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100 Anos Luz – Alice Guy-Blaché: A mãe do Cinema

Conheça Alice Guy-Blaché uma das mais importantes pioneiras do Cinema, se não a mais importante

Você já ouviu falar de Alice Guy-Blaché? Provavelmente não. Mas sabia que ela é tão importante para o cinema quanto os irmãos Lumière e George Méliès? Sabia também que sem ela talvez o cinema hoje em dia não seria o mesmo? E que ela influenciou cineastas como Alfred Hitchcock?

Aproveitando que a semana Semana da Mulher , inauguramos hoje no Cinem(ação) uma nova coluna. A coluna “100 Anos Luz”. Nessa coluna iremos falar da história do cinema. Traremos a biografia de grandes cineastas, roteiristas, atrizes, atores, diretoras e diretores. Falaremos sobre fatos marcantes da história do cinema. Contar como o cinema se tornou o que é hoje. E inaugurando essa nova coluna vamos falar da Mãe do Cinema Alice Guy-Blaché.

Alice Guy-Blanché nasceu em 1º de julho de 1873 na cidade de Saint-Mandé, na França. Ela foi criada até os 4 anos por sua avó na Suíça, quando foi para o Chile morar com seus pais que moravam por lá, uma vez que seu pai tinha uma editora por lá. Alice ficou no Chile apenas por dois anos e voltou para a França, quando ela foi estudar em um colégio católico.

Em 1894 ela foi trabalhar numa empresa de fotografia de Léon Gaumont. Graças ao seu trabalho na empresa de fotografia Gaumont Film Company ela foi convidada para a primeira exibição de cinema no dia 22/03/1895. Nesse dia os irmãos Lumière apresentaram o que viria ser o primeiro filme exibido para o público La Sortie de l’usine Lumière à Lyon. Graças a essa exibição Alice teve uma brilhante ideia filmar atores em uma cena narrativa. Ela então pediu permissão para o seu chefe para filmar alguns atores em uma cena. Assim surgiu o primeiro filme de ficção teatral La Fee Aux Choux (A Fada dos Repolhos), um curta de menos de 1 minuto em que vemos uma fada em meio a repolhos mostrando o nascimento de bebês, possivelmente baseado em um conto francês. Nascia ali o primeiro filme de fantasia e o primeiro filme adaptado da história.

https://www.youtube.com/watch?v=Rt5VyFtIw6E

Ao exibir o resultado de seu trabalho para Gaumont, ele ficou tão satisfeito que criou dentro da sua empresa um departamento de cinema narrativo, pelo qual Alice Guy-Blanché ficou responsável, se tornando assim a “Primeira” Diretora e Produtora Executiva da história do cinema. A partir de então Alice começou afazer vários filmes e sempre experimentando novas formas de narrativa. Entre 1896 e 1906 a diretora fez vários curtas em que mostrava viagens, shows de dança ou os dois juntos. Entre eles vale destacar os curtas Le Bolero e Tango, ambos de 1905.

Mas o marco não só para Alice como para o cinema mundial veio em 1906. Nesse ano Alice Guy-Blanché lançou dois filmes marcantes para o cinema e para linguagem cinematográfica. O primeiro deles foi Les Résultats du féminisme. Nesse divertido curta a cineasta usou pela primeira vez na história a ironia. O filme se passa em uma realidade onde os papéis foram invertidos, os homens fazem os papéis das mulheres da época e as mulheres dos homens da época. No filme é como se ela dissesse aos homens: “É isso que passamos todos os dias”. O resultado são momentos hilários e históricos, como o da primeira mocinha da história a tomar a iniciativa em um romance.

https://www.youtube.com/watch?v=MW2BFWQ3BVY

De 1906 é também outro marco na carreira de Alice e na história do cinema. O filme La Vie du Christ, onde a cineasta conta a história de Jesus. O filme foi uma das maiores produções da época. No filme a cineasta fez o uso do cronofone e assim fez o uso de gravações de áudio ao exibir as imagens. O filme ainda contava com 300 figurantes, fez uso de efeitos visuais e durava 33 minutos. Algo raro para época, uma vez que os estúdios que investiam em produções de curta duração. Dessa forma Alice Guy-Blaché criou o primeiro Blockbuster da história.

https://www.youtube.com/watch?v=_RdL7-6CJ7A

Em 1907 Alice se casou com Hebert Blaché e se mudou para os Estados Unidos. Em 1910 Alice juntamente com seu marido criaram a Solax Company, o maior estúdio de cinema antes da era Hollywood. O estúdio, que ficava situado em Fort Lee, Nova Jersey, foi o responsável por grandes filmes da época como Dublin Dan (1912), Rogues of Paris (1913), Brennan of the Moor (1913), The Pit and the Pendulum (1913) e  Shadows of the Moulin Rouge (1914), e tinha em seu cast grandes nomes como Olga Petrova, Ethel Barrymore, John Barrymore e Alla Nazimova. Com a criação da Solax Company Alice Guy-Blaché se tornou a primeira mulher a dirigir um estúdio de cinema. E com a Solax Company, Alice fez história mais uma vez.

