Crítica | Sem Amor (Loveless)
Sem Amor (Loveless)

Crítica | Sem Amor (Loveless)

Sem Amor (Loveless), representante da Rússia no Oscar 2018 relata um problema sintomático do tempo que retrata

Ficha técnica:

Direção: Andrey Zvyagintsev
Roteiro: Oleg Negin, Andrey Zvyagintsev
Elenco: Maryana Spivak, Aleksey Rozin, Matvey Novikov,  Natalya Potapova
Nacionalidade e lançamento: Rússia, 2017 (8 de Fevereiro de 2018 no Brasil)

Sinopse: Zhenyae Boris estão atravessando um divórcio conturbado, marcado pelo ressentimento, pela frustração e por recriminações. Já começando novas vidas, cada um com um novo parceiro, eles estão impacientes para começar de novo, para virar a página – mesmo que isso signifique algumas ameaças de abandonar o filho de 12 anos,Alyosha. Até que, após testemunhar uma das brigas,Alyosha desaparece.

Loveless

*Texto publicado originalmente em minha cobertura da 41ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo para o site Nervos. Para ler a cobertura completa, clique aqui


Se em meu texto de Feio expressei um temor pela vida de uma criança que seria “trazida a um mundo de dificuldades e angústia, habitado por pessoas infelizes”, pude ver esse receio ser concretizado neste Loveless, retrato cruel e doloroso do russo Andrey Zvyagintsev – diretor do indicado ao Oscar Leviatã – sobre a falta de conexão, compaixão e humanidade enraizados na sociedade russa mas ocultos por uma faixada superficial de unificação, promovida por redes sociais e até mesmo conexões empresariais.

Zvyagintsev e seu diretor de fotografia Mikhail Krichman adotam uma abordagem narrativa de contemplação, que se inicia com acordes sistemáticos de piano enquanto registram um rio e os galhos das árvores cobertas pela neve do gélido clima russo. O crescendo das notas que acompanham tais imagens culmina no desconforto e instala a sensação de urgência, prenunciando o pior que está por vir antes mesmo de que saibamos exatamente qual é ou de onde vem. Após estes créditos, presenciamos a saída do jovem Alyosha, de 12 anos, de sua escola. O diretor acompanha o percurso do garoto, que não parece ter pressa para voltar para casa. Introspectivo, ele sobe nestes galhos e explora o mundo ao seu redor.

Sem Amor (Loveless)

O medo dos males futuros de Feio é refletido aqui já num ponto crítico: nos estados finais do divórcio de Zhenya (Maryana Spivak) e Boris (Aleksey Rozin), um casal de classe média que claramente despreza um ao outro. Ambos estão ao ponto de estabelecerem uma nova vida. Ele, num relacionamento claramente problemático com uma jovem que engravidou. Ela, com um senhor mais velho e bem endinheirado. O único empecilho é justamente Alyosha, o filho do casal. Fica claro em uma das discussões entre Zhenya e Boris que nenhum dos dois possui a mínima intenção de ficar com o garoto (e nesse sentido, o filme é um contraponto temático curioso à Custódia , vencedor do prêmio da crítica de melhor filme internacional na 41a Mostra de São Paulo), empurrando-o um para o outro com desculpas esfarrapadas. “Você é a mãe, ele precisa de você.”, diz o pai; “O mandarei para o internato até que ele esteja velho o bastante para ir para o exército”, fala a mãe”. São declarações crueis de pessoas que vêem sua prole como um impecílio em suas vidas.

E é essencial, então, que comecemos essa história ao lado do jovem Alyosha, já que, à partir de um tempo, passamos à acompanhar o cotidiano de seus pais. Boris luta para conseguir uma posição boa em seu emprego e para que seu chefe – religioso – não note que ele está num processo de divórcio, confortando sua jovem namorada nos estágios finais de sua gravidez no processo. Zhenya dedica-se a seu namorado mais velho, demonstrando uma vivacidade não vista no resto da projeção. É acompanhando Zhenya, inclusive, onde podemos ver melhor o que houve de errado. Enquanto Boris é um homem de poucas palavras e trata sua namorada como uma criança, dizendo frases baratas para amenizar a insegurança da pobre garota mas apenas refletindo a sua própria nestas tentativas, Zhenya se abre totalmente para seu confidente.

