Entrevista: Cristiano Calegari, Diretor e Roteirista do longa “Bia (2.0)”

Entrevista: Cristiano Calegari, Diretor e Roteirista do longa “Bia (2.0)”

Um dos futuros do nosso Cinema Nacional, com apenas 23 anos, nasceu e cresceu em São Paulo é pós-graduado em Roteiro de Ficção Audiovisual e Bacharel em Cinema pela Universidade Anhembi Morumbi. Estamos aqui hoje com Cristiano Calegari, Roteirista, Produtor, Diretor, professor de Roteiro, e Sócio-Diretor da Fat Bear Produções no qual fundou a sua com mais três sócios em 2017.

Além de Curtas Premiados como White Rose (2015) e Temphorário (2014), Calegari é o criador da série Os Veteranos, em fase de desenvolvimento, e também dirigiu e roteirizou parte da segunda temporada da série Buscando Buskers do Canal Sony.

Agradeço aqui o tempo cedido pelo cineasta. Seja bem-vindo ao espaço do Cinem(ação).

 

Agora que sabemos quem é o ‘’Cris’’, nos apresente Bia (2.0) e fale um pouco do que se trata o seu Longa.

Cristiano Calegari: Bia (2.0) é o primeiro Longa da Fat Bear Produções, produtora na qual exerço a função de Sócio-Diretor desde sua fundação no ano passado. O filme é um romance leve voltado especialmente para o público infanto-juvenil, e conta a história da Bia, uma menina que está se tornando mulher e adquirindo sua própria personalidade e força para correr atrás de seus sonhos.

 

Qual foi o processo de criação da personagem e como filme? Foi concebido de um curta, por isso o 2.0 no título??

Cristiano Calegari: O processo de criação foi muito diferente de qualquer outro que já tive. A história é inspirada em fatos reais que ocorreram na minha vida, na do outro diretor Lucas Zampieri, e de pessoas próximas a nós. Todo o núcleo que criamos dos jovens que fazem trabalho voluntário como palhaços é semelhante a uma trupe da qual eu e o Lucas fizemos parte em 2015.

No início eu não tinha muito claro se a história da Bia daria um longa, por isso gravei com amigos um curta-metragem em Janeiro de 2017 chamado Plano Sequência, mais como um exercício do que com qualquer intuito comercial. Nesse curta pude ver quais caminhos poderia explorar para a personagem Bia no longa, além de garimpar alguns talentos para o filme. A Ana Murari (Naty no longa) fez a Bia no curta; e o Leonardo Silva (Fabiba no longa) havia feito o ex namorado, Rô.

O 2.0 na verdade diz respeito à transformação pela qual a Bia passa ao longo do filme, e também representa a idade dela no final da história: 20 anos.

Bom, por esta proposta na temática, e em sua série em desenvolvimento Os Veteranos, podemos esperar trabalhos voltados para o público juvenil e jovem adulto? É uma decisão por não haver tantos no País ou o Cristiano realmente gosta e tem facilidade em escrever sobre?

Cristiano Calegari: Escrever sobre jovens é muito gostoso pra mim, e também é um lugar onde me sinto muito à vontade – afinal, sou uma pessoa jovem. Acredito que independente do que o mercado precisa, cada realizador(a) deveria contar as histórias que quer contar, ou seja, fazer um filme que ele ou ela gostaria de assistir. Eu sou apaixonado por temáticas jovens e devo escrever sobre esse universo mais algumas vezes. Nos EUA é muito comum terem roteiristas especializados em gênero policial, ou em dramas médicos, ou em comédias românticas. Não vejo com maus olhos a possibilidade de embalar vários trabalhos destinados ao público jovem.

 

Realmente você é muito novo! E fazendo parte e escrevendo neste nicho, você tem como referência quais diretores??  Quais obras mais inspiram o seu trabalho?

Cristiano Calegari: Sou fã da obra do Christopher Nolan, e do irmão dele Jonathan Nolan como roteirista. Os filmes da Pixar costumam ter ótimos roteiros, com várias camadas, que conseguem atingir crianças e adultos de formas diferentes. Aqui no Brasil acompanho bastante o trabalho da Laís Bodansky e do José Padilha, e entre os roteiristas principalmente o Luiz Bolognesi e o Pedro Aguilera. Fora o pessoal que escreve para televisão. Tem muita gente boa surgindo no cinema nacional. O que complica para um autor construir uma filmografia por aqui é a média de três a seis anos que cada projeto leva pra sair do papel.

 

Se puder destacar, qual a importância de Bia (2.0) nesta inevitável passagem do jovem e a comum tsunami de problemas e dúvidas, para a dura e sem piedade vida adulta?

Cristiano Calegari: Não quero entregar muito do filme aqui, mas acho que temos algumas mensagens que podem servir aos adolescentes e jovens que assistirem. Uma é de que as vezes algumas coisas terminam, mas é o melhor para nós – e outras coisas melhores nascem no lugar daquela anterior. Outra é mais relativa ao trabalho voluntário em si: que não é só bom para quem recebe, mas também faz muito bem a quem está praticando a boa ação.

