Livros, personagens, filmes: quando eles se misturam – Parte I - Cinem(ação): filmes, podcasts, críticas e tudo sobre cinema
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Livros, personagens, filmes: quando eles se misturam – Parte I

Livros e cinema. Uma relação profunda e com ótimos resultados. Seja nas adaptações de livros, ou, mais especificamente, de filmes onde alguma personagem esteja envolvida com leitura e livros.

O assunto parece repetitivo: literatura e cinema, entretanto, não o é. E por que esse assunto? Porque ele é instigante, porque sempre há algo para debater e pesquisar, além de termos vários filmes que são adaptados desde os primórdios do cinema, muitos deles premiadíssimos, deixando assim, esse assunto muito interessante.

A literatura sempre foi uma pródiga fonte de histórias e na atualidade temos diversas sagas literárias adaptadas que fazem sucesso e atraem cada vez mais o público jovem tanto para o cinema quanto para o livro. Muito já se escreveu por aqui sobre esse assunto (e muito mais será escrito!), até temos um texto por aqui que já tratou de como adaptar para o cinema.

Da mesma forma que uma adaptação pode frustrar um leitor da obra, é possível também que aconteça o contrário. No cinema corre-se o risco de que o produto reelaborado perca em relação ao original.

No entanto, às vezes, o material original apresenta-se com qualidade inferior ou medíocre, porém ao ganhar o suporte visual da tela, o filme cresça e resulte num material bem melhor que o livro. Raro, mas pode acontecer.

De qualquer forma, as adaptações podem trazer resultados positivos para a literatura, que pode ganhar uma projeção muitas vezes internacional com a adaptação cinematográfica.

Muito vem se falando da importância da formação do leitor, de como construir um leitor crítico, como desenvolver o gosto pela leitura, já que ela contribui para formação do cidadão, contribuindo para o crescimento e evolução do mundo.

Visto que a leitura é o processo em que um leitor atribui significado a um determinado texto, não é apenas uma atividade de decodificação dos códigos linguísticos, é preciso entender o que se lê. Formar um leitor passa inevitavelmente pela leitura de livros, de imagens e do seu cotidiano com seu acervo cultural, que lhe dará visão de mundo.

Para que ler? Ler por prazer, ler para estudar, existem vários motivos para ler. Ler para crianças, por exemplo, estimula momentos de imaginação, magia e fantasia. Carlos Drummond de Andrade já disse que “a leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade não sente esta sede”. Já Affonso Romano de Sant’anna diz que “todo mundo é leitor, mesmo os que não sabem ler”.

Assim, ao invés de falar de filmes que viraram livros, falaremos de filmes onde as personagens de alguma maneira, interagem com os livros, seja como leitores ou escritores.

Como o texto ficou longo, ele foi dividido em duas partes (já sabe disso). Então, vamos começar!!!

 

 

A HISTÓRIA SEM FIM, de 1984.

Direção: Wolfgang Petersen

Elenco: Barret Oliver: Bastian; Alan Oppenheimer: Falkor / G’mork / Narrator; Darryl Cooksey: Bully (2°); Deep Roy: Teeny Weeny; Drum Garrett: Bully (1°); Gerald McRaney: pai de Bastian; Moses Gunn: Cairon; Nicholas Gilbert: Bully (3°); Noah Hathaway: Atreyu; Patricia Hayes: Urgl; Sydney Bromley: Engywook; Tami Stronach: The Childlike Empress; Thomas Hill (I): Koreander; Tilo Prückner: Night Hob

Fantasia

Bastian é um garoto que usa sua imaginação como refúgio dos problemas do dia-a-dia, como as provas do colégio, as brigas na escola e a perda de sua mãe. Um dia, após se livrar de alguns garotos que insistem em atormentá-lo, ele entra em uma livraria.

Lá o proprietário mostra um antigo livro, chamado A História Sem Fim, o qual classifica como perigoso. O alerta atiça a curiosidade de Bastian, que pega o livro emprestado sem ser percebido. A leitura o transporta para o mundo de Fantasia, um lugar que espera desesperadamente a chegada de um herói.

Enquanto Bastian lê as aventuras de Atreyu, qual não é a sua surpresa ao descobrir que o herói que poderia salvar Fantasia era ele mesmo, pois o próprio livro diz isso a ele com todas as palavras.

 

MATILDA, 1996

Direção: Danny DeVito

Elenco: Mara Wilson: Matilda Wormwood; Danny DeVito: Harry Wormwood; Rhea Perlman: Zinnia Wormwood; Embeth Davidtz: Jennifer ‘Jenny’ Honey; Pam Ferris: Agatha Trunchbull; Paul Reubens: FBI Agente Bob; Tracey Walter: FBI Agente Bill; R.D. Robb: Roy.