Após uma cena de sexo sensual e intensa, a mãe desabafa para seu confidente, sobre Alyosha, fruto de uma gravidez indesejada. “Eu nunca o quis. Ele quase me matou. Fiquei quase 24 horas em trabalho de parto. Quando o trouxeram pra mim, eu não conseguia nem olhar para ele. Tudo que eu via no desgraçado era o rosto do pai dele”. O desabafo da mãe choca tanto por ser dito em um momento plenamente íntimo, sereno, de forma calma e numa nudez que evidencia a transparência de Zhenya, sem máscaras, que possui entre os motivos de seu ódio pelo próprio filho o simples fato de ele ter nascido de forma complicada. Da mesma forma, é nesta cena que os evidentes paralelos e raízes do problema são traçados, na cena que dá o título ao filme: “Eu nunca amei ninguém. Apenas minha mãe, quando eu era mais nova. Ela era tão má comigo… uma vadia má e solitária”. A tragédia dessa declaração, é claro, se dá no fato de que Zhenya é também uma péssima mãe, tratando Alyosha com indiferença e glacialidade, ressaltando essa natureza cíclica da desumanidade. O celular da mãe se torna quase um personagem, visto que ele está presente na maioria das cenas na mão da mulher, que exibe sua felicidade fabricada no instagram.

Quando os espectadores -e os pais – se dão conta de que Alyosha não está mais presente na narrativa, já é tarde demais, e o garoto simplesmente desapareceu. Não se sabe se ele fugiu ou foi sequestrado, mas, decorrente do que presenciamos até então, não fica muito difícil de imaginar motivos. Ao decorrer de Loveless, seu diretor nos apresenta, de forma descarada, os sinais de uma corrupção que não é só emocional. A polícia de Moscow é burocrática nas tentativas de achar o garoto. As rádios anunciam o clima de apocalipse (o filme é ambientado em 2012) e incerteza política. A real tragédia de Loveless decorre de sua triste obviedade. Inicialmente apresentado como uma criança introspectiva e revoltada, não demora para que entendamos o porquê da criança ser assim. A real pergunta é: quem não desapareceria num alicerce desses?

Já que Custódia foi mencionado, há, ao final de ambas as produções, um esgotamento similar. No filme francês, tal exaustão era decorrente da tensão construída diante da situação grotesca que presenciávamos. Em Loveless, no entanto, ela vem através do desamparo, da frustração, da cada vez mais sólida sensação de que a busca por Alyosha é em vão. Ao mesmo tempo, é curioso perceber como o desespero de Zhania parece surgir não por preocupação com seu filho, mas sim por motivos puramente narcisistas que envolvem sua “eficiência” como mãe. Boris sequer menciona para sua namorada o desaparecimento, já que ele ocultou dela o fato de que tinha um filho.

Loveless é um filme poderoso, com imagens fortes e simbólicas, como aquela em que vemos Boris desolado, chorando encostado em uma parede deteriorada que reflete o estado emocional no qual se encontra – seja na relação com Zhania ou Alyosha- até o plano que talvez seja o mais assustador e marcante da obra: a de Alyosha (Matvey Novikov, sensacional) chorando descontroladamente, enquanto a porta do banheiro se fecha – revelando que ele esteve presente durante uma discussão de seus pais.

Loveless termina – ao mesmo tempo – de forma pessimista e cíclica, revisitando os galhos secos, decorrentes da frieza natural do ambiente no qual foram impostos que vimos no início. Galhos que representam uma árvore genealógica de frieza tão característica dos esteriótipos russos, mas que retratam uma história que poderia ter acontecido em qualquer lugar.É um filme que te esgota, que rouba sua força vital não através da tensão, mas do desamparo. Se Alyosha é encontrado ou não, no final, não importa. Ele é um sintoma, desde sempre um fantasma, um equívoco, e essa constatação vem no meio da projeção, quando nos ocorre de que o garoto nem ao mesmo chegou a existir.

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