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Nelson Pereira dos Santos – A despedida de um mestre do Cinema Brasileiro

Fazer cinema no Brasil nunca foi tarefa das mais fáceis; mas o paulista Nelson Pereira dos Santos dedicou grande de sua vida a enfrentar os desafios e levar para as telas sua inconfundível visão fílmica. Nascido em São Paulo no dia 22 de outubro de 1928, Nelson começou sua carreira como cineasta de longas-metragens com o inesquecível “Rio, 40 Graus” (1955), uma das primeiras obras a mostrar a diferença de classes no Rio de janeiro, expondo de forma impressionante a realidade das favelas cariocas. Começava assim o movimento conhecido como Cinema Novo.

Em 1957, Grande Otelo protagoniza “Rio, Zona Norte”, a história de um sambista morador do morro carioca, em busca de uma oportunidade rumo ao sucesso. Mas o que se vê são as agruras de um homem preso em uma realidade da qual não consegue sair. Em 1961, Nelson dirige “Mandacaru Vermelho”, seguido de “Boca de Ouro” (1962).

Vidas Secas (1963)

Vidas Secas” (1963) é seu melhor trabalho. Baseado no célebre livro do escritor alagoano Graciliano Ramos, o filme – em uma adaptação bastante fiel à obra original – conta a história de uma família de retirantes que tenta fugir de uma terrível seca. O sertão nunca foi mostrado – antes ou depois – de forma tão forte e impactante. A miséria vivida por Fabiano, Dona Sinhá, seus dois filhos e a cachorra Baleia, ganha contornos ainda mais trágicos, porque desde o início os vemos como seres invisíveis perante a sociedade e as autoridades.

Dirigiu “Fome de Amor” (1968), sobre casais em conflitos amorosos. “Azyllo Muito Louco” (1970), baseado na novela “O Alienista”, de Machado de Assis, é uma alegoria repleta de devaneios que faz uma crítica aberta à Ditadura Militar. “Como Era Gostoso o Meu Francês” (1971) é uma inusitada aventura que se passa quase cem anos depois do descobrimento do Brasil, e revela a problemática do homem branco em contato com os índios. “Tenda dos Milagres” (1977) é uma adaptação da obra homônima do escritor baiano Jorge Amado.

Como Era Gostoso o Meu Francês (1971)

No início dos anos 80, Nelson volta a adaptar dois escritores famosos. “Missa do Galo” revisita o conto de Machado de Assis, sobre uma mulher que em uma determinada noite é cortejada platonicamente por um jovem. Em 1984, mais uma adaptação de uma obra de Graciliano Ramos: “Memórias do Cárcere”. É um trabalho longo e bem elaborado que conta as memórias do famoso escritor preso nos anos 30 durante o Estado Novo, implantado por Getúlio Vargas. Este filme só pôde ser feito e lançado no fim do Regime Militar.

Jubiabá” (1987) adapta outro romance de Jorge Amado, enquanto “A Terceira Margem do Rio” (1994) se baseia em duas histórias do escritor mineiro João Guimarães Rosa. Entre outros trabalhos em longa-metragem do diretor, destacam-se “Cinema de Lágrimas” (1995) e “Brasília 18%” (2006”, além de documentários como “Raízes do Brasil – Uma Cinebiografia de Sérgio Buarque de Hollanda” (2003) “Português, a Língua do Brasil” (2007) e “A Luz do Tom” (2013).

Nelson Pereira dos Santos, considerado por muitos o melhor diretor do cinema brasileiro, nos deixou no dia 21 de abril de 2018, aos 89 anos.

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