 

Pelas Redes Sociais da Fat Bear, da pra ver não só o carinho com o próprio trabalho, mas entre toda a Equipe. Além do Lucas Zampieri (Diretor do Longa), vocês já trabalharam juntos?? Já se conheciam antes de Bia nascer?

Cristiano Calegari: Sim. Essa equipe do longa “Bia (2.0)” foi uma mescla entre pessoas que estudaram comigo na universidade (Anhembi Morumbi), além de alguns colegas de Pós-graduação (Senac São Paulo), e profissionais novos que chegaram até nós através de alguma indicação ou pelo nosso site, redes sociais, etc.

Eu e o Lucas Zampieri nos conhecemos há seis anos. Nós estudamos juntos no curso de cinema da Anhembi, e lá realizamos pelo menos quatro curtas-metragens em parceria. Depois que nos formamos em 2014, eu fui fazer pós em roteiro e ele foi estudar no Canadá por um ano e meio. Mas sempre mantivemos contato (tanto que no primeiro semestre de 2017 escrevi um curta que ele dirigiu lá em Vancouver, chamado On Time). Convidei o Lucas para dirigirmos juntos esse filme porque sabia que aquela história tem um significado para ele, assim como tem pra mim.

O garoto Calegari, dedicado e premiado por Curtas, sentiu muito o impacto nesta mudança para o Longa-metragem?

Cristiano Calegari: Bom, fácil a gente já sabia que não ia ser rs. É um passo que já vinha me preparando para dar, mas realmente são muitas diferenças. O principal na minha opinião é o volume de trabalho, e com isso o desgaste emocional. Para quem está acostumado a gravar durante um final de semana ou ter até cinco, seis diárias no máximo, ter que gravar um longa em quinze dias é bem puxado. Mas toda a equipe suportou bem esse processo.

Bia (2.0) teve um baixo orçamento, até porque vocês não contaram com Editais ou dinheiro Público, certo? Com isso, creio que tiveram que priorizar algumas coisinhas na hora da produção e sacrificar outras. Quais foram os 2 setores que injetaram mais a verba que possuíam?

Cristiano Calegari: Certo, nós não contamos com nenhum tipo de dinheiro incentivado, só “dinheiro bom” (como chamam os investimentos diretos de empresas e pessoas físicas).

Em termos absolutos de quantidade de verba, seriam o Elenco e a Equipe. Mas se formos pensar no tempo investido, considerando pesquisa, leituras e reescritas, investimos mais no Roteiro.

 

Foi você mesmo que fez o Casting?

Cristiano Calegari: Sim, acho que o processo de Casting é determinante para qualquer filme e faz toda a diferença. Sempre gostei de selecionar elenco e acho que fui muito feliz nas escolhas para esse projeto em particular. Foi o melhor elenco que já tive a alegria de formar nesses primeiros anos de carreira.

 

A protagonista Maju Souza, de trabalhos excelentes como O Outro Lado do ParaísoCora Coralina: Todas as Vidas e no recente As Duas Irenes, junto ao premiado Ghilherme Lobo de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, da minissérie Ligações Perigosas e da novela Sete Vidas, nomes fortes e em clara ascensão, já eram objetivos desde o começo para você?

 Cristiano Calegari: Em relação à Maju, fui conhecer o trabalho dela em meados de Setembro do ano passado, quando assisti As duas Irenes nos cinemas. Depois disso, pesquisei os outros filmes que ela havia feito e vi que valeria a pena convidá-la, mesmo ela tendo que vir de Brasília para São Paulo só para gravar o nosso filme.

O Ghilherme eu já conhecia devido ao nosso projeto de série Os Veteranos, que está em desenvolvimento e o Ghi faz parte também. Já sabia que gostaria de contar com ele no filme de alguma forma, e felizmente ele abraçou o projeto e topou dar vida ao Dan, coprotagonista e par romântico da Bia.

Acho que é essencial para um diretor fazer o casting, sentir que pode moldar aqui e se sentir em conexão ali, podendo assim, extrair ainda mais deles. Mas para um Roteirista, deve ser algo muito, mas muito prazeroso, esse primeiro teste com as suas personagens, não é? Vê-las ganhar vida deve ser demais.

Cristiano Calegari: É um processo delicioso. Mas em um primeiro teste a gente acaba vendo mais quais possibilidades o ator ou a atriz vai trazer para a personagem, com o que a gente pode trabalhar, sabe?

Nas leituras com o elenco todo é onde começamos a ver as personagens criarem vida. Porque aí já temos um ritmo; não sou mais eu batendo texto com um ator ou uma atriz. Aí vem os ensaios, onde as interpretações ganham mais profundidade e humanidade. Nesse filme pudemos contar com o preparador de elenco Gui Dantas, que já conheço desde 2011, e que fez um excelente trabalho com cada um ali.

E complementando: sim, para nós, roteiristas, é mais especial ainda. A Silvia Seles que escreveu o longa comigo ficou igualmente emocionada com o que os atores trouxeram para as personagens criadas por nós. Muitas vezes eles vem com ideias que nós nem imaginávamos, e melhoram ainda mais o que já estava no roteiro.

