"Tau" / "Eu Não Sou Um Homem Fácil" | Quando a temática confronta a execução - NETFLIX | Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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“Tau” / “Eu Não Sou Um Homem Fácil” | Quando a temática confronta a execução

Meu fascínio pelo cinema tem origem em diversos elementos que poderiam ocupar dezenas páginas aqui no site para poder abrangê-las. Entretanto, há um elemento específico que vem surgindo em minhas digressões acercas de algumas obras assistidas que me induz a comentar sobre dois filmes recentes: “Tau” (2018) e “Eu Não Sou Um Homem Fácil” (2018), ambas originais Netflix. O título do texto explica por si só a que me refiro, mas vale contextualizar o conceito do que é uma temática.

 

Temática é o conjunto de temas de qualquer obra de teor artístico. Na área de teatro, cinema e televisão, temática é o argumento, o enredo, a trama, o contexto etc.

 

Ou seja, a temática do filme representa seu cerne, seu tema, seu objetivo principal como história. Essa temática geralmente se encontra na primeira camada de significado de um filme. Existem pelo menos 4 camadas de significados em uma obra cinematográfica, mas para que esse texto não fuja da sua temática, fixaremos nossa atenção na 1ª camada, que é aquela normalmente encontrada na sinopse do filme e posteriormente na 2ª. Caso se interesse em conhecer as demais camadas, recomendo que veja este vídeo-ensaio produzido pelo Artecines falando sobre Os 4 Significados de um Filme e a Nocividade do Excesso de “Final Explicado”.

 

Falemos então da temática do filme “Tau” de 2018 já disponível na Netflix. A sinopse oficial é a seguinte: “Sequestrada por um inventor que a faz de cobaia para aprimorar um sistema de inteligência artificial robótica, uma jovem tenta fugir de seu cativeiro de alta tecnologia”. Simples, direta e atrativa, como toda a sinopse precisa ser, e “Tau” se vale dessa simplicidade para introduzir sua temática. O filme começa estabelecendo o lugar de cada personagem na trama e nos fornece ferramentas para explorarmos outros significados dentro do filme. Por exemplo, pode-se ver o filme simplesmente como um thriller futurista onde uma jovem luta para sobreviver. Mas não precisamos ser tão superficiais assim não é mesmo?

 

“Tau” se inicia apresentando Júlia, uma jovem que sobrevive de pequenos furtos e da exploração sexual de seu corpo. Quando a mesma se encontra em poder de seu sequestrador, se depara com outros dois jovens: um rapaz negro e uma moça imigrante, possivelmente grega (dada a origem da atriz). Em dado momento quando o rapaz apavorado pede que aguardem a ajuda policial, Júlia responde em outras palavras que ninguém os ajudaria por eles serem invisíveis para a sociedade. Esse comentário representa o significa explícito (2ª camada) por detrás da temática sci-fi do filme. “Tau” fala sobre o domínio subjugante que uma classe favorecida exerce sobre os mais vulneráveis.

 

Júlia representa as mulheres vítimas dos mais diversos abusos, principalmente quando há o julgamento moralista por parte da sociedade, como se a mesma tivesse menos valor pela atividade sexual exercida. Já o rapaz negro, obviamente representa tudo o que os negros sofreram e ainda sofrem às mãos de uma sociedade racista que não consegue aprender com erros do passado (vide caso Cocielo). E concluindo, a moça imigrante representa uma classe que como se não bastasse o sofrimento de precisar abandonar seu país, precisa lidar com o xenofobismo advinda ora de cidadãos, ora do próprio estado que os oprime (vide caso Trump).

 

Porém, para que uma temática repleta de significados funcione em uma obra, é preciso que haja uma boa execução, e é ai que “Tau” se perde completamente por ter um roteiro infiel às próprias premissas. O filme propõe que a inteligência artificial presente na casa é uma das mais avançadas do mundo, entretanto todas as ações oriunda da tecnologia demonstram exatamente o oposto disso. É uma sucessão de decisões equivocadas, tomadas mediante situações que muito lembram uma criança sem qualquer poder de processar informações.

 

Um exemplo simples (que se repete o filme todo) e que mostra essa incoerência do roteiro está nas diversas vezes que Júlia pede que o sistema lhe forneça alguma informação confidencial mas não a obtêm devido uma programação que não autoriza o sistema a fazê-lo, porém com uma simples insistência e um jogo muito raso de “faça isso e eu te dou aquilo”, toda a programa é ignorada e o sistema passa a agir como uma criança que não consegue guardar segredo. Ou seja, “Tau” tem em mãos um tema muito rico, mas se esquiva de explorá-lo para se ater às incongruências de roteiro pobre.

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Apesar de algumas boas sacadas como bom uso de cores e sobras para realçar solidão e medo, o roteiro peca com solução fáceis e preguiçosas

 

O mesmo acontece com o filme “Eu Não Sou Um Homem Fácil” também disponível na Netflix. Sinopse oficial: “Um machista inveterado prova de seu próprio veneno ao acordar em um mundo dominado por mulheres, onde entra em conflito com uma poderosa escritora”. Dirigido por  Eléonore Pourriat e baseado no curta “Majorité Oppriméé” (recomendo fortemente que o veja) de mesma autoria, “Eu Não Sou Um Homem Fácil” tem nas mãos a oportunidade de explorar uma gama imensa de possibilidades de situações onde mulheres são subjugadas, assediadas, discriminadas e preteridas. Mas ao invés disso, o filme prefere por exemplo, se focar em mostrar mulheres (no papel de homens) bebendo cerveja, como se mulher não fizesse isso também, ou vendo esportes, como se futebol fosse coisa de homem (vide caso Osório).

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Um dos maiores problemas do filme é a insistência em relacionar masculinidade com futilidades como ‘tomar cerveja’.

 

A toxidade masculina vai muito além desse estereótipo do “homem viril que toma cerveja e assiste futebol”. Há alguns poucos momentos do filme onde temas como disparidade salarial, controle do próprio corpo e assédio são explorados, mas na maior parte do tempo, o filme mais parecesse uma versão gringa de “Como Se Eu Fosse Você” de 2006 do que uma adaptação de um excelente curta-metragem. O próprio curta consegue em 10 minutos explorar com mais sensibilidade os reveses do universo feminino do que o filme em mais de 90.

 

Essas duas obras exemplificam boas ideias com más execuções. São filmes com propostas inteligentes mas escorregam em roteiros com dificuldades em se manter interessantes durante todo o filme. Porém, mesmo com problemas, são obras que promovem boas reflexões, desde que nos propusermos a refletir além da superfície, e isso é simplesmente incrível.

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