Matilda Wormwood é uma criança brilhante de apenas seis anos, superdotada de inteligência, gênia em matemáti

Matilda

ca e cheia de apetite por conhecimento, que cresceu em meio a pais grosseiros e ignorantes. Seu pai Harry trabalha como vendedor de carros, enquanto que sua mãe Zinnia é dona de casa. Ambos ignoram a filha e Matilda fica sempre em casa ou na livraria, onde costuma estimular sua imaginação.

A trama conta com uma série de efeitos especiais e aborda temas pertinentes ou polêmicos, como, uma família totalmente desvirtuada, ou fugindo dos padrões. Também se destaca o poder que Matilda tem, que, além do dom natural, tem o aperfeiçoamento da inteligência, já que ela aprende tudo sozinha indo à biblioteca e lendo o que encontra pela frente.

 

 

[email protected] PARA VOCÊ, 1999.

Direção: Nora Ephron

Elenco: Tom Hanks: Joe Fox; Meg Ryan: Kathleen Kelly; Parker Posey: Patricia Eden; David Chappelle: Kevin Jackson; Steve Zahn: George Pappas; Dabney Coleman: Nelson Fox; Greg Kinnear: Frank Navasky; Heather Burns: Christina Plutzker.

O romântico filme é sobre duas pessoas em um namoro por correspondência que não sabem qdebateue eles também são rivais nos negócios. Proprietária de uma pequena livraria, Kathleen praticamente mora com seu noivo mas o “trai” através da internet com um desconhecido, pois todo dia ela manda pelo menos um e-mail para ele.

Seu misterioso amigo também faz o mesmo e passa pela mesma situação: “infiel” com sua noiva. De repente, a vida dela abalada com a chegada de uma enorme livraria, que pode acabar com um negócio que da sua família há 42 anos, e ela passa a não suportar um executivo que comanda esta mega livraria, sem imaginar que o mesmo homem com quem ela conversa pela internet.

Há fortes influências de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, que também pode ser visto na relação entre Joe Fox e Kathleen Kelly, numa referência apontada por essas personagens realmente discutindo Mr. Darcy e Miss Bennet no filme.

 

 

BALZAC E A COSTUREIRINHA CHINESA, 2001.

Direção: Dai Sijie

Elenco: Zhou Xun: a costureirinha chinesa; Kun Chen: Luo; Liu Ye: Ma

A história de se passa no fim da década de 60, quando o líder chinês Mao Tse-Tung lança uma campanha que mudaria radicalmente a vida do país – a Revolução Cultural. Entre outras medidas drásticas, o governo expurga das bibliotecas obras consideradas como símbolo da decadência ocidental.

Mas, mesmo sob a opressão do Exército Vermelho, uma outra revolução explode na vida de Luo e Ma, dois jovens de 17 anos que, em plenos anos 70, vivem na China comandada por Mao Tsé-Tung. Os dois são encarados como sendo inimigos do povo. Luo e Ma são então presos e encaminhados a um “campo de reeducação”, em uma vila isolada no Tibet.

Todos os livros de Luo são queimados, mas Ma consegue manter seu violino ao alegar que Mozart compunha para o Presidente Mao.  Ao abrirem uma velha e empoeirada mala, eles têm as suas vidas invadidas por Balzac, Dumas, Flaubert, Baudelaire, Rousseau, Dostoievski, Dickens…Os livros proibidos!

Livros proibidos

O filme funciona como uma crônica da vida na China durante a revolução de 68. Um romance sobre a felicidade da descoberta da literatura, a liberdade adquirida por meio dos livros e a fome insaciável da leitura, numa época em que as universidades foram fechadas e os jovens intelectuais mandados ao campo para serem ‘reeducados por camponeses pobres’.

Uma das cenas emblemáticas é a reunião que a costureirinha faz com as outras camponesas e elas experimentam sutiã, maquiam-se, colocam sapatos e vestidos que elas mesmas costuraram.

Diferentemente da Queima de sutiãs, 1968,  protesto público, com a participação de cerca de 400 ativistas onde  dispuseram no chão do local do evento sutiãs, sapatos de salto alto, cílios postiços, sprays de laquê, maquilhagens, revistas femininas, espartilhos, cintas e outros objetos que simbolizavam a beleza feminina.

No filme, o livro de Balzac Ursule Mirouët, desnudam aos adolescentes uma realidade que nunca haviam imaginado – é por intermédio do mundo novo além das fronteiras chinesas e dos grandes mestres da literatura que o narrador Luo e a Costureirinha compreendem que suas vidas pertencem a algo muito maior.

 

 

AS HORAS, de 2002.

Direção: Stephen Daldry

Elenco: Nicole Kidman: Virginia Woolf; Julianne Moore: Laura Brown; Meryl Streep: Clarissa Vaughan; Allison Janney: Sally Lester; Ed Harris: Richard Brown; Claire Danes: Julia Vaughan; Toni Collette: Kitty; Eileen Atkins: Barbara (in the flower shop).

