Eu Cinéfilo #38: Pátria Amarga
Pátria: texto Eu cinéfilo

Eu Cinéfilo #38: Pátria Amarga

TEM QUEM AME E ODEIE O CINEMA NACIONAL

Cinéfilos têm um certo carinho especial pelo produto feito em nossas terras, um costume, mas isso é algo bem distinto dos demais amantes de Blockbusters Hollywoodianos.

Filme Locais, em sua maioria, são brutalmente prejulgados antes mesmo de serem concebidos. É quase que um costume de mau gosto, um hábito feio, um vernáculo bizarro.

 

MAS ESTE PRECONCEITO COM O CINEMA NACIONAL NASCE DO SEU DESGASTE OU ESTÁ SENDO MAL EXPLORADO??

Não existe uma forma de agradar a todos, uma utopia está longe da realidade, e por mais que temos acertado alguns passos, reajustados alguns transtornos e aprendido a investir e apostar mais na nossa própria obra, ainda temos claras deficiências.

A produção estaria viciada na abordagem de temas como a clássica comédia com tom novelesco, o pesado e perigoso tráfico nas favelas, os documentários, usados muitas vezes como laboratório para o aprimoramento do profissional, e a extremamente partidária temática política.

Ficção Científica, Fantasia, entre outros, são temas que não se vê por aí. Obviamente a produção seria muitas vezes maior e talvez faltaria investimento para tal realização, mas há formas de perscrutar.

 

O CANSAÇO DO BRASILEIRO É GRAÇAS AO USO EXORBITANTE DA MESMA FÔRMA??

 Talvez. Mas com certeza, estes temas são alguns dos motivos do povo se afastar do cartaz tupiniquim e optar pelo gringo. A repressão vem com alguns tons e sabores distintos, desde a falta de intimidade com a nossa película, e vai até a própria ausência de carisma do produto final.

Se não cria um interesse e não atrai, a própria obra se trai.

Esta exaustão é um grande problema que amplifica a inexistência do flerte entre o nosso mercado e o consumidor, tudo parte desta mesmice. Agora generalizando, o nosso Cinema tem medo da mudança, e vem regurgitando novidades, e com isso, não se permite a evolução.

Ascensão é clara, estamos galgando por um lugar ao Sol. A cada ano a produção está mais forte, em 2014 foram 114 lançamentos, 2015 tivemos 128 longas, já em 2016 chegamos a 143, sendo 97 delas só de ficção. São números altos se comparados aos que alcançávamos até 2013, onde inclusive, era um sonho alcançar 3 dígitos.

No ano retrasado fechamos com um pouco mais de 30 milhões de ingressos vendidos, melhor resultado desde 1984. Em 2010 com Tropa de Elite 2 e 2016 com Os Dez Mandamentos, batemos a quase insuperável bilheteria de Dona Flor e Seus Dois Maridos, que vinha na ponta desde 1976.

Estamos colocando atores para estrelar grandes produções norte-americanas, diretores ganhando nome ao dirigir grandes obras fora do país. Batemos na trave algumas vezes, mas ainda assim, não conseguimos conquistar o bom e velho Oscar.

Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

 

POR QUE AINDA TEMOS ESTE PRECONCEITO CONCEBIDO QUANTO AO NOSSO PRÓPRIO PRODUTO??

Um ponto interessante a se ressaltar é: passamos por uma polarização abismal em nossa sociedade. Estamos no auge do ‘’efeito mola’’, onde cada vez que tentamos aproximar mais as suas extremidades, elas são jogadas para lados completamente diferentes. E esses extremos adversos também afetam o nosso Cinema.

Temos como seus gritos de guerra, gente que vê a nossa filmografia como obras burras, preguiçosas e até óbvias, enquanto outros, as defendem bradando por aí a falta de absorção do telespectador a proposta cult ali empregada.

Mas a real resposta além do efeito mola e da prejudicial estagnação de usar a mesma fôrma, temos pontos como: o despreparo, o desespero e a falta de fôlego.

 

EIS OS TRÊS GRANDES PROBLEMAS

O desespero –tanto no pessoal quanto no profissional. No pessoal em transformar logo o que tem no papel em audiovisual, aquele desespero pela falta de facilidade que se teria em algum outro país. E no profissional, que é pressionado de uma forma exagerada, para tentar arriscar qualquer roteiro em que trabalha, o adaptando para algum edital, para enfim dar o primeiro passo rumo ao topo. Muitas vezes descaracterizando completamente a sua assinatura, plot ou conceito, para simplesmente conseguir investimento que não conseguiria de outra forma.

