos ingressos para esse filme foi de R$ 17,91. Talvez você pense “ah, R$ 17,91 não é tão caro assim”. Agora pensemos em uma família média de 4 pessoas que quer ir ao cinema. Somando todos os ingressos, o valor sobe para R$ 71,64. Mas lembre-se que nem todo cinema fica na esquina da casa da pessoa, então é possível que ele precise se locomover. Em São Paulo, a passagem de ônibus ou metrô custa R$ 4,00, o que somando a ida e volta da família, o valor agregado fica em R$ 103,64. Esse valor corresponde a quase R$ 12% do salário mínimo!  Segundo o IBGE, 50% dos trabalhadores e trabalhadoras no Brasil recebem 1 salário mínimo ou menos. Para essas pessoas, é caro ou não?

 

Quando alguém fala que cinema popular deve acabar e que os ingressos precisam aumentar, essa pessoa quer na verdade privar uma enorme parcela da população brasileira de ter uma experiência coletiva que há quase 123 anos vem emocionando seu público. Como não se arrepiar com o silêncio de uma sala em uma cena como o final de “Os Vingadores: Guerra Infinita“. Ou não vibrar com a aparição de Darth Vader arrebentando tudo em “Rogue One”. Como não se contagiar com aquelas gargalhadas coletivas em filmes como “Super Bad“. Podemos ver filmes em casa, sozinhos no sofá, mas nada substitui a experiência de ver um filme na sala de cinema.

 

O jornalista e crítico de cinema Celso Sabadin que lançou o seu livro “História do Cinema para Quem tem Pressa” diz o seguinte sobre o tema: “o mais importante não seja saber “onde” veremos os filmes no futuro (se em telas grandes e pequenas, em celulares ou tablets, etc), mas sim “com quem”. Nada supera a experiência de ver os filmes em conjunto, com coletividade, ao lado de outras pessoas, sentindo reações e calores humanos. A extrema individualização dos costumes que vivemos hoje é prejudicial às relações humanas, por isso acho que o cinema, como experiência coletiva, jamais irá morrer”.

 

Toda experiência coletiva está sujeita a eventuais infortúnios, mas faz parte do nosso “viver em sociedade” saber lidar com isso. Cinema é emoção, é choro, é risada, é susto. Quando ouvir alguém “babosear” esses papos de “o popular está estragando o cinema”, refute e não permita que esse tipo de preconceito seja disseminado.

 

Cinema com ingresso a 1 real? Pode vir que eu quero é mais! Não há valor que cubra o brilho nos olhos de uma criança encantada com a grandiosidade de uma cinema!

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