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Notas sobre a crítica de sinopses

Por Thiago Beranger (redator no Cinema com Crítica)

11 de março de 2024, o dia seguinte ao Oscar que premiou Oppenheimer como o melhor filme da temporada passada. A rede social anteriormente conhecida como Twitter acorda repleta de manifestações revolucionárias. Os alvos? O imperialismo norte-americano, a cultura bélica dos Estados Unidos, a indústria cinematográfica de Hollywood e sua principal premiação. Tudo isso porque foi premiado “um filme americano sobre o homem branco que criou a bomba nuclear”. Evidentemente, todas essas questões e entidades são passíveis de muitas e muitas críticas. Mas o ponto não é esse.

Diante da necessidade de ser literal para ser bem compreendido, é bom começar este texto deixando muito claro qual é o ponto: um filme (ou qualquer obra de arte) não pode e não deve ser limitado ao seu tema.

Se fôssemos traçar um rápido panorama com alguns dos principais concorrentes ao Oscar 2024 apenas por suas sinopses ou perfil demográfico de seus realizadores, teríamos:

Um filme realizado por um americano, branco, idoso, de ascendência italiana sobre uma gangue de homens brancos que matavam indígenas por dinheiro. Um filme de um realizador branco, europeu, que envolve a violação do cadáver de uma mulher e a mutilação de um bebê recém-nascido. Um filme sobre uma família de nazistas que vive em uma mansão ao lado do maior campo de concentração alemão no período da Segunda Guerra Mundial. Um filme sobre um bando de adolescentes milionários, cujo maior problema é passar o Natal no conforto de um internato aos cuidados de um professor chato, sendo servidos por uma mulher negra que trabalha como cozinheira. Um filme sobre uma boneca branca e loira que vive em um mundo cor-de-rosa.

Dá para fazer uma análise rasa e enviesada sobre vários dos indicados, relegando-os a uma posição ideológica complicada. Basta uma boa dose de má vontade e pouca educação audiovisual. Nenhum desses filmes se limita aos seus temas. Todos possuem nuances e complexidades que são trabalhadas a partir das narrativas construídas pelos realizadores através da linguagem do cinema.

Filmes podem e devem ser criticados por seus vieses ideológicos. Como toda manifestação do pensamento humano, o cinema também é político. É importante que a crítica também dê conta de refletir sobre as mensagens ideológicas que são transmitidas através das narrativas cinematográficas e suas repercussões no mundo. Mas a posição ideológica de um filme não está intrinsecamente ligada ao seu tema. Muitas vezes isso sequer se reflete no texto do roteiro do filme. A linguagem do cinema é audiovisual. Nós, espectadores, só temos contato com o texto através de imagens e sons, que podem muito bem contradizer o enunciado. A maneira como determinada cena é filmada diz tanto quanto ou mais do que as falas proferidas pelos personagens. Aí está uma questão central do problema. Não estamos preparados para ler e interpretar a linguagem audiovisual corretamente, mesmo sendo essa a linguagem predominante dos nossos tempos.

É importante também pensar que a história do cinema é de fato majoritariamente construída através do ponto de vista do homem branco ocidental e que o espaço precisa ser aberto para novos olhares ocuparem. Premiações como o Oscar são importantes dentro dessa perspectiva. É natural que haja uma torcida para que filmes ou artistas que fujam desse padrão possam ser reconhecidos e premiados. Pessoalmente, torci muito para que Lily Gladstone levasse ontem a estatueta de Melhor Atriz por conta dessa questão. Mas reconhecer esses privilégios históricos não dá a ninguém o direito de desqualificar o trabalho de artistas talentosos e importantes. No ano passado, por exemplo, Steven Spielberg e seu Os Fabelmans foram amplamente atacados por conta da superficialização desse debate. Da mesma forma, Scorsese, este ano, mesmo Assassinos da Lua das Flores sendo um trabalho que coloca em cheque a construção da sociedade americana e a própria representação que o cinema deu historicamente à tomada do Oeste.

Então, querido leitor, não confunda este texto com uma defesa da vitória de Oppenheimer na premiação de ontem. Essa nem era minha torcida. Minha torcida era para Anatomia de Uma Queda, se te importa saber. Também não pense que eu considero que o cinema deva ser descolado da sociedade e de suas questões, ou que eu acredite que o Oscar não é de fato uma premiação essencialmente racista por diversos fatores. Não é nada disso. O que eu defendo é que o cinema seja discutido para além dos temas. Para que a crítica ajude a pensar sobre a complexidade que cada obra pode oferecer, inclusive as políticas/ideológicas, e não ofereça uma visão superficial baseada na literalidade de leituras rasas.

Oppenheimer tem muito mais a oferecer do que o seu tema, inclusive para se criticar. Existem por aí excelentes textos que refletem sobre o filme a partir de um viés ideológico e chegam a conclusões negativas sobre ele. Assim como existem bons textos que enxergam problemas em Ficção Americana, um filme que, pela sinopse, parece estar bem alinhado a valores progressistas. Há uma variedade imensa de pontos de vista possíveis sobre cada um dos filmes que concorreram à premiação ontem e todos podem ser explorados. Mas assim como não é interessante que se julgue um livro pela sua capa, não devemos nos tornar críticos de sinopse. Esse tipo de simplificação, apesar de “hitar” mais fácil no Twitter, é altamente desrespeitosa com as obras e com os artistas envolvidos.

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Leia outro texto do autor: “A morte da fantasia no cinema hollywoodiano

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