"The Handmaid's Tale" S02 e a fetichização do sofrimento - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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“The Handmaid’s Tale” S02 e a fetichização do sofrimento

The Handmaid’s Tale” é uma daquelas séries que preenchem timeline de rede social se tornando tema de conversas acerca de seu conteúdo e tudo o que ela representa para uma sociedade que ainda luta para que mulheres alcancem a equidade. É uma obra que inspira atenção para uma realidade ainda não existente mas que reflete atitudes e conceitos já em voga em diversas sociedades que retiram direitos básicos de mulheres rebaixando-as a meros objetos reprodutivos. Foi com essa premissa que a série conquistou fãs no mundo todo além de diversos prêmios, o que credenciou a obra baseada no livro homônimo a ganhar uma segunda temporada, ainda que o material fonte tenha se findado no primeiro volume.

Desta forma, “The Handmaid’s Tale” se desgarra do livro de 1985 escrita pela canadense Margaret Atwood e cria sua própria história, sempre sob os olhares atentos da autora e agora consultora, para que se mantivesse a coerência e qualidade da temporada anterior. Pelo menos foi o que eu pensei que aconteceria com a série, mas infelizmente o resultado final revela algo bem diferente do que fora apresentando na S01, a começar pela já polêmica do “torture porn” que segundo reportagem do El Pais, fizeram com que diversas mulheres abandonassem a série por conta da exploração do sofrimento infligido àquelas mulheres. Segundo Lisa Miller, crítica da revista The Cut, a série virou um produto de pornô de tortura misógina: “A violência contra as mulheres na segunda temporada é indulgente e busca satisfazer como uma resposta física e visceral em ‘The Handmaid’s Tale‘, que deixou de ser uma atração de terror feminista para virar entretenimento misógino do mais convencional”.

Se na primeira temporada a série apresentava aquelas torturas para contextualizar a distopia e inserir o espectador naquela sociedade, agora na segunda, o objetivo é esvaziado, pois tudo o que precisava ser mostrado, já fora feito na temporada anterior. O que acontece são apenas repetições gratuitas de algo que já havíamos visto antes. É o choque pelo choque. Entretanto, esse não é o único problema que “The Handmaid’s TaleS02” apresenta, e para que possamos abordar esses problemas, spoilers precisarão ser considerados. Portanto, a partir daqui os spoilers estarão liberados.

The Handmaid’s TaleS02“, assim como a temporada anterior, se mantém visualmente linda, com controle da mis-en-scène que transforma todo aquele horror em beleza. A fotografia que tem a direção dividida entre duas talentosas diretoras de fotografia, Colin Watkinson e Zoe White, continua explorando as cores vermelhas (das aias) e verdes azulado (das esposas) e todo o contraste existente entre elas. O fato de duas mulheres estarem a cargo da direção de fotografia pode ter grande influência na direção dos episódios que apesar do abuso visual com as torturas, nunca expõem gratuitamente os corpos das atrizes, em especial Kate Moss que se entrega 100% à série. Aliás é preciso destacar as atuações de Kate Moss (June) e de Yvonne Strahovski (Serena) que mesmo com episódios que tentam sabotá-las, conseguem com muita naturalidade transitar entre a dor, o desespero, a decepção, a raiva e a angústia através dos olhos e dos gestos faciais, até por que, se dependesse apenas do texto, o desastre seria completo. Porém, se as atuações transitam com fluidez, o mesmo não pode-se dizer dos episódios que tropeçam entre si, muitas vezes ignorando eventos ocorridos no episódio anterior. Para que entendamos como se dá essa incoerência, listarei 7 momentos chaves da série que foram suplantados por episódios subsequentes.

 

Elisabeth Moss and Ann Dowd in The Handmaid's Tale (2017)

Aias em uma das muitas sessões de torturas

 

A fuga de June

Os 3 primeiros episódios, que possivelmente são um dos melhores da temporada, são todos calcados na fuga de June para o Canadá. O espectador abraça a coragem da protagonista e se entrega de braços abertos e coração na mão para a série. No entanto, ao final do E03 um banho de água fria é jogado em nossas cabeças e no E04, June volta a sofrer tudo o que já havíamos visto na temporada anterior. Então para que serviu todos aqueles episódios se June voltaria para a ‘estaca zero’? Há até uma tentativa de inserir um tema sobre culpabilização para que a vitima se sinta causadora dos males a ela infligida, mas ela é facilmente abandonada para dar lugar à mais cenas de torturas.

 

A Colônia

A partir E02 que tem um título excelente (Unwomen) somos apresentados à Colônia, uma espécie de campo de trabalho forçado em ambientes tóxicos para mulheres que se rebelam contra o regime ditatorial. Todo o conceito envolvido na Colônia é algo de fato interessante pois temos ali personagens que tem muito a acrescentar para a série, como Emily (Alexis Bledel), Janine (Madeline Brewer) e Holly, a mãe de June (Cherry Jones). Apesar de novamente a série apostar na exploração do sofrimento, tínhamos uma esperança de que algo realmente significativo ocorreria naquele lugar. E o que acontece? Absolutamente nada! A partir do E07, Emily e Janine voltam para Gilead como se nada tivesse acontecido, e a Colônia, e tudo que vimos nela é praticamente ignorado. Para que serviu vermos tanta mulheres sofrendo durante quase 5 episódios?