Em tempos de black-face, em 1912 Alice dirigiu A Fool and His Money . Mas o que existe de tão extraordinário nesse filme? Esse foi é o primeiro filme que se tem notícia a usar atores negros. O filme, considerado um marco e uma revolução para a época, se encontra hoje o National Center for Film and Video Preservation, do American Film Institute.

A Fool and His Money primeiro filme com atores negros de 1912 foi dirigido por Alice Guy-Blaché

Um fato interessante ainda sobre a Solax Company é que ele teve seus filmes distribuídos pela Metro Pictures Corporation que futuramente viria a se tornar a Metro Goldwyn Mayer.

Com a criação de Hollywood em meados da década de 1910, o estúdio Solax Company, começou a declinar. Na verdade praticamente todos os estúdios da costa leste dos Estados Unidos começaram a fechar devido a criação de Hollywood na costa oeste do País. Mas mesmo assim Alice conseguiu ainda dirigir na Solax Company um novo sucesso. The Ocean Waif de 1916 onde dirigiu dois grandes nomes do cinema mudo Carlyle Blackwell e Doris Kenyon. Novamente a diretora trás temas complexos na sua narrativa. Uma garota que sofre abusos de seu padrasto e vai viver um romance com um escritor novelista.

Após isso a diretora passa por uma série de problemas. Ela contrai gripe espanhola, perde um filho com rubéola, perde 4 colegas de trabalho para gripe espanhola e se separa do marido. Tudo isso junto com o fato de ser uma das únicas mulheres diretoras em atuação na época levou a diretora a declarar falência em 1920. Seu último filme que se tem notícia é Vampire do qual não se tem muitas informações. Após isso Alice voltou para França, onde com dificuldades de encontrar emprego começou a dar aulas de cinema.

Em 1956 Alice Guy-Blaché foi condecorada com a Ordem Nacional da Legião de Honra, a maior recompensa do governo francês a figuras de destaque militar ou civil do país. Até aquele momento a cineasta estava esquecida. Seu nome foi apagado da história do cinema, inclusive Léon Gaumont, que deu um voto de confiança para Alice, ao escrever um livro sobre os estúdios Gaumont omitiu a cineasta de toda a história do estúdio. Apenas em 1954 o filho de Léon, Louis Gaumont, reconheceu o papel primordial da diretora na história do cinema. E graças ao prêmio recebido por Alice em 1956, o pesquisador Victor Bachy e os críticos Georges Sadoul e Jean Mitry, se dedicaram a pesquisar e redescobrir o cinema de Alice Guy-Blaché.

Em 24 de março de 1968, aos 94 anos de idade Alice faleceu em uma casa de repouso em Mahwah, Nova Jersey. E seu trabalho foi esquecido. E seu nome retirado da história do cinema. Enquanto homens como George Méliè e os irmãos Lumière são frequentemente citados em livros sobre a história do cinema, Alice é pouco conhecida. Livros como 1001 Filmes Para Ver Antes de Morrer e The Story of Film omitem a cineasta e sua obra de suas páginas, enquanto Méliè e os Lumière estão lá.

Apenas em 1980 o nome de Alice Guy-Blaché começou a reaparecer no mundo cinematográfico, graças ao lançamento do livro de memórias da cineasta em inglês em 1986. Mas apenas em 1995 a cineasta ganhou um reconhecimento maior.

Em 1995 a cineasta canadense Marquise Lepage lançou o documentário Le jardin oublié: La vie et l’oeuvre d’Alice Guy-Blaché. No documentário através de imagens, entrevistas e cenas de seus trabalhos a diretora  contou a história de Alice Guy Blaché, revelando ela para o mundo. Um fato curioso no documentário, que mostra o quão esquecida pelo mundo cinematográfico foi Alice, é a entrevista feita com a neta da cineasta, Adrienne Blaché-Channing. Ao ser entrevistada Adrienne fala algo surpreendente e triste. Ao falar sobre a avó ela diz que até o documentário começar a ser produzido para ela Alice Guy-Blaché era apenas sua avó, uma mulher simpática que usava chapéus engraçados. Triste não? E qual o motivo para isso? A resposta é simples: Alice era Mulher!

