Eu Cinéfilo #40: Crítica de "Alabama Monroe" (2013) - Cinem(ação)

Eu Cinéfilo #40: Alabama Monroe (2013)

Não é nenhuma novidade a tendência do cinema de romantizar o amor. São raros os filmes que o retratam fielmente, em todas as suas nuances, que englobam fases como alegria, tristeza, dor e arrependimento. Em Alabama Monroe, o diretor e roteirista belga Felix Van Groeningen se propõe a fazer um estudo aprofundado do conceito de amor ao narrar a história de um casal em diferentes etapas do relacionamento.

Didier (Johan Heldenbergh) é um músico de bluegrass que conhece Elise (Veerle Baetens) durante uma breve passagem no estúdio de tatuagem em que ela trabalha. Ele a convida para assistir um show de sua banda no bar local e ao vê-lo tocando no palco ela se apaixona imediatamente.

Os dois logo começam um relacionamento e partir daí acompanhamos toda a evolução do casal, passando pela primeira noite em que dormiram juntos, o dia do casamento e o nascimento de pequena Maybelle (Nell Cattyrsse). Essa trajetória, no entanto, não é narrada em ordem cronológica – o filme se divide basicamente em três linhas temporais: a fase romântica do relacionamento antes do nascimento de Maybelle, a fase melancólica quando sua filha é diagnosticada com câncer e, por fim, a luta do casal para reconstruir sua estrutura emocional após o falecimento da filha.

Ao desenvolver a trama de forma não-linear, a estrutura narrativa do filme se assemelha ao que Derek Cianfrance havia feito em Namorados Para Sempre (2010), onde aborda uma temática semelhante e apresenta uma visão tão realista do amor quanto Alabama Monroe. Dessa técnica, o resultado poderia ser um filme desconexo, incapaz de estabelecer uniformidade entre os eventos apresentados, mas graças à direção competente de Felix Van Groeningen a história se desenrola harmonicamente, como se as sequências fossem institivamente associadas a uma determinada fase do relacionamento. Mas isso não é coincidência; a fotografia de Ruben Impens (mesmo diretor de fotografia de Raw) oscila entre cores quentes e frias para criar essa associação entre a fase romântica e a fase melancólica do casal.

Sempre que a trama narra alguma passagem dos primeiros meses do relacionamento de Didier e Elise, observamos que a cena é composta exclusivamente por cores quentes e saturadas, principalmente o vermelho, sejam elas provenientes das lâmpadas do quarto onde os dois fazem amor ou da fogueira onde se reúnem com a banda para tocar bluegrass. Durante o tratamento de Maybelle e após sua morte, a fotografia se baseia em tons pasteis e cores frias, observadas nas paredes dos hospitais e em cômodos da casa que outrora fora fonte de alegria e bons momentos para a família.

Alabama Monroe não é um musical, mas a música é parte fundamental do filme. Ela ajuda a contextualizar as emoções dos protagonistas em momentos pontuais. Apesar de ser um ritmo animado, vez ou outra o bluegrass exerce um caráter triste e meditativo, em especial no período que sucede a morte de Maybelle. Portanto, é válido dizer que as mudanças nas vidas dos protagonistas influenciam diretamente sua música: nos primeiros momentos, ela é fonte de prazer e alegria, mas vai gradativamente se tornando triste e melancólica à medida que o casal tem que lidar com o luto de um ente querido.

A proposta de Alabama Monroe vai muito além de tratar o amor entre amor e mulher, afinal este é um sentimento complexo que conta com diversas outras camadas. No filme, o amor funciona como elemento catalisador tanto de alegria quanto de tristeza, este último sendo o responsável por fundamentar a atmosfera melancólica que se estabelece após a morte de Mabybelle, quando Didier e Elise tentam superar um incidente tão traumático e inventam possibilidades que beiram o absurdo a fim de justificá-lo.

Como uma montanha russa de emoções, Alabama Monroe é um filme que capta perfeitamente os diferentes estados da natureza humana em situações que inevitavelmente fazem parte da vida. Indicado a Melhor Filme Estrangeiro no Oscar 2014 e vencedor do César de Melhor Filme Estrangeiro em 2014, Alabama Monroe é uma pérola do cinema contemporâneo com grande potencial para se tornar um clássico no futuro.

 

Texto escrito por: Vinicius Liessi

Vinicius Liessi é fundador e editor do Cinema Depois do Café,um blog voltado para a publicação de listas de filmes com as mais diversas temáticas.

  • Nota
4.5

Resumo

Como uma montanha russa de emoções, Alabama Monroe é um filme que capta perfeitamente os diferentes estados da natureza humana em situações que inevitavelmente fazem parte da vida.

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