Pré-produção, Produção e Pós-produção, ver a magia acontecendo e tudo saindo do papel pode trazer muito prazer e com ele, dor de cabeça e ansiedade. Tem quem ame e odeie cada processo cinematográfico. O Cristiano Calegari é um entusiasta de qual delas?? Por quê??

Cristiano Calegari: A pré é um processo muito tenso, porque você sabe que vai ditar todo o resto. Mas obviamente é super importante, porque não tem como chegar pra gravar um longa-metragem sem uma pré-produção minimamente organizada.

A produção é muito empolgante, mas ao mesmo tempo é o mais desgastante – mentalmente e fisicamente. São muitas horas no set e planejando outras diárias fora dele, e poucas horas de sono ou tranquilidade. A adrenalina é muito grande. Chegando agora ao final das gravações, percebo que a equipe deu tudo de si, estamos bem cansados, mas acima de tudo, felizes.

Já a pós-produção é um processo mais espaçado normalmente, e muito delicado. Porém, se você crê que cumpriu bem as etapas anteriores, não há razão para desespero. Por mais que você olhe para o material e tenha que reinventar o filme de novo – afinal, com isso nós estamos acostumados. O roteiro é reescrito constantemente, até o corte final do filme.

Se fosse pra escolher um momento do processo, é o final, quando o filme está pronto para ser lançado rs.

Qual a maior dificuldade que vocês da Fat Bear encontram no Cenário Brasileiro??

Cristiano Calegari:  Acredito que nossa grande dificuldade no Brasil seja formar um público consumidor de cinema brasileiro e de séries brasileiras. Nos últimos anos temos visto produções de muita qualidade, que não devem nada a ninguém – mas são pouco vistas por aqui. Temos que mudar a imagem de que o cinema brasileiro é favela e chanchada. Porque se forem olhar dados dos últimos anos, não é mesmo. Porém essas informações não estão chegando ao público geral.

Após os Festivais, vocês planejam ir para o Cinema ou direto para o Streaming??

Cristiano Calegari: Estamos negociando com distribuidoras para irmos para cinema, televisão e streaming. Queremos que este filme atinja o máximo de pessoas possível, até por acreditarmos que a nossa história pode entreter e emocionar muita gente.

Com certeza todo o caminho é cheio de pedras, não há facilidade na arte, mas qual a maior dica que você pode dar para quem está começando?

Cristiano Calegari: Minha maior dica é: faça o filme que só você poderia fazer. Aquela história ou aquele tema que te move pessoalmente, e que ninguém mais saberia contar do jeito que você conta.

Acho que muita gente confunde isso com fazer o filme que tal festival quer ver, ou que o mercado precisa. Dá pra aliar as duas coisas. Por exemplo, no nosso caso: é fato que o Brasil carece de filmes do gênero Romance, mas nunca adaptaria uma história que claramente deveria ser um suspense ou drama apenas para se encaixar em algo. O Bia (2.0) já foi concebido como Romance desde o curta que fizemos como exercício um ano atrás, ou seja, já nasceu com essa característica.

O que esperar para os próximos anos do Roteirista, Produtor e Diretor: Cristiano Calegari e da crescente Produtora Fat Bear??

Cristiano Calegari:  Primeiro vamos trabalhar para alcançar os resultados que queremos com nosso primeiro Longa, Bia (2.0). Temos outros projetos de série em desenvolvimento, e ideias muito embrionárias de próximos filmes. A produtora está passando por uma fase de reestruturação, então podem esperar por algumas novidades em breve quanto a isso. Eu continuo dando cursos livres de roteiro, e pretendo aumentar a quantidade de aulas neste ano de 2018.

 

Queria primeiramente parabenizá-lo por tamanha dedicação e competência, conseguir um Longa em seu primeiro ano com a produtora é incrível. Algo realmente a se espelhar. Parabéns pelo esforço. Agora para encerrar a entrevista, te presenteamos com este espaço para que convoque o público para assistir Bia (2.0) e deixe uma mensagem para o pessoal do Cinem(ação).

Cristiano Calegari: Obrigado ao pessoal do Cinem(ação) pela oportunidade de estar falando sobre nosso primeiro longa. Espero que sirva de incentivo para mais pessoas irem atrás de seus objetivos e não esperarem ninguém falar para elas que elas “estão prontas”.

Fiquem de olho na página da Fat Bear Produções no Facebook, que nós compartilhamos por lá todas as notícias relativas ao Longa Bia (2.0). É uma história de amor muito bonita e divertida, mas acima de tudo é uma história de amor próprio.

 

 

Ficha técnica:

Bia (2.0)

DIREÇÃO– Cristiano Calegari e Lucas Zampieri

ROTEIRO – Cristiano Calegari e Silvia Seles

DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA – Luiz Felipe Marcondes

DIREÇÃO DE ARTE – Kamila França Lemos

SOM DIRETO – Evelyn Santos

PRODUÇÃO EXECUTIVA – Cristiano Calegari

ESTRELANDO – Maju Souza, Ghilherme Lobo, Olivetti Herrera.

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