O despreparo – não é unilateral. Não é apenas do povo, como se fossem uma massa ignorante sem esperança nos nossos longas, que saem julgando tudo, simplesmente por não chegar até eles algo que os agrada. Mas também é do profissional que às vezes não respeita o próprio fruto, do crítico que não tem equilíbrio ao compará-lo com superproduções, do criador do conteúdo sem jogo nenhum de cintura para trabalhar com este público sem fé, e também do cinéfilo que vai atrás deste produto, e não tem paciência alguma de repassá-lo para frente.

A falta de fôlego – exatamente o que faz muitas vezes, a mercadoria não ultrapassar essa barreira aborígene. Em palavras mais cruéis e vivas, investimento. Sem a verba necessária para traçar uma estratégia de Marketing de efeito, com manobras de combate perfeitas para tentar arrancar alguma bilheteria dos longas estrangeiros e para municiar da forma certa a importantíssima distribuição, não tem como ter perspectiva, e continuamos na base da fé.

 

ENTÃO HÁ SOLUÇÃO PARA A PELÍCULA VERDE E AMARELA??

Se formos parar para pensar, já passamos pelo Cinema Jeca, completamente caipira nas mãos de Mazzaropi, do Terror chocante e absolutamente Trash de Zé do Caixão e até a vulgar e abrangente Pornochanchada, de mestres como Ody Fraga, Fauzi Mansur e Carlos Reichenbach. Passamos do preto e branco para o colorido, tudo isso em plena Ditadura Militar, e mesmo assim produzimos! Rodamos nossos filmes!! Não deixamos de criar!

Vivemos na era digital. Informações onde quer que esteja, equipamentos surpreendentes, ferramentas acessíveis, praticidade que nunca antes existiu. Estamos conhecendo aos poucos e desbravando a plataforma de Crowdfunding, que tem tudo para evoluir não só o independente sonhador, como o perito da área, seja usando como uma pré-venda ou até mesmo como propaganda. Hoje temos a ANCINE (Agência Nacional de Cinema) no qual está longe de ser perfeita, mas está aí para nos ajudar trazendo dinheiro de empresas para a sétima arte. Agora existem os formatos de Web Séries e os incríveis Streaming, que nos ajudam alcançar pessoas remotas com investimento quase nulo. E talvez o melhor de tudo, seja se espelhar e se inspirar nos nossos grandes nomes e os que estão arrebentando na atualidade; Fernando Meirelles, Sônia Braga, José Padilha, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Afonso Poyart, Wagner Moura, Laís Bodanzky, entre tantos outros talentos que demonstram além de tudo essa superação.

Uma vez que sabemos onde estão essas falhas, no que estamos realmente errando, para onde projetamos chegar, e o que queremos levar, podemos enfim desenvolver e implementar planos e contingências para que aquilo se realize. Explorando cada vez mais todos os recursos possíveis que a nossa era pode nos dar, sem nunca deixar de arriscar, porque a imaginação é tudo, seja qual for a arte. Testar coisas novas. Se permitir.

Temos o povo mais criativo e sonhador do Mundo, e Filmes que deixariam qualquer um boquiaberto com sua beleza e profundidade. Temos o direito e principalmente o dever de fazer isto acontecer. Ganhando nossa gente, conquistaremos o Oscar e o Mundo.

Um passo de cada vez, mas todos para frente.

 

Texto escrito por Bruno Sorc.

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  • Muito bom texto! O brasileiro tem muito potencial

  • Muito bom o artigo ! O brasileiro tem muito potencial só precisa explorar

  • Samy San

    Bem a minha opinião sobre o tema é que em alguns filmes nacionais as piadas geralmente são forçadas. Tipo não dá para classificar todos os filmes, apenas assistindo alguns, como é o meu caso. Espero que mesmo assim, o cinema nacional consiga quebrar cada vez mais barreiras!

  • Rike Deodato

    Parabéns pelo texto ^^V =) Cinema nacional tem várias surpresas, quem não curtiu o Auto da compadecida? Vale muito a pena fomentar, incentivar e sempre prestigiar o audio visual brasileiro, mas não vamos nos esquecer de uma arte que tb precisa de nossa atenção, a dublagem (um pouco fora do assunto, mas que sofre do mesmo preconceito) que não é levada a sério “não vejo filme dublado! “.