Uma Sombra que Passa (Mitchell Leisen, 1934) - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema

Uma Sombra que Passa (Mitchell Leisen, 1934)

Uma Sombra que Passa (Mitchell Leisen, EUA, 1934)

Percebemos com facilidade que a morte é um tema extremamente controverso para a maioria das pessoas. Sempre foi motivo de curiosidade e o homem, inocentemente, tenta atribuir um significado fantasioso para o “fim”, de modo que, muitas vezes, acaba se esquecendo do significado mais profundo: a catarse provocada pela limitação da jornada. A morte carrega em seus ombros a única chance de vida intensiva, aquela que exige, em algum momento, que o indivíduo se entregue ao não linear. Falar da vida é compreender que a existência se divide em atos e o final é tão importante quanto as demais, visto que tem o poder de colorir o percurso, imortalizá-lo. A humanidade é tão arrogante, que o nirvana só pode ser alcançado com a ciência da efemeridade de tudo, no alento silencioso e entre um espaço e outro.

Uma Sombra que Passa (1934), apesar da sua narrativa comum em relação à década de trinta do cinema norte-americano, é ousado em preencher as lacunas do roteiro com uma série de metáforas referentes à finitude da existência e busca por aceitação. A história é sobre a morte que, cansada de verem todos temê-la, tira férias por três dias e vê a possibilidade de estudar a espécie humana ao se infiltrar em uma reunião de amigos burgueses. Ela então se personifica na figura de um homem extremamente cordial, cuja intenção é procurar respostas para saciar as suas curiosidades, dentre as quais: “Por que os homens têm tanto medo da morte?”.

A apresentação dos personagens é feita de forma delicada, amigos que conversam e brincam, bebem e se arriscam, depois todos se reúnem em uma mansão e ela se mantém como principal cenário para uma obra que se aproxima bastante da teatralidade e que, mesmo apesar das cenas de humor, possui fortes doses de existencialismo e melancolia. A morte até então os persegue como uma sombra negra, principalmente Gazia (Evelyn Venable) que, há de se observar, se trata de uma personagem extremamente complexa, pois desde o começo se mostra desinteressada da vida, futuro e das relações, chega até mesmo a afirmar que “precisa buscar algo que não sabe ainda e que o fará sozinha” enquanto rejeita a estabilidade e viagens com o pretendente apaixonado. Ela sai do plano comum, se desprende da falsidade que rodeia a burguesia e o seu adiamento da verdade, a de que absolutamente nada importa, senão, o “ser”.

Os diálogos são sempre muito clássicos, permeados de frases perfeitas e extrema boa educação, a atmosfera convidativa não é quebrada nem mesmo com o misticismo de cenas como a qual ocorre a aparição da morte pela primeira vez, ainda como sombra, e ela inclusive segue sendo arrepiante até hoje.

O filme tem poucos minutos de duração mas consegue se dividir muito bem entre o cômico e o filosófico. A Morte/Príncipe Sirki – interpretada com elegância e poder pelo Fredric March – possui a vontade inerente de se colocar no lugar do ser humano, afim de entender o porquê de tamanha relutância em deixar e deixar-se ir, e isso é respondido quando ela encontra o amor. Nesses três dias de férias, mas intensos quanto aos trabalhos reflexivos, ainda restam momentos para serem desconstruídos alguns aspectos burgueses como quando a morte questiona sobre o motivo de dormir no quarto enquanto à noite estrelada é muito melhor ou quando afirma não entender bem as guerras e os homens que se matam “defendendo uma bandeirinha“.

Apesar do final onde é possível sentir uma urgência para a conclusão – o que é irônico, visto o tema do filme – Uma Sombra que Passa (Death Takes a Holiday) possui muitos aspectos cinematográficos importantes como os efeitos especiais, atuações e mise-en-scène – afinal, a utilização da mansão é inteligente em ampliar os espaços da morte e pressionar os demais personagens – mas sua real força se encontra justamente no potencial filosófico, onde a morte é debatida livremente através de uma personagem feminina forte, levada pelos instintos e que não permanece presa ao comodismo. Poucos são aqueles que alcançam o amor que ultrapassa a ilusão.

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