 

Emily (Alexis Bledel) no tenebroso e sádico cenário da Colônia

 

O Atentado

No final do E06, que já vinha capengando com algumas cenas bem questionáveis, um acontecimento que parecia abalar toda estrutura da série finalmente acontece. Um atentado promovido por uma aia que explode uma sala com diversos lideres de Gilead. Ao final do episódio ficamos boquiabertos com o acontecimento, imaginando os desdobramentos deste evento. Porém, o que acontece no episódio seguinte ironicamente chamado “After“?  Comandante Waterford fica uns dias internado, mas retorna como se nada tivesse acontecido enquanto as aias continuam indo fazer compras e conversando entre si como se no dia anterior, uma das suas não tivesse explodido uma bomba matando dezenas de pessoas entre importantes lideranças e as próprias aias. Tudo isso para que? Somente para aproximar Serena de June para a ajude a escrever discursos enquanto seu marido está internando?

 

O Canadá

Este sem dúvida é um dos episódios mais desperdiçados da série. Todo desenvolvimento do que estava acontecendo no Canadá é bem construído, mostrando que há sim esperança para aquelas mulheres. Há uma cena da Serena olhando as ruas de dentro do carro, observando pessoas se beijando apaixonadamente, casais de mãos dadas, grupo de amigos brincando e andando de skate, até mesmo coisas ruins como uma pessoa pedindo esmola, que pelo olhar de perplexidade, percebemos uma pontada de consciência na personagem que parece pela primeira vez na série, sentir o impacto negativo do que ajudará a criar. Além disso, o episódio ainda mostra as cartas das aias sendo publicadas e escancarando para o mundo todos os abusos cometidos em Gilead. Agora parece que a série vai aproveitar isso e expandir a discussão, certo? Errado!

Depois ainda temos outra cena incrível onde um representante oficial e dissidente dos Estados Unidos tem um diálogo com Serena que se sente acuda e reflexiva acerca do que realmente se trata Gilead e o quanto aquilo afetava sua liberdade. No mesmo episódio, vemos o passado de Serena e passamos a entender (até onde é possível) suas motivações e o que levo-a a agir de tal maneira. Mas novamente ficamos na expectativa de que esses elementos tenham influência no caminhar da série, porém no episódio seguinte, tudo isso é descartado. Serena volta a ser aquele megera insensível e tudo que acontece no Canadá é ignorado.

 

O Estupro

Debates sobre a necessidade de se filmar cenas de estupros existem ao milhares, porém não é o objetivo deste texto debater a cena e sim a função da cena na história contada, e neste sentido, esse foi um dos mais dolorosos tiros no pé que a série cometeu – usar o estupro como catalisador de compaixão masculina. Para que uma série que visa alertar seu público quanto aos abusos cometidos contra as mulheres faça uso de uma uma cena de estupro, precisa de um motivo muito forte para tal, o que não acontece na série que além de fazer mal uso da cena, ignora seus efeitos ao colocar dois episódios após o ocorrido, a idealizadora do estupro sendo consolada pela vitima e logo depois, como que se esquecendo do que cometera, age com sensatez e até carinho para com a mesma. Ou seja, toda aquela cena pesadíssima não deu em nada, além do choque pelo choque!

 

Éden, a mártir

Disse no começo do texto que essa temporada de “The Handmaid’s Tale” tem várias incoerências, mas o que mais preocupa são as conveniências do roteiro para justificar as mudanças de atitude de alguns personagens. Por exemplo, acabamos de falar de Serena que reveza entre vilã-coração-de-gelo e apenas-mais-uma-vitima-daquela-sociedade como se fosse mudança de humor. Serena se torna uma personagem que passa de estupradora para alguém altruísta de um episódio para o outro, e a justificativa para essa mudança (episódio 12 – Postpartum) é a morte de uma garota que aparece ainda no episódio 6 – First Blood, e que entre estes, pouco ou nada acrescenta para a história. Apesar deste evento pelo menos levar a algum acontecimento, gastar 7 episódios construindo uma personagem que será esquecida no episódio seguinte, apenas para servir de mártir é contraproducente para a série.

 

Yvonne Strahovski in The Handmaid's Tale (2017)

Serena (Yvonne Strahovski) passou de personagem ambíguo para alguém que muda de comportamento conforme for conveniente para o roteiro

 

O milagre de Janine

Para finalizar a lista, o belo episódio 8 traz um acontecimento que deveria ser importante mas também é descartado em meio à bagunça desta temporada – o milagre da filha de Janine. Neste episódio temos uma Serena dócil, amável e que nada lembraria uma estupradora que espanca suas empregadas, ajudando a salvar a vida do bebê que Janine dera luz. Ao final do episódio, quando o bebê é dado como em fase terminal por uma doença intratável, Serena faz com que Janine passe a noite com o bebê nos braços para o que seria sua última noite de vida. Mas milagrosamente, o bebê se recupera nos braços da mãe e sobrevive. A cena é linda, mas o que fazem com esse acontecimento? Absolutamente nada. No episódio seguinte é como se nada tivesse acontecido, e nos últimos episódios quando Serena se recusa a deixar June ver seu bebê mesmo sabendo da necessidade disso, convenientemente esse milagre é totalmente ignorado. Mas tudo bem, dois episódios depois a consciência de Serena volta a aparecer para amolecer seu coração e ela deixa sua filha, seu bem mais precioso, o motivo de Gilead existir (segundo ela), ir embora nos braços daquele que há três episódios atrás estava sendo estuprada por ela e seu marido.

 

Apesar de todo o meu desgaste com a segunda temporada de “The Handmaid’s Tale“, eu quero acreditar que na próxima temporada, o showrunner da série, Bruce Miller, repense a obra e repita a excelente primeira temporada e que essas 20 indicações ao Emmy Awards não iluda-nos, pois é obvio que a série e os envolvidos nela têm potencial para fazer algo muito melhor do que fora feita nesse S02. Teremos que aguardar.

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