O filme conta a história de três mulheres de gerações diferentes cujas vidas são entrelaçadas pelo romance Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, que tem como tema principal o acompanhamento de um dia na vida de uma mulher: Clarissa Dalloway, dama da aristocracia inglesa, que esconde seus problemas numa fachada de mulher deslumbrante, cuja principal atividade é promover festas.Dolloway

Algo parecido com o que vivenciam as outras duas mulheres do filme. Então temos:  Clarissa Vaughn, uma editora nova-iorquina que prepara uma festa de comemoração pelo prêmio literário recebido por seu amigo de longa data, Richard, que sofre de AIDS, em 2001; Laura Brown, uma dona de casa grávida que tenta sustentar um casamento infeliz em Los Angeles, no ano de 1950; e a própria Virginia Woolf, que vive no interior da Inglaterra com seu marido, em 1923, e tenta escrever seu livro enquanto sofre de depressão e é atormentada por ideias suicidas.

A escritora inglesa Virginia Woolf era uma mulher de personalidade conturbada, além de ser constantemente atormentada por crises psicóticas. Talvez por ter que lutar para viver dignamente cada hora de sua vida, este foi o tema mais recorrente em sua obra.

Os leitores acompanham cada momento vivido por aqueles que habitam o mundo criado pela escritora.

 

 

MAIS ESTRANHO QUE A FICÇÃO, de 2006.

Dirigido: Marc Forster

Elenco: Will Ferrell: Harold Crick; Emma Thompson: Karen Eiffel; Maggie Gyllenhaal: Ana Pascal; Dustin Hoffman: Dr.Jules Hilbert; Queen Latifah: Penny Escher; Tony Hale: Dave.

Conta a história de Harold Crick, um fiscal da Receita, encarregado de fazer auditorias em empresas que não pagam os impostos em dia.ficção

Paralelamente à história de Harold Crick, temos uma segunda história no filme, que é sobre uma autora chamada Karen Eiffel que está passando por um bloqueio e não consegue finalizar seu livro: como matar o personagem principal?

Se você for atento perceberá já nos primeiros minutos que Karen é a autora, e Harold Crick é o seu personagem (e isso não é spoiller), pois a voz que narra a vida dele é a da Karen, e nas cenas que ela aparece não há narração, então a dedução é muito óbvia.

Harold Crick é uma personagem existe de verdade (dentro do filme), e Karen de uma certa forma se “apossa” da vida dele quando começa a escrever o seu livro, mesmo sem saber. Então agora o personagem principal precisa encontrar a autora.

 

CORAÇÃO DE TINTA – O LIVRO MÁGICO, 2008.

Direção: Iain Softley

Elenco: Brendan Fraser: Mortimer ‘Silvertongue’ Folchart; Eliza Bennett: Meggie Folchart; Paul Bettany: Dustfinger; Helen Mirren: Elinor Loredan; Jim Broadbent: Fenoglio; Andy Serkis: Capricorn; Jennifer Connelly: Roxanne; Rafi Gavron: Farid.

O próprio título revela o quanto o livro é importante dentro do filme, ainda mais sendo baseado em livro homônimo, escrito por Cornelia Funke e publicado em 2003.

Toda a fantasia de Coração de Tinta é baseada em fatos de livros, fantasia e imaginação cuja história lança um pai dedicado e sua filha numa jornada através de diversos mundos – reais e imaginários. Temos no filme Mortimer “Mo” Folchart e sua filha Meggie, de 12 anos, apaixonados por livros.

Inkheart

Desde pequena Meggie teve o hábito de leitura estimulado pelo pai, que trabalha como encadernador de livros. Além disto eles têm o poder de trazer à vida personagens dos livros caso o leia em voz alta, só que sempre que isto acontece uma pessoa real é inserida nos livros. Até que um dia, ao passear por um sebo, Mo ouve vozes de “Coração de Tinta”, um livro que não lhe traz boas recordações.

Sua história possui castelos medievais e estranhas criaturas, com este universo tendo aprisionado a mãe de Meggie, Theresa, quando ela tinha apenas três anos. Mo sempre desejou encontrar o livro e salvar a esposa, mas agora precisa lidar também com o sequestro de Meggie por Capricórnio, que deseja dar vida a diversas criaturas malignas.

O próprio Roland Barthes pergunta em “Escrever a leitura” (1984: p.27) se “nunca vos aconteceu, ao ler um livro, interromper constantemente a vossa leitura, não por desinteresse, mas, pelo contrário, por afluxos de ideias, de excitações, de associações? Numa palavra, não vos aconteceu lein r levantando a cabeça?”.

 

Por enquanto para por aqui. Há muito mais a ser escrito, mas fica para o próximo texto! Até!!!

 

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