Mas aos poucos, o papel primordial no cinema de Alice Guy-Blaché vem sendo reconhecido. Em 2008 a comissão de cinema de Fort Lee, onde era a sede do estúdio Solax Company, criou o prêmio Alice Award que é entregue anualmente em memória da cineasta. Em 2010 a Academia restaurou o curta The Girl In the Arm-Chair de 1912 e dirigido por  Alice. Em 2012, em comemoração ao 100 anos da criação do estúdio Solax Company, a lápide do túmulo de Alice Guy-Blaché, foi trocada. Em sua nova lápide se vê o símbolo do estúdio e uma homenagem a diretora.

A maior honraria recebida por Alice ocorreu em 2011. Após um pedido feito pela comissão de cinema de Fort Lee, Alice Guy-Blaché foi incluída postumamente como membro no Directors Guild of America, o sindicato dos diretores de Hollywood, em 11 de outubro de 2011. Na cerimônia, ninguém menos do que Martin Scorsese fez o anúncio.

“É a esperança e a intenção da DGA que, ao entregar este prêmio póstumo especial pela conquista de uma vida, o Sindicato poder tanto aumentar a conscientização de um diretora excepcional e dar maior reconhecimento ao papel das mulheres na história do cinema”. – Martin Scorsese

Após essa inclusão, Alice Guy-Blaché começou a ser mais reconhecida. Em 2014 o documentário Reel Herstory: The Real Story of Reel Women, de Ally Accker, destacou a história das mulheres no cinema e incluiu a cineasta no filme. Em 2015 a série documental Cinéast(e)s  destacou a obra de Alice em seu segundo episódio. Em 2016 o documentário E a Mulher Criou Hollywood, dirigido por Clara e Julia Kuperberg, revelou mais sobre a obra da diretora. E em 2019 um novo documentário sobre a diretora está previsto para sair. Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché, filme dirigido por Pamela B. Green, feito através de um financiamento coletivo, entrevistou várias cineastas e estrelas de Hollywood para falar de Alice, entre elas Jodie Foster, Patty Jenkins, Geena Davis, Ava DuVernay, e muitas outras, inclusive alguns homens como o ator Ben Kingsley.

Embora o história parece ter feito um esforço imenso para apagar Alice Guy-Blaché, começando com ela ainda viva, com o homem que deu um voto de confiança pra ela apagando seu nome do livro da história dos Estúdios Gaumont. Aos poucos tem se feito justiça para Alice. Uma Diretora, uma Cineasta, uma Roteirista, uma Mulher que escreveu e dirigiu mais de 1000 filmes, em uma carreira que durou 24 anos, a mais longa entre os pioneiros do cinema.

Infelizmente ao contrário do que acontece com Méliè e os irmãos Lumière, que tem diversos livros, matérias, filmes, documentários, sites falando sobre a sua obra e carreira, temos poucas informações sobre Alice Guy-Blaché. Mas aos poucos isso tem mudado, o site Alice Guy Blaché The Research & Books of Alison McMahan tem por objetivo resgatar a obra da cineasta. O podcast Feito Elas fez um programa especial sobre a obra da diretora. Alguns de seus filmes estão disponíveis no Youtube. Embora a história tentou apagar a importância de Alice Guy-Blaché no cinema, o tempo tem feito justiça em nome da diretora. Aos poucos seu nome tem sido reescrito na história do cinema.

Se você não conhecia Alice Guy-Blaché procure sua obra.  Se você já a conhece apresente para outros a obra dessa grande cineasta. Vamos fazer justiça para que o nome de Alice Guy-Blaché não seja esquecido nunca mais. Afinal ela é ninguém menos que A Mãe do Cinema!

Para saber de mais sobre mulheres na direção ouça nosso Podcast #247 sobre Mulheres na direção, também veja nossa lista sobre os filmes dirigidos por mulheres que chegam em 2018 nos cinemas (Parte 1 e Parte 2)

Fontes de pesquisa:

Site Alice Guy Blaché The Research & Books of Alison McMahan (para acessar clique aqui)

Coluna Papo Delas do site Papo de Cinema (para acessar clique aqui)

Site Cine Set (para acessar clique aqui)

Jornal Opção (para acessar clique aqui)

Podcast Feito por Elas (para acessar clique aqui)

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