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Fuga Cibernética – Jogador Número 1

O filme é do Spielberg e isso foi o suficiente para me fazer assisti-lo! À primeira vista Jogador Numero 1 parece ser um filme bobo e raso, o que de certa forma é verdade, mas o final esconde um verdadeiro enigma e uma moral oculta por trás.

Ainda estou confuso se gostei, ou não. O filme é muito bem produzido, os personagens e cenários 3D são tão belos quanto os de Avatar, os atores são bons e eu, como gamer assumido, me senti uma criança ao ver tantos personagens que marcaram gerações metendo a porrada no exército da IOI. É um filme que usa a fórmula a qual já citei em meu outro artigo.

O ator australiano Ben Mendelsohn – ainda não muito conhecido e que teve uma excelente performance na série da Netflix, Bloodline, que infelizmente devido a desacordo com a Sony, a mesma foi cancelada na terceira temporada – faz o papel do vilão, enquanto o jovem Tye Sheridan – o novo Cíclope da franquia X-men – faz o papel do mocinho que, na minha opinião, é um tanto quanto chato.

Jogador Número 1 se passa em um futuro distópico onde a maior parte da sociedade vive em favelas no deserto, cujas casas são – o que chamamos na arquitetura – moradias habitacionais individuais, empilhadas umas em cima das outras. Esse tipo de residência caracteriza-se por seu espaço diminuto, proporcionando o mínimo necessário para uma família pequena viver. É bastante parecido aos famosos trailers americanos – baratos, retangulares, um quarto, um banheiro e uma sala/cozinha, ou seja, realmente o básico. Para fugir dessa difícil vida, todos os cidadãos jogam um jogo de realidade virtual chamado OASIS, criado pelo tímido e introspectivo Halliday – clara referência a Steve Wozniak, cocriador da Apple ao lado de Steve Jobs, que no filme é referenciado pelo personagem Ogden Morrow, que se encarrega da publicidade e entrevistas.

Muitos alegam que a verdadeira mente por trás da Apple era Wozniak, responsável por criar sozinho o Apple 1, computador que lançou a marca homônima ao mercado, enquanto Jobs era apenas o cara que sabia falar em público e tinha boas ideias de design.

Enfim, o início do longa dá ao espectador uma pequena amostra de como vive a sociedade ao mostrar o protagonista acordando e indo para seu “pod” VR. Eu fiquei esperando que fossem aprofundar mais o ambiente, a sociedade e as relações interpessoais, mas como é um filme de Hollywood, esse tipo de coisa fica em segundo plano para dar lugar ao “tiro, porrada e bomba” que o público em geral tanto adora e, convenhamos, é legal de ver.

O final deu uma “bugada” na minha cabeça e me deixou com algumas perguntas: Halliday está morto ou não? Por que três chaves? Elas têm algum significado?

O site ScreenRant tem um belo artigo sobre essas questões, o qual eu traduzo em minhas palavras:

A chave de cobre – prêmio por completar a corrida da primeira tarefa – refere-se a pensar fora da caixa, afinal, em uma corrida subentende-se que você deve chegar à frente dos demais competidores, certo? Errado! No filme ninguém nunca havia conseguido completa-la, já que o King Kong sempre quebrava a pista e arrebentava tudo e todos que tentavam passar por ele. A grande sacada é que o criador odiava regras e, de certa forma, acelerar para frente é uma “regra” das corridas. Quem iria pensar em acelerar “para trás”? Grande sacada!

Já a chave de jade tem a ver com aprender com os erros do passado. O enigma fala “o criador que odeia sua criação” e “o salto não dado”, que faz alusão ao arrependimento de Halliday a nunca ter convidado a mulher que amava para dançar. Futuramente essa mulher se tornou a esposa de seu único amigo e cocriador do jogo, Og.

Já a terceira e última chave, a de cristal, faz a analogia de que o importante não é a linha de chegada e sim o percurso. O primeiro game designer a colocar um easter egg em um jogo, Warren Robinett, queria que os jogadores simplesmente jogassem sua criação pelo simples prazer de fazê-lo, sem se preocupar em zerar o game. Ao pararmos para analisar, Ronaldo, Michael Phelps, Usain Bolt, Airton Senna, entre muitos outros, só conseguiram seus feitos praticando diariamente e se dedicando aos seus objetivos. O filme Whiplash é um grande exemplo disso. Caso não o tenha visto, o Daniel escreveu um ótimo artigo aqui no site.

Após ganhar as três chaves mais um teste é imposto ao ganhador. Imagina você ter a oportunidade de possuir a Apple? Você assinaria esse contrato? Qualquer um sem entendimento sobre o jogo e seu criador o teria feito, o que é uma garantia de Halliday para impedir a “pessoa errada” de ganhar controle sobre criação. Pobre vilão, nunca teve chance de conseguir o que queria.

O filme nos faz acreditar até então que o maior arrependimento da vida de Halliday era ter perdido a mulher amada para o amigo por não ter tido coragem de chama-la para dançar. Todavia, fica evidente de que o que o criador do OASIS mais se arrependia era ter assinado o contrato no passado, onde ele assumia todo o controle da empresa que ele cocriara, pois, devido a isso, ele perdeu a única pessoa a qual havia conseguido se relacionar no mundo real. Seu melhor amigo.

Temos aqui uma outra alusão a Steve Jobs e Steve Wozniak, que no começo de tudo os dois eram amigos e depois de a empresa ter crescido, se desentenderam e se afastaram. Alguns dizem que sem Wozniak, Jobs nunca teria sido nada, já que não teria o famoso Apple1, enquanto outros dizem que sem Jobs, Wozniak teria um produto “comum”.

Hoje em dia, em 2018, com o avanço das tecnologias de realidade aumentada e realidade virtual, o constante avanço dos smartphones, wearables e a internet das coisas – termo utilizado para destacar a revolução tecnológica que conecta os objetos do dia a dia à internet – as pessoas estão cada vez mais conectadas, as relações humanas estão cada vez mais distantes do que eram na época dos seus avós e a tendência é que em 2045, ano em que passa o filme, a sociedade real esteja, de fato, imersa em uma grande e fantástica realidade virtual.

Eis que a grande mensagem do filme é a última cena, onde mostra que o jogo passou a ser desligado nas terças e quintas feiras para fazer os cidadãos viverem as suas realidades, fazer amigos reais e criarem planos de vida, ao invés de continuarem a usar o jogo para fugir de suas dolorosas realidades.

E você? Do que se esforça para fugir ou adiar?

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